quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O PESO DOS DIAS

 

O Peso dos Dias

 

Que quantidade de bom gênio e humor é necessária para suportar esta horrível história de envelhecer”.

Sigmund Freud

 

Acordo sempre antes do sol. Já não preciso de despertador: é o corpo que me chama, com suas dores persistentes e seu cansaço intratável. O sono me abandona como uma mulher que já não encontra interesse. Levanto-me devagar, escutando o concerto de estalos vindos das articulações — parece que dentro de mim vive uma casa antiga, rangendo a cada movimento. É curioso: quando jovem, nunca pensei nos ossos. Eram invisíveis, discretos, sustentando-me sem que eu notasse. Agora, eles se impõem, lembrando-me a cada passo que o tempo não é uma abstração, mas um peso.

Tenho artrose nos joelhos, o quadril enrijecido, a lombar como um ferro enferrujado e duas hérnias de disco a pressionar o nervo ciático. O médico fala de colágeno, de cartilagem gasta, de paciência. Paciência... palavra bonita, mas que, aplicada ao corpo, significa apenas resignar-se a ser prisioneiro do próprio esqueleto.

Na juventude, meu corpo era um cúmplice, pronto para o trabalho, para as mulheres, para as noites sem fim. Hoje, é um inimigo lento, resistente, que me arrasta para um território desconhecido: o território da velhice. Outro dia assisti na tv a uma prova de natação e me lembrei de como gostava de piscinas, de mergulhar, de trampolim, até arriscava uns malfeitos “saltos-mortais”, se tentasse hoje meu salto certamente faria jus ao nome, um salto mortal, fatal mesmo.

A aposentadoria chegou como um presente envenenado. A promessa era de liberdade: tempo para ler os livros que nunca li, para caminhar sem pressa, para observar a vida. Mas descobri que o excesso de tempo é um espelho. E o que vejo refletido não é apenas um homem solitário, mas um homem que já não encontra lugar no mundo. O relógio corre, mas não me chama para nada. Sou uma peça fora da engrenagem.

No silêncio das manhãs, observo as pessoas na rua. Os jovens passam com seus passos firmes, como se o futuro fosse infinito. Não sabem ainda que o corpo é um contrato de prazo curto. Eu os vejo e sinto um desejo estranho — desejo de voltar a ter aquela pele tensa, aqueles músculos obedientes. Mas o desejo também se estende às mulheres que passam, tão novas, tão alheias a mim. Não é só desejo carnal, é também nostalgia: nelas vejo a juventude que já não me pertence. E, ao mesmo tempo, me sinto ridículo. Um velho desejando jovens. O corpo não acompanha, mas a mente insiste em sonhar. É cruel ainda querer, quando já não se pode. É a própria lógica do desejo, que só existe na falta.

Às vezes me pergunto: qual é a função do desejo na velhice? Talvez seja apenas uma confirmação de que estou vivo. Porque o dia em que eu não desejar mais — nem uma bela mulher, nem um gesto de carinho, nem sequer um olhar — será o dia em que já estarei morto, ainda que respirando.

A solidão, essa sim, é uma presença constante, mas não me aborrece. Aposentei-me do trabalho, mas também, de certo modo, da vida social. Amigos se foram, outros perderam o viço, alguns simplesmente se apagaram da memória. Fico na varanda, assistindo ao movimento da cidade. É como se eu estivesse numa plateia invisível, enquanto a peça continua sem mim.

Não me revolto. A revolta exige energia, e a energia, essa sim, é artigo escasso. O que resta é uma espécie de aceitação melancólica. Aprendi que envelhecer é carregar pedras nos bolsos: a cada ano mais pesadas, mas também familiares (lembrei de Virginia Woolf carregando pedras nos bolsos a caminho da morte). Passamos a andar mais devagar, mas também aprendemos a observar melhor a paisagem.

O corpo me limita, é verdade. Mas a mente... a mente ainda se expande. Penso na morte todos os dias, mas sem medo. É mais como se fosse uma visita que um dia chegará — não sei quando, mas sei que virá. O pensamento da morte me traz paradoxalmente um certo consolo. Porque se viver é esse esforço diário contra a decadência, morrer talvez seja apenas descansar.

Enquanto isso, vou encontrando beleza nos detalhes: o sol da tarde se pondo atrás dos prédios e iluminando as rugas da minha mão; o cheiro de café fresco, lembrando manhãs antigas; o riso distante de uma criança, lembrando que o mundo continua.

No fim, penso que envelhecer não é perder — é mudar de lugar. Quando jovem, eu era protagonista da história, na maioria das vezes. Agora, sou testemunha. Assisto, contemplo, reflito. Não é um papel menor. Talvez seja até mais profundo. E quando, à noite, deito o corpo cansado na cama, penso que cada dor é também uma lembrança: uma cicatriz do tempo, um capítulo vivido. O corpo falha, mas as memórias permanecem.

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