quinta-feira, 15 de outubro de 2026
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
“A Bicicleta na Ponte”
“A Bicicleta na Ponte”
“Abençoados os
corações flexíveis; pois nunca serão partidos”.
Albert Camus
A noite caía
como um véu gasto, deixando apenas uma fresta de luz alaranjada entre os
prédios e o rio. A ponte era estreita, um arco de ferro enferrujado onde passos
sempre ecoavam como um lembrete da solidão. Foi ali que ela viu: a bicicleta
encostada no corrimão, solitária, com a roda dianteira ainda girando, lenta,
como se tivesse sido abandonada segundos antes.
Havia algo de
perturbador na cena. Nenhum ciclista, nenhum som de fuga. Apenas a bicicleta,
imóvel, como se fosse o testemunho silencioso de uma ausência. E o que é uma
roda que gira sozinha, senão o testemunho de uma ausência?
Não havia
ninguém por perto. Apenas o vento arranhando o ferro da ponte e um silêncio que
parecia se alongar mais do que deveria. Ela parou. Sentiu o vento frio levantar
os fios soltos do cabelo e percebeu a si mesma: presa entre a vontade de ir
embora e a estranha necessidade de decifrar aquele enigma. Certos objetos,
quando são arrancados da banalidade cotidiana, ganham uma presença incômoda,
como enigma a ser decifrado. Sartre escrevera que estamos condenados à
liberdade; e ali, diante da bicicleta, a liberdade lhe parecia uma sentença —
cada escolha, uma possibilidade, um abismo. E seu amigo Camus, dizia que o
absurdo nasce do divórcio entre o homem e o mundo, e. naquele instante, o
absurdo tinha a forma de um quadro metálico, duas rodas, uma ausência de dono.
De repente, uma
figura surgiu do outro lado da ponte. Um homem. Caminhava lento, mãos nos
bolsos, olhar perdido em algum ponto do asfalto. Os olhos dele cruzaram os
dela, e por um instante sentiram-se cúmplices de algo não dito, como se ambos
soubessem que a bicicleta era um enigma compartilhado.
— É sua? — ela perguntou, num tom
quase acusatório.
— Não — respondeu ele, mas a pausa antes da palavra deixava a dúvida suspensa
no ar.
A bicicleta
continuava ali, metálica, um objeto ordinário transfigurado em mistério. O
homem se aproximou, e a luz dos postes revelou a curva de seu sorriso, algo
entre ironia e sedução. Ela sentiu uma onda de calor percorrer o corpo, como se
o desejo pudesse nascer exatamente desse não saber — do mistério, do acaso. Camus
teria chamado aquilo de absurdo: um objeto sem dono, uma ponte vazia, duas
pessoas unidas pela estranheza. Mas para ela, a estranheza era também erótica.
O silêncio entre os dois não era vazio; era uma promessa.
Ele tocou no
guidão da bicicleta, como se testasse seu peso. Ela, quase sem pensar, apoiou a
mão sobre a dele. O gesto simples foi também uma invasão, uma revelação: o
toque despertava não apenas desejo, mas também o medo de existir, de se lançar
no jogo que a vida exige.
— Talvez — disse ele, olhando-a nos
olhos — essa bicicleta seja apenas um lembrete.
— De que?
— De que a ponte nunca é só passagem. É também o lugar onde decidimos se atravessamos...
ou se ficamos.
As pontes são
trampolins do destino. Ou se atravessa, ou se retorna. Mas também há a
possibilidade de permanecer no meio — e aí começa a condenação da liberdade.
Ela sorriu,
sentindo-se despida não por mãos, mas pela intensidade daquela frase. Milan
Kundera dizia que o acaso governa nossas vidas com uma crueldade doce. E ali,
na ponte, ela se perguntava se o acaso não era apenas a forma mais elegante do
destino.
O homem se
inclinou levemente para ela. O hálito dele era quente, e o desejo se misturava
ao medo. Por um momento, quis que ele a beijasse, mas também temeu que esse
beijo dissolvesse o mistério. Porque o mistério, mais que o prazer, a mantinha
viva.
O vento soprou
forte, fazendo a bicicleta tombar contra o chão com um estrondo seco. E naquele
som havia um veredito: o mistério não suporta ser prolongado demais. Eles se
afastaram instintivamente, como se a queda fosse um sinal.
O homem a
observou por mais um instante. Depois, sem dizer nada, virou-se e atravessou a
ponte. Ela permaneceu ali, diante da bicicleta caída, sentindo que o real se
abria como o véu rasgado do templo: não havia dono, não havia explicação, não
havia narrativa. Apenas ela, a bicicleta e o vazio. A bicicleta caída diante
dela parecia acusá-la: nada se explica, nada se completa.
Atravessar ou
não a ponte? Ela sabia, enfim, que nenhuma resposta viria de fora. A existência
era isso: estar só, com a liberdade pesando como ferro frio sobre os ombros.
Pegou a
bicicleta pelo guidão, endireitou-a, e então a montou. Não porque fosse dela,
mas porque, naquela noite, decidiu que seria. E partiu, pedalando pela
escuridão, como se fugisse e, ao mesmo tempo, se encontrasse. Não para chegar a
algum lugar, mas porque naquela noite, a travessia era a única forma possível
de existir. E no som das engrenagens, havia a confissão silenciosa de que todos
somos, no fundo, apenas bicicletas abandonadas sobre a ponte do tempo.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2025
REFLEXÕES DE UM PSICÓLOGO DE UM POSTINHO DE SAÚDE 2
terça-feira, 29 de outubro de 2024
GREGÓRIO DE MATOS: Mortal Loucura
Gregório de Matos e Guerra, conhecido como "o Boca do Inferno", foi um notável poeta barroco nascido em Salvador, Bahia em 1636. Foi uma figura chave da literatura colonial do Brasil, famosa por seu estilo satírico e mordaz, com o que criticou duramente a corrupção e a hipocrisia da sociedade da sua época, especialmente a igreja e a elite de Salvador.
Estudou direito na Universidade de Coimbra, em Portugal, e posteriormente trabalhou na administração colonial. No entanto, seu caráter inconformista e sua escrita afiada levaram-no a ganhar inimigos poderosos, o que custou o exílio e uma vida de conflitos com as autoridades. Sua obra poética vai da sátira até a poesia lírica e religiosa, e embora não tenha visto suas obras publicadas em vida, seu legado foi perdurado como um símbolo de resistência e crítica social na literatura brasileira. Gregório de Matos faleceu em Recife em 1696.
Abaixo um de seus poemas mais filosóficos, o soneto Mortal Loucura, que pode ser apreciado na belíssima interpretação de Maria Betânia, musicada por José Miguel Wisnik. Confira no YouTube.
segunda-feira, 28 de outubro de 2024
WILHELM REICH - Citações
Wilhelm Reich (1897–1957) foi um médico, psicanalista e teórico social austríaco, conhecido por suas investigações sobre a energia orgonica e sua manifestação para a psicologia e a sexualidade humana. Discípulo de Sigmund Freud, Reich foi um dos primeiros a conectar a teoria psicanalítica com conceitos sociais e políticos, defendendo a ideia de que a repressão sexual estava relacionada a problemas psicológicos e sociais.
Reich emigrou para os Estados Unidos em 1939, onde continuou suas investigações. No entanto, suas teorias foram tachadas de pseudociência, e em 1954 a FDA ordenou a destruição de seus acumuladores de orgone e seus escritos. Reich foi encarcerado em 1956 por desobedecer esta ordem e morreu na prisão um ano depois.Seu legado é polêmico: embora tenha sido rechaçado pela ciência oficial, suas ideias influenciaram o movimento da contracultura nos anos 60 e algumas correntes da psicoterapia contemporânea, por ter incluído o corpo na psicoterapia.
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Que é então necessário que eu faça para me transformar no
suporte da sociedade humana?
Nada terás que fazer de extraordinário ou de novo - basta
que continues arando os teus campos, usando o teu machado, examinando os teus
doentes, levando os teus filhos à escola ou ao campo de jogos, contando aos
teus o teu dia a dia, tentando penetrar mais fundo nos segredos da natureza. Tudo
isso já és capaz de fazer - embora o tenhas na conta de insignificante perante
os feitos do general cheio de condecorações ou príncipe inchado, cavaleiro de
armadura reluzente. (In: Escuta, Zé ninguém! p. 101)
Se o misticismo religioso nega o próprio princípio da
economia sexual, se condena a sexualidade como um fenômeno humano errado que só
pode ser redimido no além, o fascismo nacionalista transfere a sensualidade
sexual para a “raça estrangeira”, relegando-o assim a uma posição inferior. O
rebaixamento da raça estrangeira coincide a partir de agora, organicamente, com
o imperialismo Da fase tardia do patriarcado. (In: Psicologia de massas do
fascismo. P. 85)
Freud era diferente. Enquanto
os outros desempenhavam um papel qualquer - o do professor, o do grande
conhecedor do caráter humano, o do cientista eminente -, Freud não se dava ares
de importante. Falou comigo como uma pessoa absolutamente comum. Tinha um olhar
vivo e inteligente, que não procurava penetrar o olhar do interlocutor com
qualquer espécie de pose, mas olhando simplesmente o mundo de uma forma honesta
e franca. (In: A função do orgasmo. P. 39)
domingo, 27 de outubro de 2024
ANTONIO CÍCERO
Antônio Cícero foi um poeta renomado, ensaísta e filósofo brasileiro, nascido em 1945 no Rio de Janeiro, e morto recentemente no dia 23 do corrente, em Zurique na Suíça.
Irmão da cantora Marina Lima, ele também contribuiu intensamente para a música popular brasileira, escrevendo letras marcantes para artistas como sua irmã Marina Lima, Adriana Calcanhotto e Caetano Veloso. Formado em Filosofia, Cícero é reconhecido pela sua exploração de temas profundos como a natureza do tempo, a transitoriedade da vida e a essência das relações humanas.Em seus versos, transita por temas existenciais com uma linguagem clara e precisa, com influências da filosofia. Abaixo, uma de suas poesias mais conhecidas, entre as não musicadas. (Foto do Jornal da Band)
Guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
sábado, 19 de outubro de 2024
REFLEXÕES DE UM PSICÓLOGO DE UM POSTINHO DE SAÚDE - 1
Desde 2018 - com pausa em 2020 devido a pandemia - atendo num postinho de saúde da periferia de Maceió. Postinho por ser pequeno, em área construída, mas grande em termos de quantidade de atendimentos.
O posto, ou UBS como chamamos atualmente, conta com cinco médicos clínicos, uma ginecologista, um pediatra, algumas enfermeiras e alguns dentistas, três psicólogos, um farmacêutico, uma assistente social, e demais funcionários da área administrativa.
A população parece satisfeita com os atendimentos, parecem entender o compromisso dos profissionais dali, que apesar das condições - às vezes - complicadas pela falta de recursos, dão o melhor de si para prestar um atendimento decente à população.
Em relação aos atendimentos em psicoterapia, que é o que faço, atendemos uma demanda espontânea de vários tipos de transtornos psíquicos: casos que nos chegam com diagnósticos os mais variados possíveis, esquizofrênicos e outros psicóticos, depressivos, ansiosos, adictos (álcool, cocaína, maconha e crack), jogadores compulsivos, adolescentes e crianças com problemas diversos, e também pessoas que não estão bem, passando por problemas existenciais em busca de alívio para seus sofrimentos.
E será sobre isso que irei começar essa série sobre os atendimentos a essa clientela, que me proporcionam uma oportunidade de compreender (e muitas vezes de não compreender, mas sobretudo, de aprender) e trabalhar com esses conteúdos, tão ricos da experiência humana de "estar no mundo", de ser o que se é no momento presente do encontro. Então, aguarde as próximas postagens.



