quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A MULHER DO SOLDADO: Um conto - pretensamente - machadiano

 

“A mulher do soldado”

 

 

por um discípulo de Brás Cubas

 

 


Era casada, sim. E com um cabo da Brigada Militar, o que, por si só, já conferia ao casamento uma certa rigidez que não era apenas a da farda. Chamava-se Eugênia — nome suave, quase aristocrático, que contrastava com a dureza marcial da casa onde morava.

O marido, Joaquim Alves, mais conhecido por essas bandas como Quincas Soldado, homem austero, honesto e de silêncios pesados. Se o amor existira um dia, encolhera-se nas frestas dos móveis, junto às pastas de ocorrência e aos coturnos embolorados.

Ora, quem esperaria de Eugênia alguma transgressão? Era religiosa aos domingos, costurava à tarde e tratava da sogra enferma com resignação beatífica. Mas até os sinos de igreja, quando mal afinados, ressoam desejos dissonantes. E o interior de sua cabeça era semelhante a um sino desafinado.

É preciso dizer, sem rodeios, que Eugênia possuía um amante. Sim, um. Somente um, o que — ela mesma argumentava diante do espelho — já era prova de contenção e moralidade relativa. “Se louca ou incontida fosse, seriam dez”, pensava ela. Chamava-se Marcos, era despachante de seguros e tinha a língua mais hábil que sua caneta.

Encontravam-se às quintas-feiras, entre as duas e as quatro da tarde, horário em que o marido estava em curso de tiro ou rondando os becos suburbanos. O apartamento? De um conhecido de Marcos, que o alugava para encontros fugazes — e discretos, naturalmente.

Mas, veja bem, leitor severo, não se tratava de adultério completo, ao menos nos termos do Código Penal das consciências católicas. Eugênia havia imposto um limite: não haveria penetração.

— Se Deus quiser, tudo pelos lábios. Só pelos lábios — dissera ela, num dos primeiros encontros, puxando o vestido para cima com mais zelo do que volúpia.

O argumento era engenhoso, ainda que triste: temia que o marido, homem atento e possessivo, descobrisse algo. Um cheiro, um traço de sêmen, um deslocamento sutil que o instinto militar decifraria como crime.

E assim, entre beijos, dedos e o que se pode chamar de ofício bucal de duplo sentido, consumava-se a paixão em silêncio — não menos intensa por ser contida. Ao contrário, tornava-se ainda mais densa, como vinho guardado demais.

Houve quem dissesse que o verdadeiro pecado do adultério está na intenção, e não na mecânica. Eugênia, porém, preferia uma teologia mais tolerante: enquanto o corpo se mantivesse tecnicamente inviolado, a alma poderia gozar em paz.

Mas eis que, como tudo o que é demasiado perfeito, a rotina começou a ranger. Marcos passou a desejar mais. Queria “completude”, como dizia com certo dramatismo, como se a nudez parcial fosse uma mutilação espiritual. Já Eugênia sentia-se cada vez mais dividida, não entre dois homens, mas entre duas versões de si mesma — a que servia à ordem e a que saboreava o desvio.

Foi então que, numa tarde de chuva, depois de um gozo mútuo e demorado, ela recolheu suas roupas, virou-se para ele e disse com serenidade:

— Acabou, Marcos.

Ele pensou que fosse um capricho. Tentou rir. Mas o olhar dela era o mesmo com que servia o café ao marido: firme, resignado, irreversível.

— O quê? Por quê?

— Porque meu pecado já não se esconde nos detalhes... Ele cresceu, Marcos. Cresceu demais para caber entre os dentes.

Saiu sem mais palavras. Passou por uma senhora no corredor, sorriu discretamente e desceu as escadas como quem retorna de uma confissão.

Nunca mais se viram.

Ela voltou às suas quintas-feiras de costura. O marido, como sempre, nada soube. Ou, se soube, guardou para si, como os homens silenciosos costumam fazer com as dores — ou com os cadáveres.

Eugênia, essa, viveu o resto da vida fiel a não se sabe o que, só não era a seu desejo. Fiel como uma santa, com um segredo nos lábios e o gosto de um passado que nunca chegou a ser inteiro.

ANIVERSÁRIO 63

QUATRO MESES DEPOIS ......




 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

“A Bicicleta na Ponte”

 

“A Bicicleta na Ponte”

 

“Abençoados os corações flexíveis; pois nunca serão partidos”.

Albert Camus

 

A noite caía como um véu gasto, deixando apenas uma fresta de luz alaranjada entre os prédios e o rio. A ponte era estreita, um arco de ferro enferrujado onde passos sempre ecoavam como um lembrete da solidão. Foi ali que ela viu: a bicicleta encostada no corrimão, solitária, com a roda dianteira ainda girando, lenta, como se tivesse sido abandonada segundos antes.

Havia algo de perturbador na cena. Nenhum ciclista, nenhum som de fuga. Apenas a bicicleta, imóvel, como se fosse o testemunho silencioso de uma ausência. E o que é uma roda que gira sozinha, senão o testemunho de uma ausência?

Não havia ninguém por perto. Apenas o vento arranhando o ferro da ponte e um silêncio que parecia se alongar mais do que deveria. Ela parou. Sentiu o vento frio levantar os fios soltos do cabelo e percebeu a si mesma: presa entre a vontade de ir embora e a estranha necessidade de decifrar aquele enigma. Certos objetos, quando são arrancados da banalidade cotidiana, ganham uma presença incômoda, como enigma a ser decifrado. Sartre escrevera que estamos condenados à liberdade; e ali, diante da bicicleta, a liberdade lhe parecia uma sentença — cada escolha, uma possibilidade, um abismo. E seu amigo Camus, dizia que o absurdo nasce do divórcio entre o homem e o mundo, e. naquele instante, o absurdo tinha a forma de um quadro metálico, duas rodas, uma ausência de dono.

De repente, uma figura surgiu do outro lado da ponte. Um homem. Caminhava lento, mãos nos bolsos, olhar perdido em algum ponto do asfalto. Os olhos dele cruzaram os dela, e por um instante sentiram-se cúmplices de algo não dito, como se ambos soubessem que a bicicleta era um enigma compartilhado.

— É sua? — ela perguntou, num tom quase acusatório.
— Não — respondeu ele, mas a pausa antes da palavra deixava a dúvida suspensa no ar.

A bicicleta continuava ali, metálica, um objeto ordinário transfigurado em mistério. O homem se aproximou, e a luz dos postes revelou a curva de seu sorriso, algo entre ironia e sedução. Ela sentiu uma onda de calor percorrer o corpo, como se o desejo pudesse nascer exatamente desse não saber — do mistério, do acaso. Camus teria chamado aquilo de absurdo: um objeto sem dono, uma ponte vazia, duas pessoas unidas pela estranheza. Mas para ela, a estranheza era também erótica. O silêncio entre os dois não era vazio; era uma promessa.

Ele tocou no guidão da bicicleta, como se testasse seu peso. Ela, quase sem pensar, apoiou a mão sobre a dele. O gesto simples foi também uma invasão, uma revelação: o toque despertava não apenas desejo, mas também o medo de existir, de se lançar no jogo que a vida exige.

— Talvez — disse ele, olhando-a nos olhos — essa bicicleta seja apenas um lembrete.
— De que?
— De que a ponte nunca é só passagem. É também o lugar onde decidimos se atravessamos... ou se ficamos.

As pontes são trampolins do destino. Ou se atravessa, ou se retorna. Mas também há a possibilidade de permanecer no meio — e aí começa a condenação da liberdade.

Ela sorriu, sentindo-se despida não por mãos, mas pela intensidade daquela frase. Milan Kundera dizia que o acaso governa nossas vidas com uma crueldade doce. E ali, na ponte, ela se perguntava se o acaso não era apenas a forma mais elegante do destino.

O homem se inclinou levemente para ela. O hálito dele era quente, e o desejo se misturava ao medo. Por um momento, quis que ele a beijasse, mas também temeu que esse beijo dissolvesse o mistério. Porque o mistério, mais que o prazer, a mantinha viva.

O vento soprou forte, fazendo a bicicleta tombar contra o chão com um estrondo seco. E naquele som havia um veredito: o mistério não suporta ser prolongado demais. Eles se afastaram instintivamente, como se a queda fosse um sinal.

O homem a observou por mais um instante. Depois, sem dizer nada, virou-se e atravessou a ponte. Ela permaneceu ali, diante da bicicleta caída, sentindo que o real se abria como o véu rasgado do templo: não havia dono, não havia explicação, não havia narrativa. Apenas ela, a bicicleta e o vazio. A bicicleta caída diante dela parecia acusá-la: nada se explica, nada se completa.

Atravessar ou não a ponte? Ela sabia, enfim, que nenhuma resposta viria de fora. A existência era isso: estar só, com a liberdade pesando como ferro frio sobre os ombros.

Pegou a bicicleta pelo guidão, endireitou-a, e então a montou. Não porque fosse dela, mas porque, naquela noite, decidiu que seria. E partiu, pedalando pela escuridão, como se fugisse e, ao mesmo tempo, se encontrasse. Não para chegar a algum lugar, mas porque naquela noite, a travessia era a única forma possível de existir. E no som das engrenagens, havia a confissão silenciosa de que todos somos, no fundo, apenas bicicletas abandonadas sobre a ponte do tempo.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

REFLEXÕES DE UM PSICÓLOGO DE UM POSTINHO DE SAÚDE 2

    
    Janeiro já começou com problemas para a Saúde Mental em Maceió. A SMS, numa tentativa de ampliar os programas de saúde da família, designou equipes para algumas UBS e desalojou justamente os Psicólogos de suas salas de atendimento, demonstrando que compreende a "Saúde" como algo unicamente ligado ao físico, ao corpo, às doenças físicas. O trabalho do Psicólogo, apesar de grandes avanços nas duas últimas décadas, ainda continua a ser percebido por alguns, como um complemento, dispensável em algumas situações. O pior é que isso vai de encontro ao que é descrito pela OMS como "Saúde".
Como estou de licença, não sei como está a situação no meu Posto, espero que não sejamos atingidos por essas medidas.


terça-feira, 29 de outubro de 2024

GREGÓRIO DE MATOS: Mortal Loucura

Gregório de Matos e Guerra, conhecido como "o Boca do Inferno", foi um notável poeta barroco nascido em Salvador, Bahia em 1636. Foi uma figura chave da literatura colonial do Brasil, famosa por seu estilo satírico e mordaz, com o que criticou duramente a corrupção e a hipocrisia da sociedade da sua época, especialmente a igreja e a elite de Salvador.

Estudou direito na Universidade de Coimbra, em Portugal, e posteriormente trabalhou na administração colonial. No entanto, seu caráter inconformista e sua escrita afiada levaram-no a ganhar inimigos poderosos, o que custou o exílio e uma vida de conflitos com as autoridades. Sua obra poética vai da sátira até a poesia lírica e religiosa, e embora não tenha visto suas obras publicadas em vida, seu legado foi perdurado como um símbolo de resistência e crítica social na literatura brasileira. Gregório de Matos faleceu em Recife em 1696. 

Abaixo um de seus poemas mais filosóficos, o soneto Mortal Loucura, que pode ser apreciado na belíssima interpretação de Maria Betânia, musicada por José Miguel Wisnik. Confira no YouTube.




segunda-feira, 28 de outubro de 2024

WILHELM REICH - Citações

 Wilhelm Reich (1897–1957) foi um médico, psicanalista e teórico social austríaco, conhecido por suas investigações sobre a energia orgonica e sua manifestação para a psicologia e a sexualidade humana. Discípulo de Sigmund Freud, Reich foi um dos primeiros a conectar a teoria psicanalítica com conceitos sociais e políticos, defendendo a ideia de que a repressão sexual estava relacionada a problemas psicológicos e sociais.

Reich emigrou para os Estados Unidos em 1939, onde continuou suas investigações. No entanto, suas teorias foram tachadas de pseudociência, e em 1954 a FDA ordenou a destruição de seus acumuladores de orgone e seus escritos. Reich foi encarcerado em 1956 por desobedecer esta ordem e morreu na prisão um ano depois.

Seu legado é polêmico: embora tenha sido rechaçado pela ciência oficial, suas ideias influenciaram o movimento da contracultura nos anos 60 e algumas correntes da psicoterapia contemporânea, por ter incluído o corpo na psicoterapia.

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Que é então necessário que eu faça para me transformar no suporte da sociedade humana?

Nada terás que fazer de extraordinário ou de novo - basta que continues arando os teus campos, usando o teu machado, examinando os teus doentes, levando os teus filhos à escola ou ao campo de jogos, contando aos teus o teu dia a dia, tentando penetrar mais fundo nos segredos da natureza. Tudo isso já és capaz de fazer - embora o tenhas na conta de insignificante perante os feitos do general cheio de condecorações ou príncipe inchado, cavaleiro de armadura reluzente. (In: Escuta, Zé ninguém! p. 101)

 

Se o misticismo religioso nega o próprio princípio da economia sexual, se condena a sexualidade como um fenômeno humano errado que só pode ser redimido no além, o fascismo nacionalista transfere a sensualidade sexual para a “raça estrangeira”, relegando-o assim a uma posição inferior. O rebaixamento da raça estrangeira coincide a partir de agora, organicamente, com o imperialismo Da fase tardia do patriarcado. (In: Psicologia de massas do fascismo. P. 85)

 

 Freud era diferente. Enquanto os outros desempenhavam um papel qualquer - o do professor, o do grande conhecedor do caráter humano, o do cientista eminente -, Freud não se dava ares de importante. Falou comigo como uma pessoa absolutamente comum. Tinha um olhar vivo e inteligente, que não procurava penetrar o olhar do interlocutor com qualquer espécie de pose, mas olhando simplesmente o mundo de uma forma honesta e franca. (In: A função do orgasmo. P. 39)

domingo, 27 de outubro de 2024

ANTONIO CÍCERO

Antônio Cícero foi um poeta renomado, ensaísta e filósofo brasileiro, nascido em 1945 no Rio de Janeiro, e morto recentemente no dia 23 do corrente, em Zurique na Suíça. 

Irmão da cantora Marina Lima, ele também contribuiu intensamente para a música popular brasileira, escrevendo letras marcantes para artistas como sua irmã Marina Lima, Adriana Calcanhotto e Caetano Veloso. Formado em Filosofia, Cícero é reconhecido pela sua exploração de temas profundos como a natureza do tempo, a transitoriedade da vida e a essência das relações humanas. 

Em seus versos, transita por temas existenciais com uma linguagem clara e precisa, com influências da filosofia. Abaixo, uma de suas poesias mais conhecidas, entre as não musicadas. (Foto do Jornal da Band) 



Guardar


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.