quinta-feira, 5 de novembro de 2026

A HISTERIA DE HIPÓCRATES A FREUD

 

HIPÓCRATES (460-370 a.e.c.): Na medicina hipocrática (Grécia Antiga, cerca de século V a.e.c), a histeria estava diretamente ligada à ideia de um distúrbio do útero — tanto que o próprio termo “histeria” vem do grego hystéra (ὑστέρα), que significa útero.

  O útero era visto como um órgão móvel dentro do corpo da mulher.

·        Acreditava-se que, se a mulher permanecesse muito tempo sem relações sexuais ou sem engravidar, o útero poderia “subir” ou “migrar” pelo corpo em busca de umidade, comprimindo outros órgãos.

·        Essa “migração” causaria sintomas como desmaios, falta de ar, ansiedade, palpitações, convulsões, e até alterações de comportamento — o que hoje chamaríamos de sintomas somáticos e psíquicos.

 Teoria do “útero errante” (uterus migrans):

·        Se o útero subisse em direção ao diafragma, causaria sufocação e sensação de aperto no peito.

·        Se descesse, poderia provocar dores abdominais e fraqueza.

Tratamentos propostos:

·        Aromas agradáveis perto da vagina (para “atrair” o útero de volta).

·        Pedra d’Espanha: um peso para evitar o deslocamento da matriz.

·        Odores fortes e desagradáveis no nariz (para “expulsar” o útero de regiões superiores).

·        Incentivar casamento e relações sexuais, pois a gravidez era vista como “cura”.

 

IBN SINA (980–1037 e.c.): médico e filósofo persa, tratou da histeria dentro de seu Cânone da Medicina (Al-Qanun fi al-Tibb), a grande enciclopédia médica que sistematizou o saber greco-islâmico.

·   Ele herdou a noção hipocrática e galênica de que a histeria estava ligada ao útero e a distúrbios reprodutivos.

·        Descreveu sintomas como sufocação, convulsões, sensação de bola subindo pela garganta, mudanças de humor e estados de transe.

·      Considerava que a histeria poderia resultar de retenção de humores ou de ausência de relações sexuais e menstruação irregular.

·        No Cânone, usa termos como “sufocação uterina” (ikhtenaq al-rahim), equivalente à hysterike pnix dos gregos.

Diferença em relação aos gregos:

·        Avicena incorporou também aspectos psicológicos, reconhecendo que fatores emocionais e mentais podiam agravar o quadro.

·        Recomendava não só intervenções físicas (aromas, banhos, massagens), mas também cuidados com o estado mental da paciente.

 Importância histórica:

·    A abordagem de Avicena manteve viva a teoria do “útero errante”, mas também abriu espaço para compreender a histeria como um fenômeno corpo–mente. Seu texto foi referência na medicina europeia até o século XVII.

Essas concepções persistiram por séculos, influenciando até a medicina medieval e renascentista. Só no final do século XIX, com os estudos de neurologia (como os de Charcot e Freud), a histeria começou a ser reinterpretada como uma condição ligada ao sistema nervoso e à psique, e não ao útero.

Podemos afirmar que a psicanálise surgiu a partir do interesse de Freud pela histeria, ainda quando estudante e pesquisador em neurologia. Foram as pesquisas feitas, inicialmente ao lado de Charcot, Bernheim e J. Breuer, e posteriormente sozinho, com a clínica da histeria que o levaram a formular e desenvolver o conceito de inconsciente como sistema dinâmico. Até a sistematização desse conceito, o caminho percorrido por Freud foi longo e tortuoso. Sob a influência na tradição médica austríaca, representada por Brucke, Meynert e outros, Freud concentra-se na pesquisa neurofisiológica até meados de 1885, quando embarca para Paris e matricula-se no curso do eminente médico Jean-Martin Charcot.

Durante as primeiras semanas em Paris, Freud trabalhou no estudo microscópico de cérebros infantis no laboratório que Charcot mantinha na Salpêtrière. O resultado disso foram dois trabalhos: um sobre afasia e outro sobre paralisia cerebral infantil. No entanto, “a presença poderosa de Charcot afastou-o do microscópio e impeliu-o a uma direção para a qual, conforme alguns sinais visíveis, já vinha se encaminhando: a psicologia”.

 

JEAN-MARTIN CHARCOT (1825-1893): O maior mérito de Charcot, foi conseguir desmistificar e oferecer explicações coerentes sobre o grande mal que desde a antiguidade resistia ao saber médico. Diferentemente da tradição médica vienense – de orientação anatômico-patológica - ele postulava a existência de lesões dinâmicas ou funcionais na histeria, e falava em traumas decorrentes e um intenso choque emocional, que seria responsável pela formação de ideias patogênicas expressas sob a forma de sintomas. Além disso, Charcot eliminava sintomas histéricos através da sugestão hipnótica, em suas aulas espetaculares diante de uma plateia de ilustres alunos.

  1. Base neurológica e hereditária
    • Charcot não via a histeria apenas como algo "imaginário" ou moral (como muitos médicos de sua época).
    • Defendia que a histeria tinha uma base orgânica no sistema nervoso, ligada à degenerescência hereditária.
    • Via a histeria como uma neurose, não como uma simulação. Essa foi uma ruptura importante: ele legitimou o sofrimento histérico.
  2. Trauma físico ou psíquico como desencadeador
    • Um acidente físico, uma queda, uma violência ou um choque emocional poderiam funcionar como "gatilho".
    • Esse trauma se fixava no sistema nervoso e, por sugestibilidade, podia se repetir em crises.
  3. Teoria das lesões dinâmicas
    • Charcot acreditava em "lesões funcionais" do sistema nervoso, invisíveis ao exame anatômico (ao contrário das lesões fixas da esclerose múltipla, por exemplo).
    • Assim, a histeria seria uma alteração real do funcionamento nervoso, mas sem lesão detectável. 

Tratamento:

  1. Hipnose
    • Charcot usava a hipnose como principal método terapêutico e  como forma de experimentação clínica.
    • Ele acreditava que a hipnose podia reproduzir e modificar sintomas histéricos, servindo tanto para estudar a doença quanto para tratar.
    • Demonstrava isso publicamente nas famosas “aulas de terça-feira” na Salpêtrière, onde colocava pacientes histéricas em transe diante de plateias de médicos e intelectuais.
  2. Hospitalização e disciplina médica
    • Muitas pacientes eram mulheres pobres internadas na Salpêtrière, um hospital-asilo em Paris.
    • O ambiente controlado, com rotinas médicas e observação contínua, era parte do tratamento.
  3. Sugestão e terapias de choque
    • A ideia era “reprogramar” o sistema nervoso pela sugestão durante a hipnose.
    • Em alguns casos, utilizava compressas frias, massagens ou estímulos elétricos localizados para provocar ou interromper crises.

As 4 fases da crise histérica:

  1. Período epileptóide
    • Semelhante a uma crise epiléptica.
    • Ocorrem movimentos convulsivos, quedas, perda aparente da consciência, rigidez muscular.
    • A diferença é que, na histeria, esses sintomas tinham um caráter mais “teatral” e menos estereotipado do que na epilepsia verdadeira.
  2. Período dos “grandes movimentos” (ou contorções e clownismo)
    • A paciente realizava gestos espetaculares, contorções corporais, arqueamento do corpo (“arc de cercle”).
    • Charcot chamava de “clownismo” porque lembrava acrobacias circenses.
    • Movimentos dramáticos e exagerados, que chamavam a atenção.
  3. Período das atitudes passionais
    • A paciente assumia posturas e expressões faciais de caráter teatral e emocional.
    • Podiam aparecer gestos que expressavam medo, êxtase, raiva, desespero ou erotização.

4.     Período de delírio:

o   durante o qual a paciente parece confusa ou em estado de fuga e passa a falar de forma incompreensível, irracional, dizer obscenidades ou, ainda, a revelar segredos e pensamentos íntimos.

 


Quadro comparativo das concepções sobre a Histeria

 

Aspecto

Charcot (séc. XIX)

Freud (fim séc. XIX – início XX)

Psiquiatria Atual (DSM-5 / CID-11)

Origem da histeria

Distúrbio neurológico funcional, ligado à degenerescência hereditária. Trauma físico ou psíquico podia desencadear.

Conflito psíquico inconsciente, especialmente ligado à sexualidade reprimida. Sintomas eram expressões simbólicas desse conflito.

Não existe mais como diagnóstico único. Sintomas atribuídos a transtornos dissociativos e somatoformes. Origem multifatorial: psicológica, social e neurobiológica.

Natureza dos sintomas

Convulsões, paralisias, cegueiras e anestesias sem causa orgânica.

Idênticos aos descritos por Charcot, mas interpretados como conversão do conflito psíquico em sintomas corporais.

Sintomas corporais ou psíquicos inexplicáveis organicamente. Classificados como: Transtorno de Conversão, Transtorno Somático, Transtornos Dissociativos.

Explicação central

Lesões “dinâmicas” do sistema nervoso, funcionais, mas invisíveis à anatomia.

Mecanismos de defesa inconscientes (recalque, conversão). Trauma psíquico reprimido encontra via no corpo.

Desregulação psicofisiológica. Fatores psicológicos, sociais e neuroquímicos atuam em conjunto.

Tratamento

Hipnose, sugestão, hospitalização, estimulação física (compressas, eletricidade).

Psicanálise: associação livre, interpretação dos sonhos, análise da transferência.

Psicoterapia (cognitivo-comportamental, psicodinâmica), tratamento medicamentoso em alguns casos, técnicas de regulação emocional.

Visão social

Legitima a histeria como doença real (não fingimento). Pacientes em sua maioria eram mulheres pobres internadas na Salpêtrière.

Demonstra que homens também podem ser histéricos. Liga a histeria à vida psíquica universal.

Abandono do termo “histeria” (por ser estigmatizante e impreciso). Termos técnicos substituem o conceito.

 

JOSEF BREUER (1842-1925): Sob a influência de Charcot, e posteriormente de Bernheim, Freud se lança de corpo e alma ao estudo da histeria. No entanto, foi a figura carismática de Josef Breuer que o afastou de vez da neurofisiologia e o levou a descoberta da psicanálise. O famoso caso de histeria em uma jovem de 19 anos, tratado por Breuer em dezembro de 1880 – Anna O. – abriu as portas para que Freud estruturasse um método de tratamento. “Originalmente sob a influência de Breuer, ele havia passado (...) da hipnose para o tratamento catártico através da fala, e prosseguiu adaptando gradativamente os métodos de Breuer, até que, em meados dos anos 1890, lançou-se à psicanálise”.

Breuer adota Freud como discípulo, manda-lhe pacientes e paga-lhe honorários; era seu “pai espiritual”. O fruto dessa convivência surgiu em 1895 sob a forma de um livro: “Estudos sobre a Histeria”, e com ele, inaugurava se as bases da teoria psicanalítica. Neste livro, além das considerações teóricas de ambos sobre o mecanismo da histeria, incluía também o aspecto técnico do método catártico, além é claro, de inúmeros casos clínicos. Nesse período Freud postula que a etiologia da histeria é de natureza sexual e formula a “teoria da sedução sexual precoce”, que lhe causou alguns problemas, um deles foi a perda da amizade de Breuer. Algum tempo depois Freud descobre que sua teoria da sedução não era verdadeira, “minhas histéricas mentem” disse ele, mas, a etiologia sexual da histeria era incontestável, restava-lhe prová-la sozinho, sem seu pai espiritual. Trinta anos depois, numa carta a Stephan Zweig, Freud escreve: “Breuer teve nas mãos a chave que nos abriria a porta das mães, mas ele a deixou cair”.

*ILUSTRAÇÃO: PIXABAY

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Psicopatologia Psicanalítica

 

O ponto de partida: o Nome-do-Pai

Na teoria de Jacques Lacan, o Nome-do-Pai não se refere ao pai biológico, mas a uma função simbólica que introduz a Lei, a proibição do incesto e o limite ao desejo da mãe.
É a entrada do sujeito na ordem simbólica (a linguagem, as regras, o mundo social).

Em termos simples:

  • A mãe representa o campo do desejo, do gozo e da fusão inicial.
  • O pai simbólico (Nome-do-Pai) vem “cortar” essa fusão e inscrever o sujeito na lei da linguagem, possibilitando a constituição do desejo próprio.

Quando essa função é bem instaurada, o sujeito torna-se neurótico (ou seja, estruturado).
Quando ela é fragilmente instaurada ou forcluída (expulsa do simbólico), surgem as outras estruturas: perversão e psicose.

 

A metáfora do barqueiro

Imagine o aparelho psíquico como um barco navegando sobre um rio.

  • O barqueiro representa o Nome-do-Pai, a instância que orienta e dá direção.
  • O rio é o desejo da mãe (fluxo intenso e potencialmente desorganizador).
  • O barco é o sujeito, tentando se manter em equilíbrio nesse fluxo.

A metáfora ilustra o modo como cada estrutura lida com a presença (ou ausência) do barqueiro.

 

Na neurose: o barqueiro está presente

Na neurose, o barqueiro (Nome-do-Pai) está no comando do barco.
Ele dá direção, impõe limites, evita que o barco se perca no fluxo do rio.

O sujeito neurótico tem a Lei internalizada:
há culpa, conflito, repressão, desejo mediado pela proibição.

Exemplo simbólico:
O neurótico deseja, mas sente culpa; quer transgredir, mas teme o castigo.
O barqueiro o mantém no curso certo, mas às vezes com sofrimento — o preço da civilização.

 

Na psicose: o barqueiro foi expulso do barco

Na psicose, o Nome-do-Pai foi forcluído — isto é, jamais entrou no simbólico.
O barqueiro não está presente; o barco segue à deriva.

Sem o barqueiro, o sujeito não tem a Lei simbólica que organiza o desejo.
O rio (desejo materno) invade o barco — o sujeito é tomado pelo gozo, pelas vozes, pelas invasões do Real.

 Em termos clínicos:
é o desencadeamento psicótico, com alucinações, delírios e ruptura da realidade.
O Nome-do-Pai retorna no Real (por exemplo, na forma de vozes imperativas).

 

Na perversão: o barqueiro é “amarrado ao mastro”

Na perversão, o barqueiro existe, mas o sujeito não o reconhece como autoridade.
Ele está ali, mas o sujeito o desafia, tenta substituí-lo ou brinca com sua presença.

O perverso não nega a lei, mas a suspende para gozar dela.
Ele sabe que há um barqueiro, mas o amarra ao mastro para poder conduzir o barco como quiser — com a sensação de controlar o limite.

Exemplo simbólico:
o sujeito que precisa da regra para transgredi-la;
que encontra prazer justamente na cena em que a Lei é desafiada (por exemplo, o fetichista, o voyeur, o sádico).

 

Resumo comparativo

Estrutura

Situação do barqueiro (Nome-do-Pai)

Consequência psíquica

Exemplo simbólico

Neurose

Barqueiro presente e atuante

Lei internalizada; conflito e culpa

O sujeito obedece, mas sofre

Psicose

Barqueiro ausente (forcluído)

Invasão do gozo; perda da realidade

O barco à deriva no rio

Perversão

Barqueiro amarrado, Lei sabida, mas desafiada

Gozo na transgressão da Lei

O sujeito pilota o barco por conta própria

 

A metáfora do barqueiro traduz de forma poética a teoria estrutural lacaniana:
a presença, ausência ou desafio à função paterna define como o sujeito lida com o desejo, a lei e o gozo.

Assim:

  • A neurose organiza o desejo pela interdição;
  • A psicose sofre pela ausência da interdição;
  • A perversão joga com a interdição.
* IMAGEM GRATUITA, POR fszalai.

OUTUBRO VERMELHO, VERDE E AMARELO!

 

A última semana de outubro já entrou para a história do Brasil e do mundo. A grande mobilização nas ruas e nas redes sociais da internet reverteu a pequena vantagem que o candidato do crime organizado (ver milícias cariocas)  conseguira colocar no primeiro turno. Estudantes, trabalhadores, aposentados; homens e mulheres; jovens e velhos; pretos, pardos e brancos; católicos, espíritas, ateus e evangélicos (das igrejas históricas) juntos derrotamos o fascismo e varremos a extrema direita para o lixo da história, e fomos inspiração para o mundo democrático.

As ruas foram tomadas por uma multidão que alertava a população do perigo de se colocar de novo a família miliciana no poder, na internet o "Exército do Lula" do deputado Janones, ensinava como fazer campanha nas redes. A resposta foi dada nas urnas: mais de 4 milhões de votos de diferença, deixando perplexos o "gado bolsonazi", que mesmo contando com o apoio das "BigTecs" e de centenas de pastores bandidos coagindo suas ovelhas a votar no mais anticristão dos candidatos que já disputaram a presidência até hoje. 

E o que já era esperado aconteceu; o senador miliciano com medo de ser preso, pois vai perder sua imunidade parlamentar e já pode ir pra cadeia devido aos diversos crimes cometidos, fugiu... Fez igual ao irmão, também foragido da justiça, e pediu asilo nos EUA sendo apoiado pelos fascistas de lá. Mas o mais importante é que salvamos a democracia e mostramos ao mundo que é possível.

Fazer o L se espalhou por todos os continentes como símbolo da Luta Antifascista, em todo o mundo houve manifestação de apoio, políticos, artistas e ativistas fazendo o L, de Luta, de Liberdade, de Lula.



quarta-feira, 28 de outubro de 2026

O EFEITO PLACEBO E NOCEBO

 

O texto abaixo é um resumo esquemático do livro: Placebo: mente sobre corpo na saúde e na doença (2011) de Fabrizio Benedetti, médico italiano pioneiro na pesquisa do efeito placebo e sua aplicabilidade na clínica médica.

 

1. O efeito placebo é real e neurobiológico

·        Benedetti demonstra que o efeito placebo não é “fictício”, mas tem bases neurobiológicas concretas — ativação cerebral e liberação de substâncias como endorfinas e dopamina.

·        No Parkinson, por exemplo, pacientes que esperavam melhora motoras liberaram dopamina no “striatum dorsal”, comprovado por estudos de neuroimagem.

 

2. Contexto psicossocial como motor do placebo

·        O que dispara o efeito placebo não é o medicamento em si, mas o contexto clínico — palavras do médico, aparência do medicamento, ambiente, ritual da consulta.

·        A expectativa e crença do paciente frente ao tratamento é o que “liga” esse mecanismo neurobiológico.

 

3. Vários tipos de efeito placebo

·        Benedetti argumenta que existe mais de um efeito placebo, e eles operam por vias distintas:

·        Expectativa consciente: o alívio ocorre pela crença de que algo vai funcionar.

·        Condicionamento clássico: o corpo reage da mesma forma que reagia a uma substância ativa, mesmo recebendo um placebo.

·        Ritual terapêutico: o simples ato de receber tratamento, mesmo sem agente ativo, induz resposta terapêutica emocional ou fisiológica.

 

4. Estudos e aplicações práticas

·        Em Parkinson, pacientes receberam placebo após treinamento com estimulantes: o cérebro passou a liberar dopamina como se ainda recebessem o fármaco real.

·        Em outros estudos, Benedetti observou que placebos podem induzir até os efeitos colaterais típicos de medicamentos, como sedação — sinal claro de resposta condicionada.

·        Ele também demonstrou que diferentes doenças e sistemas respondem de maneira diferente aos tipos de placebo.

 

5. Importância do paradigma aberto-oculto

·        Coloca-se que esconder o ato de administrar um tratamento (oculto) pode eliminar o efeito placebo, demonstrando o peso da expectativa no resultado clínico.

·        Isso evidencia que parte da resposta sistêmica atribuído ao tratamento ativo em estudos duplo-cegos pode ser, na verdade, efeito placebo.

 

 6.     Resumo

Tópico

Destaques

Natureza real do placebo

Base corporal comprovada — neurotransmissores liberados em resposta à expectativa.

Contexto decisivo

O ambiente e o cuidado clínico ativam mecanismos neurobiológicos poderosos.

Tipos diversos de placebo

Expectativa, condicionamento e ritual têm vias distintas, mas reais.

Estudos de impacto

Parkinson (liberação de dopamina), efeitos colaterais simulados, resposta condicionada.

Paradigma aberto-oculto

Confirma que a consciência sobre o tratamento é parte do efeito ético e clínico.


Exemplos clínicos


1. Parkinson e liberação de dopamina

  • Contexto: Pacientes com Parkinson receberam placebo após terem tomado previamente medicamentos dopaminérgicos.
  • Observação: Quando esperavam receber o medicamento ativo, o cérebro liberava dopamina no estriado dorsal, como se fosse o fármaco real.
  • Conclusão: A expectativa sozinha pode ativar vias neuroquímicas específicas, melhorando movimentos sem substância ativa.


2. Alívio da dor via placebo

  • Estudo: Pacientes com dor aguda receberam uma injeção de placebo, enquanto eram informados de que seria analgésico.
  • Resultado: Muitos relataram redução significativa da dor.
  • Mecanismo: Liberação de endorfina endógena, demonstrando que o corpo pode gerar seu próprio analgésico em resposta à crença.

 

3. Efeito colateral simulado (nocebo)

  • Exemplo: Pacientes receberam pílulas inertes, mas informados que poderiam causar sonolência.
  • Resultado: Muitos relataram sentir sonolência, náusea ou outros efeitos esperados do medicamento.
  • Lição: O efeito nocebo — reação adversa induzida por expectativa negativa — é real e mensurável.

 

4. Placebo em cirurgias

  • Exemplo: Pacientes com dor articular receberam cirurgia simulada ou real.
  • Resultado: Alguns do grupo simulado tiveram melhora comparável aos pacientes operados.
  • Conclusão: Ritual e contexto terapêutico podem gerar melhora funcional e percepção de alívio da dor mesmo sem intervenção física.


5. Condicionamento clássico

  • Exemplo: Pacientes tomavam analgésicos reais por dias, depois recebiam placebo sem saber.
  • Resultado: O corpo continuava a responder com alívio da dor.
  • Explicação: O organismo aprende a responder ao tratamento por associação, independentemente da substância ativa.

 

6. Placebo em depressão

  • Estudo clínico: Pacientes tratados com antidepressivos ou placebo demonstraram melhora significativa em ambos os grupos.
  • Insight: Expectativa e ambiente terapêutico contribuem substancialmente para a eficácia do tratamento, mostrando que atenção, crença e ritual são essenciais.

*FOTOGRAFIA DE CONSUELO BORRONI  DE ACESSO LIVRE  NO SITE PEXELS.

sábado, 24 de outubro de 2026

A ANALISTA LACANIANA

 

A analista lacaniana

 

“O objetivo de uma análise não é tornar o romance neurótico mais consistente, ou substituí-lo por um outro melhor, e sim dispensar o sujeito desta necessidade constante de explicar-se, que sustenta sua fantasia”.

Jacques Lacan

 

Ela era formada em Letras, mas nunca se contentou apenas com livros. A leitura lhe abriu a porta para a linguagem, e a linguagem, para a psicanálise. Entrou no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, fez análise e formação. Gostava de dizer, entre baforadas de cigarro, que “a psicanálise não foi feita para os bons modos”.

Fumava muito. Acendia um cigarro após o outro, como se cada tragada fosse necessário para sustentar a escuta. O consultório sempre tinha um cheiro forte, misturado ao couro gasto da poltrona e do divã e ao silêncio pesado dos pacientes. Suas interpretações, quando vinham, quase sempre eram palavrões.

Lembrava-se de uma sessão em que o paciente, homem na casa dos trinta e poucos, chegara choroso, reclamando da família, dos colegas de trabalho, de como todos o exploravam. Passivo, resignado, dizia que “não tinha forças para enfrentar nada”. Ela o escutou, soprando a fumaça para o teto. Quando ele se calou, ela disse, seca, sem qualquer gesto de ternura: — Quem se abaixa mostra o cu. Seu tempo acabou.

O homem ficou vermelho, gaguejou. Nunca mais reclamou do mesmo jeito.

Outro caso

Havia também a moça que sempre falava de homens violentos, relações abusivas. Dizia que “não conseguia evitar”. Eu acho que tenho o dedo podre, dizia ela para tentar explicar por que sempre escolhia péssimos parceiros. Ela ouviu em silêncio por meses, até que um dia, quando a paciente descreveu mais uma vez as agressões, disse:
— Você gosta de apanhar. Tem tesão nisso. Agora precisa descobrir o que vai fazer com essa verdade.

A paciente a odiou, faltou três sessões seguidas, mas voltou. Não porque concordava, mas porque aquela frase não saía de sua cabeça. O que fazer com a verdade?

 

Um terceiro fragmento

Um jovem analista em formação veio fazer supervisão. Ele apresentou um caso de histeria, cheio de termos técnicos, preocupado com “o manejo da transferência”. Ela o interrompeu:
— Você tá mais preocupado em parecer analista do que em escutar o que a menina fala. Vai estudar menos Lacan e ouvir mais os berros dela.

O rapaz enrubesceu, mas anotou.

Epílogo

Era assim. Direta, cortante, muitas vezes brutal. Mas havia, por trás do palavrão, uma aposta radical na verdade que emergia do inconsciente. Não fazia concessões, nem ao paciente, nem a si mesma.

Naquela noite em que encerrou seu último caso, fechou o consultório, acendeu mais um cigarro e murmurou para si:
— A análise é para quem aguenta ouvir a verdade que estava oculta, inconsciente. O resto é literatura barata.

E riu sozinha, como quem sabe que entre o livro, o divã e a vida, não há fronteira nítida — apenas a coragem de não se abaixar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O MISTÉRIO DOS RELÓGIOS: Um conto quase inglês.

 O Mistério dos Relógios

 

 

O Convite

A noite estava úmida em Londres, e a névoa subia do Tâmisa quando Agatha Christie recebeu o estranho telegrama.

"Convite irrecusável. Mansão Pembroke, Belgrave Square. Hoje à noite, 21h. Mistério garantido."

O mesmo telegrama chegou às mãos de Arthur Conan Doyle, que, curioso e intrigado, decidiu comparecer. Ambos, sem saber, caminhavam para um encontro improvável com suas próprias criações.

 

Os Personagens Ganhando Vida

Ao adentrar a mansão, Christie sentiu um arrepio. Na sala principal, ao lado da lareira, estava Hercule Poirot, de bigodes impecáveis, terno alinhado, uma figura saída diretamente de suas páginas.

E, para surpresa de Doyle, apoiado em sua bengala, estava Sherlock Holmes, fumando calmamente o cachimbo.

— Mon dieu! — exclamou Poirot. — Senhora Christie... parece que fomos arrancados de nossas próprias histórias.

Holmes lançou um olhar desconfiado:
— Elementarmente impossível. E, no entanto, aqui estamos.

 

O Crime

O anfitrião, lorde James William Pembroke, colecionador e bibliófilo excêntrico, surgiu para recepcioná-los. Ele temia ser assassinado, seus familiares achavam que ele estava ficando paranoico, ou com demência senil. Mas não chegou a anunciar o propósito daquela reunião. Pediu que o mordomo acomodasse os convidados no salão contiguo a biblioteca e se retirou com a promessa de que voltaria em trinta minutos. Antes das 21h30, um grito ecoou. A governanta, pálida, entrou correndo:

— Milorde está morto!

Todos correram para a sala da lareira. O corpo de Pembroke jazia estirado, os olhos fixos no vazio. Nenhum ferimento aparente. Ao redor, todos os relógios da mansão — de parede, de bolso, de mesa — marcavam a mesma hora: 21h17.

 

As Primeiras Pistas

Poirot se aproximou do cadáver.
— Nenhum sinal de luta. Um bilhete no bolso: “O tempo não pode ser controlado.”

Holmes examinava o carpete com sua lupa.
— Cinzas de tabaco turco. Não é inglês. E há pegadas de lama junto à janela. Botas largas, de sola gasta.

Christie, pensativa, comentou:
— Parece mais uma encenação do que um crime.

Doyle, fascinado, murmurava para si mesmo:
— É como se minhas palavras tivessem tomado carne...

 

O Duelo de Mentes

Holmes e Poirot não tardaram a divergir:

— O assassino é externo — decretou Holmes. — Um intruso entrou pela janela, deixou pegadas, matou e fugiu.

— Non, non, mon cher — rebateu Poirot. — O detalhe está no relógio de bolso do lorde. Ele não parou. Continua marcando 21h37. Portanto, a morte foi posterior à encenação. O culpado está entre nós.

Holmes estreitou os olhos:
— O senhor confia demais em pequenos caprichos.

— E o senhor, mon ami, não confia o suficiente no poder das pequenas coisas — replicou Poirot, ajeitando os bigodes.

 

O Motivo

Na biblioteca, encontraram um cofre. Dentro, papéis revelavam que Pembroke possuía manuscritos inéditos de Christie e Doyle, roubados há anos. Planejava leiloá-los secretamente.

— O escândalo seria enorme — murmurou Doyle.
— Motivo mais que suficiente para um crime — disse Agatha.

A Verdade

Holmes chamou todos à sala.
— Senhora Whitmore, sua calma a traiu. A lama em seus sapatos coincide com as pegadas que vi da janela.

A governanta empalideceu.
Poirot completou:
— Foi a senhora quem parou os relógios, quem encenou a cena filosófica do tempo. Mas esqueceu-se do mais importante: o relógio de bolso do próprio lorde, que não se deixaria manipular.

Whitmore chorou e confessou. Servira Pembroke por décadas. Ao descobrir os leilões, não suportou a traição e, num surto de revolta, envenenou o vinho dele. Os relógios foram sua maneira de criar um enigma insolúvel.

 Epílogo

Holmes acendeu outro cachimbo, satisfeito. Poirot ajeitou o terno com vaidade. Christie e Doyle se entreolharam, espantados: haviam visto seus personagens resolverem um crime juntos, como se a ficção tivesse ultrapassado o real.

Agatha, por fim, comentou:
— Talvez, Doyle, o verdadeiro mistério não seja o crime... mas quem realmente escreve a história: nós ou eles?

E a chuva continuava a cair sobre Londres, nessa estranha noite em Belgrave Square.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O PESO DOS DIAS

 

O Peso dos Dias

 

Que quantidade de bom gênio e humor é necessária para suportar esta horrível história de envelhecer”.

Sigmund Freud

 

Acordo sempre antes do sol. Já não preciso de despertador: é o corpo que me chama, com suas dores persistentes e seu cansaço intratável. O sono me abandona como uma mulher que já não encontra interesse. Levanto-me devagar, escutando o concerto de estalos vindos das articulações — parece que dentro de mim vive uma casa antiga, rangendo a cada movimento. É curioso: quando jovem, nunca pensei nos ossos. Eram invisíveis, discretos, sustentando-me sem que eu notasse. Agora, eles se impõem, lembrando-me a cada passo que o tempo não é uma abstração, mas um peso.

Tenho artrose nos joelhos, o quadril enrijecido, a lombar como um ferro enferrujado e duas hérnias de disco a pressionar o nervo ciático. O médico fala de colágeno, de cartilagem gasta, de paciência. Paciência... palavra bonita, mas que, aplicada ao corpo, significa apenas resignar-se a ser prisioneiro do próprio esqueleto.

Na juventude, meu corpo era um cúmplice, pronto para o trabalho, para as mulheres, para as noites sem fim. Hoje, é um inimigo lento, resistente, que me arrasta para um território desconhecido: o território da velhice. Outro dia assisti na tv a uma prova de natação e me lembrei de como gostava de piscinas, de mergulhar, de trampolim, até arriscava uns malfeitos “saltos-mortais”, se tentasse hoje meu salto certamente faria jus ao nome, um salto mortal, fatal mesmo.

A aposentadoria chegou como um presente envenenado. A promessa era de liberdade: tempo para ler os livros que nunca li, para caminhar sem pressa, para observar a vida. Mas descobri que o excesso de tempo é um espelho. E o que vejo refletido não é apenas um homem solitário, mas um homem que já não encontra lugar no mundo. O relógio corre, mas não me chama para nada. Sou uma peça fora da engrenagem.

No silêncio das manhãs, observo as pessoas na rua. Os jovens passam com seus passos firmes, como se o futuro fosse infinito. Não sabem ainda que o corpo é um contrato de prazo curto. Eu os vejo e sinto um desejo estranho — desejo de voltar a ter aquela pele tensa, aqueles músculos obedientes. Mas o desejo também se estende às mulheres que passam, tão novas, tão alheias a mim. Não é só desejo carnal, é também nostalgia: nelas vejo a juventude que já não me pertence. E, ao mesmo tempo, me sinto ridículo. Um velho desejando jovens. O corpo não acompanha, mas a mente insiste em sonhar. É cruel ainda querer, quando já não se pode. É a própria lógica do desejo, que só existe na falta.

Às vezes me pergunto: qual é a função do desejo na velhice? Talvez seja apenas uma confirmação de que estou vivo. Porque o dia em que eu não desejar mais — nem uma bela mulher, nem um gesto de carinho, nem sequer um olhar — será o dia em que já estarei morto, ainda que respirando.

A solidão, essa sim, é uma presença constante, mas não me aborrece. Aposentei-me do trabalho, mas também, de certo modo, da vida social. Amigos se foram, outros perderam o viço, alguns simplesmente se apagaram da memória. Fico na varanda, assistindo ao movimento da cidade. É como se eu estivesse numa plateia invisível, enquanto a peça continua sem mim.

Não me revolto. A revolta exige energia, e a energia, essa sim, é artigo escasso. O que resta é uma espécie de aceitação melancólica. Aprendi que envelhecer é carregar pedras nos bolsos: a cada ano mais pesadas, mas também familiares (lembrei de Virginia Woolf carregando pedras nos bolsos a caminho da morte). Passamos a andar mais devagar, mas também aprendemos a observar melhor a paisagem.

O corpo me limita, é verdade. Mas a mente... a mente ainda se expande. Penso na morte todos os dias, mas sem medo. É mais como se fosse uma visita que um dia chegará — não sei quando, mas sei que virá. O pensamento da morte me traz paradoxalmente um certo consolo. Porque se viver é esse esforço diário contra a decadência, morrer talvez seja apenas descansar.

Enquanto isso, vou encontrando beleza nos detalhes: o sol da tarde se pondo atrás dos prédios e iluminando as rugas da minha mão; o cheiro de café fresco, lembrando manhãs antigas; o riso distante de uma criança, lembrando que o mundo continua.

No fim, penso que envelhecer não é perder — é mudar de lugar. Quando jovem, eu era protagonista da história, na maioria das vezes. Agora, sou testemunha. Assisto, contemplo, reflito. Não é um papel menor. Talvez seja até mais profundo. E quando, à noite, deito o corpo cansado na cama, penso que cada dor é também uma lembrança: uma cicatriz do tempo, um capítulo vivido. O corpo falha, mas as memórias permanecem.