“Vozes do Interior”
“Nossa dor vem da
distância entre aquilo que somos e o que idealizamos ser.”
Friedrich Nietzsche
Ela se chamava Rosimeire, mas preferia que
a chamassem de Rosi — dizia que soava mais leve, mais moderna, menos sertão e
mais cidade. Tinha vindo de Itacuruba, sertão de Pernambuco, aos vinte e um,
com a roupa do corpo, o cabelo trançado e a mãe implorando para ela não se
perder em cidade grande. A cidade grande, no caso, era Recife. Nem tão grande
assim, mas para quem vinha de um povoado perdido as margens do São Francisco, lá
onde Pernambuco e Bahia se encontram, chegar à capital era como chegar em São
Paulo.
Veio parar na casa do deputado estadual
Rubem Acioli — um progressista de palanque, reacionário de mesa de jantar,
corrupto como muitos. A patroa, dona Gilda, a tratava com um paternalismo de
missa e rosário, e Rosi se conformava. Limpava, cozinhava, cuidava dos filhos
pequenos do casal como se fossem dela. Até que, num janeiro de calor infernal,
cruzou com João. Motorista da família, viúvo recente, calado e gentil.
Começaram trocando palavras tímidas na área de serviço. Um mês depois, estavam
casados. Casar-se, na prática, foi dividir o quartinho dos fundos da casa do
deputado, nos limites da garagem.
Tiveram dois filhos. João era trabalhador,
honesto, um bom homem — e absolutamente inapto quando se tratava de sexo. As
primeiras vezes foram rápidas, higiênicas, quase eclesiásticas. Ele pedia
desculpa depois. Ela fingia que estava tudo certo. E foi fingindo, fingindo,
fingindo... até que um dia não deu mais. Numa noite sem crianças e com muito
silêncio, ela chorou durante o ato. Disse que não sabia se era culpa dela ou de
Deus, mas nunca tinha sentido prazer. Nunca. Nenhum. Nenhum mesmo. João fez
cara de espanto, como se isso fosse uma acusação absurda — "mas eu sou seu
marido, Rosimeire!". Como se o título lhe garantisse a eficiência. Como se
o anel no dedo produzisse orgasmos por osmose.
Ela queria cantar. Sempre quis. Desde
menina inventava letras na beira do fogão à lenha. Mas ali, no concreto úmido
do quartinho com cheiro de mofo e leite azedo, era apenas uma mulher sem
orgasmo e sem futuro. Até que a Secretaria de Cultura da cidade abriu vagas
para um curso popular de canto e violão. O projeto “Som da Periferia”, ensinar
música, teoria e prática para a população pobre, oportunidade imperdível, além
de ser gratuito e com direito a certificado de conclusão. João resmungou, mas
permitiu — “desde que não volte tarde”. Ela prometeu que seria só por
aprendizado – não pretendia seguir carreira artística - mentira. Mas no fundo,
era a busca por alguma coisa que ela não sabia nomear. Um som interior, talvez.
Um grito abafado há anos.
Na primeira aula conheceu Marcelo.
Professor de canto, quarenta e poucos, separado, meio boêmio, meio místico.
Tinha um cheiro diferente, um jeito de olhar que fazia Rosi se sentir
desconfortável. Ele não olhava como João. Ele olhava através. Sabia quando ela
desafinava por vergonha, quando a letra não saía por medo. E um dia, sem pedir,
colocou a mão em seu queixo e disse: “sua voz está presa, Rosi. Solta ela.
Solta você.”
Soltar-se virou necessidade.
Foram almoços prolongados, tardes num
estúdio improvisado nos fundos de uma ONG. Um beijo. Outro. E então, o corpo —
aquele corpo que ela achava defeituoso, incapaz de sentir — de repente era um
campo elétrico. Marcelo não tinha pressa. E quando veio a primeira explosão, o
primeiro tremor de verdade, ela chorou de novo — mas agora por descobrir que
não era frígida, nem danificada, apenas mal-amada.
Com Marcelo, conheceu tudo que tinha
ouvido falar pelas amigas da feira — e que, secretamente, achava invenção. Sexo
oral. Muito. Demorado. E o outro, o tal anal, que ela pensava ser só coisa de
filme pornô, e que acabou se tornando vício. Era o inverso da vida com João: em
vez de esconder, ali ela podia ser devassa. Gostava de dizer palavrões. Gostava
de pedir que ele a fodesse com força. Gostava de gozar alto. E gostava da culpa
que vinha depois. Porque sim, a culpa também era um gozo. Um gozo torto, moral,
católico.
O casamento, claro, afundou. João não
entendeu. “Você quer ser cantora, é? Com dois meninos pequenos? Vai sair por aí
mostrando o corpo, saias curtas, rebolando? Isso é coisa de puta, Rosimeire!”
Ela não respondeu. Na verdade, queria mesmo era gritar: "puta não,
João. Mas mulher, sim. Inteira. De carne viva. De voz solta."
Quando saiu de casa, levou os meninos.
Marcelo a acolheu por uns meses, mas ele também não era feito para a vida
doméstica, um casamento — queria liberdade, não filhos pequenos chorando à
noite. Separaram-se com civilidade.
Hoje, Rosi canta nas noites de sexta e
sábado em bares do Recife Antigo e nas festas juninas faz pequenos shows em
Caruaru e cidades vizinhas. Voz rouca, presença forte. Os filhos ficam com a
vizinha. Ela ainda se sente sozinha às vezes. Mas agora, ao menos, sabe que
existe. Que sente. Que goza. Que ama. Que pode ser amada. E que sua voz —
aquela voz que um dia ficou presa entre fraldas, pano de chão e orações — agora
sai limpa. E suja, quando quer. Porque é dela. Inteiramente dela.
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