“A
mulher do soldado”
por um discípulo de Brás Cubas
Era casada, sim. E com um cabo da Brigada Militar,
o que, por si só, já conferia ao casamento uma certa rigidez que não era apenas
a da farda. Chamava-se Eugênia — nome suave, quase aristocrático, que
contrastava com a dureza marcial da casa onde morava.
O marido, Joaquim Alves, mais conhecido por essas
bandas como Quincas Soldado, homem austero, honesto e de silêncios pesados. Se
o amor existira um dia, encolhera-se nas frestas dos móveis, junto às pastas de
ocorrência e aos coturnos embolorados.
Ora, quem esperaria de Eugênia alguma
transgressão? Era religiosa aos domingos, costurava à tarde e tratava da sogra
enferma com resignação beatífica. Mas até os sinos de igreja, quando mal
afinados, ressoam desejos dissonantes. E o interior de sua cabeça era
semelhante a um sino desafinado.
É preciso dizer, sem rodeios, que Eugênia possuía
um amante. Sim, um. Somente um, o que — ela mesma argumentava diante do espelho
— já era prova de contenção e moralidade relativa. “Se louca ou incontida
fosse, seriam dez”, pensava ela. Chamava-se Marcos, era despachante de seguros
e tinha a língua mais hábil que sua caneta.
Encontravam-se às quintas-feiras, entre as duas e
as quatro da tarde, horário em que o marido estava em curso de tiro ou rondando
os becos suburbanos. O apartamento? De um conhecido de Marcos, que o alugava
para encontros fugazes — e discretos, naturalmente.
Mas, veja bem, leitor severo, não se tratava de
adultério completo, ao menos nos termos do Código Penal das consciências
católicas. Eugênia havia imposto um limite: não haveria penetração.
— Se Deus quiser, tudo pelos lábios. Só pelos
lábios — dissera ela, num dos primeiros encontros, puxando o vestido para cima
com mais zelo do que volúpia.
O argumento era engenhoso, ainda que triste: temia
que o marido, homem atento e possessivo, descobrisse algo. Um cheiro, um traço
de sêmen, um deslocamento sutil que o instinto militar decifraria como crime.
E assim, entre beijos, dedos e o que se pode
chamar de ofício bucal de duplo sentido, consumava-se a paixão em silêncio —
não menos intensa por ser contida. Ao contrário, tornava-se ainda mais densa,
como vinho guardado demais.
Houve quem dissesse que o verdadeiro pecado do
adultério está na intenção, e não na mecânica. Eugênia, porém, preferia uma
teologia mais tolerante: enquanto o corpo se mantivesse tecnicamente inviolado,
a alma poderia gozar em paz.
Mas eis que, como tudo o que é demasiado perfeito,
a rotina começou a ranger. Marcos passou a desejar mais. Queria “completude”,
como dizia com certo dramatismo, como se a nudez parcial fosse uma mutilação
espiritual. Já Eugênia sentia-se cada vez mais dividida, não entre dois homens,
mas entre duas versões de si mesma — a que servia à ordem e a que saboreava o
desvio.
Foi então que, numa tarde de chuva, depois de um
gozo mútuo e demorado, ela recolheu suas roupas, virou-se para ele e disse com
serenidade:
— Acabou, Marcos.
Ele pensou que fosse um capricho. Tentou rir. Mas
o olhar dela era o mesmo com que servia o café ao marido: firme, resignado,
irreversível.
— O quê? Por quê?
— Porque meu pecado já não se esconde nos
detalhes... Ele cresceu, Marcos. Cresceu demais para caber entre os dentes.
Saiu sem mais palavras. Passou por uma senhora no
corredor, sorriu discretamente e desceu as escadas como quem retorna de uma
confissão.
Nunca mais se viram.
Ela voltou às suas quintas-feiras de costura. O
marido, como sempre, nada soube. Ou, se soube, guardou para si, como os homens
silenciosos costumam fazer com as dores — ou com os cadáveres.
Eugênia, essa, viveu o resto da vida fiel a não se
sabe o que, só não era a seu desejo. Fiel como uma santa, com um segredo nos
lábios e o gosto de um passado que nunca chegou a ser inteiro.



