segunda-feira, 19 de outubro de 2026

PÁTRIA AMADA?

 

Pátria Amada?

 

“A cadela do fascismo está sempre no cio”

 Bertoldt Brecht.

 

A sala onde se encontravam era apertada, mal iluminada, com cortinas grossas fechadas para que nenhum vizinho curioso espiando pudesse suspeitar. Um ventilador barulhento tentava empurrar o calor da noite, mas só espalhava o cheiro de mofo e café velho. A Bíblia aberta sobre a mesa parecia um estandarte sagrado que legitimava qualquer palavra que saía da boca dos quatro. As quatro bestas do Apocalipse brasileiro.

Adalberto, o mais exaltado, repetia como um mantra:
— O Brasil foi roubado. O povo de Deus não aceita ser governado por um ladrão.

Silvana, mulher de meia-idade, dona de um salão de beleza em declínio, abanava-se com a própria mão. Seu rosto vermelho pelo calor e pela raiva refletia a febre de sua crença.
— Os pastores já disseram: a vitória foi do inimigo. Mas o Senhor nos dá armas espirituais e também carnais, se for preciso.

Rogério, ex-policial militar, expulso da corporação por “excesso de violência” — como se fosse possível um excesso nesse ofício, pensava ele — mascava chiclete com a boca aberta.
— Democracia é invenção de comunista. Isso aqui precisa é de ordem. É só o povo tomar a frente que os generais entram. Eu conheço uns ainda fiéis. Estão esperando só um sinal.

Denise, a mais nova do grupo, trabalhava como auxiliar administrativa numa empresa de transportes. Carregava sempre o crucifixo de metal no pescoço, como se fosse prova de sua pureza. Falava pouco, mas quando falava deixava escapar o veneno:
— Esses gays, essas feministas, esses pretos folgados… O país virou bagunça. Se a gente não se levantar, eles tomam conta de tudo. A pátria não é deles.

O silêncio posterior à frase era carregado. A Bíblia, sobre a mesa, parecia respirar junto com eles. Adalberto foi o primeiro a quebrá-lo, batendo na madeira com o punho fechado.
— Vamos a Brasília. O Congresso é a casa do povo, não desses vagabundos. A gente entra, mostra força. E quando a confusão estourar, o Exército não vai ter escolha. Vão ter que assumir.

Rogério sorriu com um brilho fanático nos olhos.
— Já falei com uns caras. Gente de confiança. Vão levar bandeira, vão levar corda, vão levar o que precisar. Se tiver que quebrar vidro, a gente quebra.

— E a imprensa? — perguntou Silvana, inquieta. — Eles vão dizer que somos terroristas.

Denise riu de leve, quase infantil.
— A imprensa mente. Mas Deus vê a verdade. E a história vai contar do nosso lado.

Dois dias depois, embarcaram em uma van alugada. Levavam mochilas cheias de bandeiras verde-amarelas, garrafas de água, facas de cozinha, lanternas, alguns rojões e uma fé inabalável. Enquanto a estrada corria, Silvana puxava cânticos evangélicos, transformando o veículo em um culto itinerante. Os motoristas dos postos de gasolina onde pararam olhavam com estranheza aquele grupo que falava em “missão divina” e “purificação da pátria”.

Quando avistaram, ao longe, as cúpulas do Congresso Nacional brilhando sob o sol de domingo, sentiram uma espécie de êxtase. Era como chegar a Jerusalém. O ar parecia vibrar de antecipação.

— Hoje é o dia da libertação — murmurou Adalberto, quase em transe.

Milhares já estavam reunidos na Esplanada, vestidos com camisetas da seleção, carregando cartazes e cruzes improvisadas. O verde e amarelo se misturava ao cheiro de suor, milho cozido e gasolina. Alguns falavam em golpe, outros em oração. As vozes formavam uma massa dissonante de desespero e esperança.

Rogério, em meio à multidão, sentia-se de volta ao batalhão.
— É agora ou nunca! — gritou.

A barreira de policiais era frágil diante da fúria coletiva. Gritos de “Fora comunistas!” e “Intervenção já!” ecoavam como trovões. O grupo se lançou à frente, empurrando, quebrando, escalando as rampas do Congresso. Vidros se estilhaçavam, portas arrebentavam. Bandeiras eram fincadas sobre móveis destruídos como se fossem troféus.

Dentro, os quatro se separaram. Silvana ajoelhou-se no chão do plenário vazio, erguendo os braços para o teto e clamando em línguas estranhas. Denise rasgava papéis sobre uma mesa, como se eliminasse símbolos impuros. Adalberto berrava com voz rouca que “a pátria era de Deus e não dos ímpios”. Rogério, mais prático, chutava cadeiras e arrancava fios da parede, como se destruindo aquilo pudesse apagar a democracia.

Mas a euforia tinha gosto de fumaça. Logo bombas de gás lacrimogêneo começaram a explodir. O cheiro ardia nos olhos e queimava a garganta. O barulho de helicópteros zunia no céu. A polícia avançava com escudos e cassetetes.

O que era êxtase transformou-se em pânico. Correria, quedas, gritos. Silvana foi arrastada por soldados enquanto clamava “Glória a Deus!”. Rogério tentou resistir, mas levou uma coronhada que o fez cuspir sangue. Denise, em choque, repetia sem parar que “Deus estava no controle”. Adalberto, algemado, ainda bradava que “os generais viriam”, embora soubesse, no fundo, que não viriam.

Dias depois, nas celas superlotadas, os quatro se reencontraram brevemente. O fervor ainda existia, mas agora manchado pelo medo.

— Eles vão ver… — dizia Adalberto, a voz cansada. — Isso aqui não acaba assim.

Silvana chorava baixinho, pedindo perdão a Deus sem saber se por covardia ou por orgulho. Rogério mascava o ar, como se ainda tivesse o chiclete entre os dentes, olhando fixo para o nada. Denise apertava seu crucifixo até a mão sangrar.

Lá fora, a vida seguia. A democracia, ferida, tentava se recompor. A pátria, amada e odiada, sobrevivia apesar de seus filhos.

No fundo, sabiam: não seriam lembrados como heróis. Apenas como um espetáculo grotesco, uma cicatriz no rosto do país.

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