Pátria Amada?
“A cadela do fascismo
está sempre no cio”
Bertoldt Brecht.
A sala onde se
encontravam era apertada, mal iluminada, com cortinas grossas fechadas para que
nenhum vizinho curioso espiando pudesse suspeitar. Um ventilador barulhento
tentava empurrar o calor da noite, mas só espalhava o cheiro de mofo e café
velho. A Bíblia aberta sobre a mesa parecia um estandarte sagrado que
legitimava qualquer palavra que saía da boca dos quatro. As quatro bestas do
Apocalipse brasileiro.
Adalberto, o mais exaltado, repetia
como um mantra:
— O Brasil foi roubado. O povo de Deus não aceita ser governado por um ladrão.
Silvana, mulher
de meia-idade, dona de um salão de beleza em declínio, abanava-se com a própria
mão. Seu rosto vermelho pelo calor e pela raiva refletia a febre de sua crença.
— Os pastores já disseram: a vitória foi do inimigo. Mas o Senhor nos dá armas
espirituais e também carnais, se for preciso.
Rogério, ex-policial
militar, expulso da corporação por “excesso de violência” — como se fosse
possível um excesso nesse ofício, pensava ele — mascava chiclete com a boca
aberta.
— Democracia é invenção de comunista. Isso aqui precisa é de ordem. É só o povo
tomar a frente que os generais entram. Eu conheço uns ainda fiéis. Estão
esperando só um sinal.
Denise, a mais
nova do grupo, trabalhava como auxiliar administrativa numa empresa de
transportes. Carregava sempre o crucifixo de metal no pescoço, como se fosse
prova de sua pureza. Falava pouco, mas quando falava deixava escapar o veneno:
— Esses gays, essas feministas, esses pretos folgados… O país virou bagunça. Se
a gente não se levantar, eles tomam conta de tudo. A pátria não é deles.
O silêncio
posterior à frase era carregado. A Bíblia, sobre a mesa, parecia respirar junto
com eles. Adalberto foi o primeiro a quebrá-lo, batendo na madeira com o punho
fechado.
— Vamos a Brasília. O Congresso é a casa do povo, não desses vagabundos. A
gente entra, mostra força. E quando a confusão estourar, o Exército não vai ter
escolha. Vão ter que assumir.
Rogério sorriu com um brilho
fanático nos olhos.
— Já falei com uns caras. Gente de confiança. Vão levar bandeira, vão levar
corda, vão levar o que precisar. Se tiver que quebrar vidro, a gente quebra.
— E a imprensa? — perguntou
Silvana, inquieta. — Eles vão dizer que somos terroristas.
Denise riu de leve, quase infantil.
— A imprensa mente. Mas Deus vê a verdade. E a história vai contar do nosso
lado.
Dois dias
depois, embarcaram em uma van alugada. Levavam mochilas cheias de bandeiras
verde-amarelas, garrafas de água, facas de cozinha, lanternas, alguns rojões e
uma fé inabalável. Enquanto a estrada corria, Silvana puxava cânticos
evangélicos, transformando o veículo em um culto itinerante. Os motoristas dos
postos de gasolina onde pararam olhavam com estranheza aquele grupo que falava
em “missão divina” e “purificação da pátria”.
Quando
avistaram, ao longe, as cúpulas do Congresso Nacional brilhando sob o sol de
domingo, sentiram uma espécie de êxtase. Era como chegar a Jerusalém. O ar
parecia vibrar de antecipação.
— Hoje é o dia
da libertação — murmurou Adalberto, quase em transe.
Milhares já
estavam reunidos na Esplanada, vestidos com camisetas da seleção, carregando
cartazes e cruzes improvisadas. O verde e amarelo se misturava ao cheiro de
suor, milho cozido e gasolina. Alguns falavam em golpe, outros em oração. As
vozes formavam uma massa dissonante de desespero e esperança.
Rogério, em meio à multidão,
sentia-se de volta ao batalhão.
— É agora ou nunca! — gritou.
A barreira de
policiais era frágil diante da fúria coletiva. Gritos de “Fora comunistas!” e
“Intervenção já!” ecoavam como trovões. O grupo se lançou à frente, empurrando,
quebrando, escalando as rampas do Congresso. Vidros se estilhaçavam, portas
arrebentavam. Bandeiras eram fincadas sobre móveis destruídos como se fossem
troféus.
Dentro, os
quatro se separaram. Silvana ajoelhou-se no chão do plenário vazio, erguendo os
braços para o teto e clamando em línguas estranhas. Denise rasgava papéis sobre
uma mesa, como se eliminasse símbolos impuros. Adalberto berrava com voz rouca
que “a pátria era de Deus e não dos ímpios”. Rogério, mais prático, chutava
cadeiras e arrancava fios da parede, como se destruindo aquilo pudesse apagar a
democracia.
Mas a euforia
tinha gosto de fumaça. Logo bombas de gás lacrimogêneo começaram a explodir. O
cheiro ardia nos olhos e queimava a garganta. O barulho de helicópteros zunia
no céu. A polícia avançava com escudos e cassetetes.
O que era êxtase
transformou-se em pânico. Correria, quedas, gritos. Silvana foi arrastada por
soldados enquanto clamava “Glória a Deus!”. Rogério tentou resistir, mas levou
uma coronhada que o fez cuspir sangue. Denise, em choque, repetia sem parar que
“Deus estava no controle”. Adalberto, algemado, ainda bradava que “os generais
viriam”, embora soubesse, no fundo, que não viriam.
Dias depois, nas
celas superlotadas, os quatro se reencontraram brevemente. O fervor ainda
existia, mas agora manchado pelo medo.
— Eles vão ver…
— dizia Adalberto, a voz cansada. — Isso aqui não acaba assim.
Silvana chorava
baixinho, pedindo perdão a Deus sem saber se por covardia ou por orgulho.
Rogério mascava o ar, como se ainda tivesse o chiclete entre os dentes, olhando
fixo para o nada. Denise apertava seu crucifixo até a mão sangrar.
Lá fora, a vida
seguia. A democracia, ferida, tentava se recompor. A pátria, amada e odiada,
sobrevivia apesar de seus filhos.
No fundo,
sabiam: não seriam lembrados como heróis. Apenas como um espetáculo grotesco,
uma cicatriz no rosto do país.




