quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O MISTÉRIO DOS RELÓGIOS: Um conto quase inglês.

 O Mistério dos Relógios

 

 

O Convite

A noite estava úmida em Londres, e a névoa subia do Tâmisa quando Agatha Christie recebeu o estranho telegrama.

"Convite irrecusável. Mansão Pembroke, Belgrave Square. Hoje à noite, 21h. Mistério garantido."

O mesmo telegrama chegou às mãos de Arthur Conan Doyle, que, curioso e intrigado, decidiu comparecer. Ambos, sem saber, caminhavam para um encontro improvável com suas próprias criações.

 

Os Personagens Ganhando Vida

Ao adentrar a mansão, Christie sentiu um arrepio. Na sala principal, ao lado da lareira, estava Hercule Poirot, de bigodes impecáveis, terno alinhado, uma figura saída diretamente de suas páginas.

E, para surpresa de Doyle, apoiado em sua bengala, estava Sherlock Holmes, fumando calmamente o cachimbo.

— Mon dieu! — exclamou Poirot. — Senhora Christie... parece que fomos arrancados de nossas próprias histórias.

Holmes lançou um olhar desconfiado:
— Elementarmente impossível. E, no entanto, aqui estamos.

 

O Crime

O anfitrião, lorde James William Pembroke, colecionador e bibliófilo excêntrico, surgiu para recepcioná-los. Ele temia ser assassinado, seus familiares achavam que ele estava ficando paranoico, ou com demência senil. Mas não chegou a anunciar o propósito daquela reunião. Pediu que o mordomo acomodasse os convidados no salão contiguo a biblioteca e se retirou com a promessa de que voltaria em trinta minutos. Antes das 21h30, um grito ecoou. A governanta, pálida, entrou correndo:

— Milorde está morto!

Todos correram para a sala da lareira. O corpo de Pembroke jazia estirado, os olhos fixos no vazio. Nenhum ferimento aparente. Ao redor, todos os relógios da mansão — de parede, de bolso, de mesa — marcavam a mesma hora: 21h17.

 

As Primeiras Pistas

Poirot se aproximou do cadáver.
— Nenhum sinal de luta. Um bilhete no bolso: “O tempo não pode ser controlado.”

Holmes examinava o carpete com sua lupa.
— Cinzas de tabaco turco. Não é inglês. E há pegadas de lama junto à janela. Botas largas, de sola gasta.

Christie, pensativa, comentou:
— Parece mais uma encenação do que um crime.

Doyle, fascinado, murmurava para si mesmo:
— É como se minhas palavras tivessem tomado carne...

 

O Duelo de Mentes

Holmes e Poirot não tardaram a divergir:

— O assassino é externo — decretou Holmes. — Um intruso entrou pela janela, deixou pegadas, matou e fugiu.

— Non, non, mon cher — rebateu Poirot. — O detalhe está no relógio de bolso do lorde. Ele não parou. Continua marcando 21h37. Portanto, a morte foi posterior à encenação. O culpado está entre nós.

Holmes estreitou os olhos:
— O senhor confia demais em pequenos caprichos.

— E o senhor, mon ami, não confia o suficiente no poder das pequenas coisas — replicou Poirot, ajeitando os bigodes.

 

O Motivo

Na biblioteca, encontraram um cofre. Dentro, papéis revelavam que Pembroke possuía manuscritos inéditos de Christie e Doyle, roubados há anos. Planejava leiloá-los secretamente.

— O escândalo seria enorme — murmurou Doyle.
— Motivo mais que suficiente para um crime — disse Agatha.

A Verdade

Holmes chamou todos à sala.
— Senhora Whitmore, sua calma a traiu. A lama em seus sapatos coincide com as pegadas que vi da janela.

A governanta empalideceu.
Poirot completou:
— Foi a senhora quem parou os relógios, quem encenou a cena filosófica do tempo. Mas esqueceu-se do mais importante: o relógio de bolso do próprio lorde, que não se deixaria manipular.

Whitmore chorou e confessou. Servira Pembroke por décadas. Ao descobrir os leilões, não suportou a traição e, num surto de revolta, envenenou o vinho dele. Os relógios foram sua maneira de criar um enigma insolúvel.

 Epílogo

Holmes acendeu outro cachimbo, satisfeito. Poirot ajeitou o terno com vaidade. Christie e Doyle se entreolharam, espantados: haviam visto seus personagens resolverem um crime juntos, como se a ficção tivesse ultrapassado o real.

Agatha, por fim, comentou:
— Talvez, Doyle, o verdadeiro mistério não seja o crime... mas quem realmente escreve a história: nós ou eles?

E a chuva continuava a cair sobre Londres, nessa estranha noite em Belgrave Square.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O PESO DOS DIAS

 

O Peso dos Dias

 

Que quantidade de bom gênio e humor é necessária para suportar esta horrível história de envelhecer”.

Sigmund Freud

 

Acordo sempre antes do sol. Já não preciso de despertador: é o corpo que me chama, com suas dores persistentes e seu cansaço intratável. O sono me abandona como uma mulher que já não encontra interesse. Levanto-me devagar, escutando o concerto de estalos vindos das articulações — parece que dentro de mim vive uma casa antiga, rangendo a cada movimento. É curioso: quando jovem, nunca pensei nos ossos. Eram invisíveis, discretos, sustentando-me sem que eu notasse. Agora, eles se impõem, lembrando-me a cada passo que o tempo não é uma abstração, mas um peso.

Tenho artrose nos joelhos, o quadril enrijecido, a lombar como um ferro enferrujado e duas hérnias de disco a pressionar o nervo ciático. O médico fala de colágeno, de cartilagem gasta, de paciência. Paciência... palavra bonita, mas que, aplicada ao corpo, significa apenas resignar-se a ser prisioneiro do próprio esqueleto.

Na juventude, meu corpo era um cúmplice, pronto para o trabalho, para as mulheres, para as noites sem fim. Hoje, é um inimigo lento, resistente, que me arrasta para um território desconhecido: o território da velhice. Outro dia assisti na tv a uma prova de natação e me lembrei de como gostava de piscinas, de mergulhar, de trampolim, até arriscava uns malfeitos “saltos-mortais”, se tentasse hoje meu salto certamente faria jus ao nome, um salto mortal, fatal mesmo.

A aposentadoria chegou como um presente envenenado. A promessa era de liberdade: tempo para ler os livros que nunca li, para caminhar sem pressa, para observar a vida. Mas descobri que o excesso de tempo é um espelho. E o que vejo refletido não é apenas um homem solitário, mas um homem que já não encontra lugar no mundo. O relógio corre, mas não me chama para nada. Sou uma peça fora da engrenagem.

No silêncio das manhãs, observo as pessoas na rua. Os jovens passam com seus passos firmes, como se o futuro fosse infinito. Não sabem ainda que o corpo é um contrato de prazo curto. Eu os vejo e sinto um desejo estranho — desejo de voltar a ter aquela pele tensa, aqueles músculos obedientes. Mas o desejo também se estende às mulheres que passam, tão novas, tão alheias a mim. Não é só desejo carnal, é também nostalgia: nelas vejo a juventude que já não me pertence. E, ao mesmo tempo, me sinto ridículo. Um velho desejando jovens. O corpo não acompanha, mas a mente insiste em sonhar. É cruel ainda querer, quando já não se pode. É a própria lógica do desejo, que só existe na falta.

Às vezes me pergunto: qual é a função do desejo na velhice? Talvez seja apenas uma confirmação de que estou vivo. Porque o dia em que eu não desejar mais — nem uma bela mulher, nem um gesto de carinho, nem sequer um olhar — será o dia em que já estarei morto, ainda que respirando.

A solidão, essa sim, é uma presença constante, mas não me aborrece. Aposentei-me do trabalho, mas também, de certo modo, da vida social. Amigos se foram, outros perderam o viço, alguns simplesmente se apagaram da memória. Fico na varanda, assistindo ao movimento da cidade. É como se eu estivesse numa plateia invisível, enquanto a peça continua sem mim.

Não me revolto. A revolta exige energia, e a energia, essa sim, é artigo escasso. O que resta é uma espécie de aceitação melancólica. Aprendi que envelhecer é carregar pedras nos bolsos: a cada ano mais pesadas, mas também familiares (lembrei de Virginia Woolf carregando pedras nos bolsos a caminho da morte). Passamos a andar mais devagar, mas também aprendemos a observar melhor a paisagem.

O corpo me limita, é verdade. Mas a mente... a mente ainda se expande. Penso na morte todos os dias, mas sem medo. É mais como se fosse uma visita que um dia chegará — não sei quando, mas sei que virá. O pensamento da morte me traz paradoxalmente um certo consolo. Porque se viver é esse esforço diário contra a decadência, morrer talvez seja apenas descansar.

Enquanto isso, vou encontrando beleza nos detalhes: o sol da tarde se pondo atrás dos prédios e iluminando as rugas da minha mão; o cheiro de café fresco, lembrando manhãs antigas; o riso distante de uma criança, lembrando que o mundo continua.

No fim, penso que envelhecer não é perder — é mudar de lugar. Quando jovem, eu era protagonista da história, na maioria das vezes. Agora, sou testemunha. Assisto, contemplo, reflito. Não é um papel menor. Talvez seja até mais profundo. E quando, à noite, deito o corpo cansado na cama, penso que cada dor é também uma lembrança: uma cicatriz do tempo, um capítulo vivido. O corpo falha, mas as memórias permanecem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

PÁTRIA AMADA?

 

Pátria Amada?

 

“A cadela do fascismo está sempre no cio”

 Bertoldt Brecht.

 

A sala onde se encontravam era apertada, mal iluminada, com cortinas grossas fechadas para que nenhum vizinho curioso espiando pudesse suspeitar. Um ventilador barulhento tentava empurrar o calor da noite, mas só espalhava o cheiro de mofo e café velho. A Bíblia aberta sobre a mesa parecia um estandarte sagrado que legitimava qualquer palavra que saía da boca dos quatro. As quatro bestas do Apocalipse brasileiro.

Adalberto, o mais exaltado, repetia como um mantra:
— O Brasil foi roubado. O povo de Deus não aceita ser governado por um ladrão.

Silvana, mulher de meia-idade, dona de um salão de beleza em declínio, abanava-se com a própria mão. Seu rosto vermelho pelo calor e pela raiva refletia a febre de sua crença.
— Os pastores já disseram: a vitória foi do inimigo. Mas o Senhor nos dá armas espirituais e também carnais, se for preciso.

Rogério, ex-policial militar, expulso da corporação por “excesso de violência” — como se fosse possível um excesso nesse ofício, pensava ele — mascava chiclete com a boca aberta.
— Democracia é invenção de comunista. Isso aqui precisa é de ordem. É só o povo tomar a frente que os generais entram. Eu conheço uns ainda fiéis. Estão esperando só um sinal.

Denise, a mais nova do grupo, trabalhava como auxiliar administrativa numa empresa de transportes. Carregava sempre o crucifixo de metal no pescoço, como se fosse prova de sua pureza. Falava pouco, mas quando falava deixava escapar o veneno:
— Esses gays, essas feministas, esses pretos folgados… O país virou bagunça. Se a gente não se levantar, eles tomam conta de tudo. A pátria não é deles.

O silêncio posterior à frase era carregado. A Bíblia, sobre a mesa, parecia respirar junto com eles. Adalberto foi o primeiro a quebrá-lo, batendo na madeira com o punho fechado.
— Vamos a Brasília. O Congresso é a casa do povo, não desses vagabundos. A gente entra, mostra força. E quando a confusão estourar, o Exército não vai ter escolha. Vão ter que assumir.

Rogério sorriu com um brilho fanático nos olhos.
— Já falei com uns caras. Gente de confiança. Vão levar bandeira, vão levar corda, vão levar o que precisar. Se tiver que quebrar vidro, a gente quebra.

— E a imprensa? — perguntou Silvana, inquieta. — Eles vão dizer que somos terroristas.

Denise riu de leve, quase infantil.
— A imprensa mente. Mas Deus vê a verdade. E a história vai contar do nosso lado.

Dois dias depois, embarcaram em uma van alugada. Levavam mochilas cheias de bandeiras verde-amarelas, garrafas de água, facas de cozinha, lanternas, alguns rojões e uma fé inabalável. Enquanto a estrada corria, Silvana puxava cânticos evangélicos, transformando o veículo em um culto itinerante. Os motoristas dos postos de gasolina onde pararam olhavam com estranheza aquele grupo que falava em “missão divina” e “purificação da pátria”.

Quando avistaram, ao longe, as cúpulas do Congresso Nacional brilhando sob o sol de domingo, sentiram uma espécie de êxtase. Era como chegar a Jerusalém. O ar parecia vibrar de antecipação.

— Hoje é o dia da libertação — murmurou Adalberto, quase em transe.

Milhares já estavam reunidos na Esplanada, vestidos com camisetas da seleção, carregando cartazes e cruzes improvisadas. O verde e amarelo se misturava ao cheiro de suor, milho cozido e gasolina. Alguns falavam em golpe, outros em oração. As vozes formavam uma massa dissonante de desespero e esperança.

Rogério, em meio à multidão, sentia-se de volta ao batalhão.
— É agora ou nunca! — gritou.

A barreira de policiais era frágil diante da fúria coletiva. Gritos de “Fora comunistas!” e “Intervenção já!” ecoavam como trovões. O grupo se lançou à frente, empurrando, quebrando, escalando as rampas do Congresso. Vidros se estilhaçavam, portas arrebentavam. Bandeiras eram fincadas sobre móveis destruídos como se fossem troféus.

Dentro, os quatro se separaram. Silvana ajoelhou-se no chão do plenário vazio, erguendo os braços para o teto e clamando em línguas estranhas. Denise rasgava papéis sobre uma mesa, como se eliminasse símbolos impuros. Adalberto berrava com voz rouca que “a pátria era de Deus e não dos ímpios”. Rogério, mais prático, chutava cadeiras e arrancava fios da parede, como se destruindo aquilo pudesse apagar a democracia.

Mas a euforia tinha gosto de fumaça. Logo bombas de gás lacrimogêneo começaram a explodir. O cheiro ardia nos olhos e queimava a garganta. O barulho de helicópteros zunia no céu. A polícia avançava com escudos e cassetetes.

O que era êxtase transformou-se em pânico. Correria, quedas, gritos. Silvana foi arrastada por soldados enquanto clamava “Glória a Deus!”. Rogério tentou resistir, mas levou uma coronhada que o fez cuspir sangue. Denise, em choque, repetia sem parar que “Deus estava no controle”. Adalberto, algemado, ainda bradava que “os generais viriam”, embora soubesse, no fundo, que não viriam.

Dias depois, nas celas superlotadas, os quatro se reencontraram brevemente. O fervor ainda existia, mas agora manchado pelo medo.

— Eles vão ver… — dizia Adalberto, a voz cansada. — Isso aqui não acaba assim.

Silvana chorava baixinho, pedindo perdão a Deus sem saber se por covardia ou por orgulho. Rogério mascava o ar, como se ainda tivesse o chiclete entre os dentes, olhando fixo para o nada. Denise apertava seu crucifixo até a mão sangrar.

Lá fora, a vida seguia. A democracia, ferida, tentava se recompor. A pátria, amada e odiada, sobrevivia apesar de seus filhos.

No fundo, sabiam: não seriam lembrados como heróis. Apenas como um espetáculo grotesco, uma cicatriz no rosto do país.

sábado, 17 de outubro de 2026

A MORTE DE DON ANTONIO DE FLORES - Poeta desconhecido.

A Morte de Don Antonio de Flores

 

Na praça de touros não há mais toureiros

Não há mais quem possa desafiar o perigo

O último homem morreu!

Numa guerra travada nas nuvens

De sua mente carregada de culpas.

Já não há mais quem defenda a Terra

E a fecunde e a transforme...

Don Antonio de Flores se foi

E Portugal jamais será a mesma

E as raparigas todas chorarão.

Choram Bárbaras e Helenas

Romanas e as da terra do pau-brasil

O último homem morreu

De espanto, de susto e insulto

Da impossibilidade do encontro

Entre a bainha e a espada

Na dança da luta da vida bruta.

E ninguém mais as protegerá

Filhas de Israel e da Babilônia

Dos campos verdes da ibérica península

Dos mares do sul à costa da África

Do solo seco do sertão nordestino

Tudo é pranto e dor,

Pois morreu o último cavalheiro.

Choram negras, brancas, mulatas e caboclas

E todas as ninfomaníacas da terra

Pois se foi aquele cuja lança ereta

Estava sempre pronta

E as flores murcharão em toda Terra

Don Antonio de Flores e amores

Não mais pisará o campo de batalha

O último filho do agogê está morto.

O último a se prostrar em adoração as deusas de toda a Terra.

Pranteiam todas as feias, deformadas e

Aleijadas da Terra,

Não está mais entre os vivos

Aquele que poderia lhes lançar um olhar

E num mágico instante as converter em beleza.

E todas as bucetas do mundo chorarão

E uns tantos anus sofredores

E as loucas bocas não mais sorverão seu líquido Quente e branco ...

Agora na terra, só dores

Pois, se foi para sempre o nobre vagabundo, o letrado

Don Antonio de Flores! 

 

VOZES DO INTERIOR

 

“Vozes do Interior”

 

“Nossa dor vem da distância entre aquilo que somos e o que idealizamos ser.”

Friedrich Nietzsche


Ela se chamava Rosimeire, mas preferia que a chamassem de Rosi — dizia que soava mais leve, mais moderna, menos sertão e mais cidade. Tinha vindo de Itacuruba, sertão de Pernambuco, aos vinte e um, com a roupa do corpo, o cabelo trançado e a mãe implorando para ela não se perder em cidade grande. A cidade grande, no caso, era Recife. Nem tão grande assim, mas para quem vinha de um povoado perdido as margens do São Francisco, lá onde Pernambuco e Bahia se encontram, chegar à capital era como chegar em São Paulo.

Veio parar na casa do deputado estadual Rubem Acioli — um progressista de palanque, reacionário de mesa de jantar, corrupto como muitos. A patroa, dona Gilda, a tratava com um paternalismo de missa e rosário, e Rosi se conformava. Limpava, cozinhava, cuidava dos filhos pequenos do casal como se fossem dela. Até que, num janeiro de calor infernal, cruzou com João. Motorista da família, viúvo recente, calado e gentil. Começaram trocando palavras tímidas na área de serviço. Um mês depois, estavam casados. Casar-se, na prática, foi dividir o quartinho dos fundos da casa do deputado, nos limites da garagem.

Tiveram dois filhos. João era trabalhador, honesto, um bom homem — e absolutamente inapto quando se tratava de sexo. As primeiras vezes foram rápidas, higiênicas, quase eclesiásticas. Ele pedia desculpa depois. Ela fingia que estava tudo certo. E foi fingindo, fingindo, fingindo... até que um dia não deu mais. Numa noite sem crianças e com muito silêncio, ela chorou durante o ato. Disse que não sabia se era culpa dela ou de Deus, mas nunca tinha sentido prazer. Nunca. Nenhum. Nenhum mesmo. João fez cara de espanto, como se isso fosse uma acusação absurda — "mas eu sou seu marido, Rosimeire!". Como se o título lhe garantisse a eficiência. Como se o anel no dedo produzisse orgasmos por osmose.

Ela queria cantar. Sempre quis. Desde menina inventava letras na beira do fogão à lenha. Mas ali, no concreto úmido do quartinho com cheiro de mofo e leite azedo, era apenas uma mulher sem orgasmo e sem futuro. Até que a Secretaria de Cultura da cidade abriu vagas para um curso popular de canto e violão. O projeto “Som da Periferia”, ensinar música, teoria e prática para a população pobre, oportunidade imperdível, além de ser gratuito e com direito a certificado de conclusão. João resmungou, mas permitiu — “desde que não volte tarde”. Ela prometeu que seria só por aprendizado – não pretendia seguir carreira artística - mentira. Mas no fundo, era a busca por alguma coisa que ela não sabia nomear. Um som interior, talvez. Um grito abafado há anos.

Na primeira aula conheceu Marcelo. Professor de canto, quarenta e poucos, separado, meio boêmio, meio místico. Tinha um cheiro diferente, um jeito de olhar que fazia Rosi se sentir desconfortável. Ele não olhava como João. Ele olhava através. Sabia quando ela desafinava por vergonha, quando a letra não saía por medo. E um dia, sem pedir, colocou a mão em seu queixo e disse: “sua voz está presa, Rosi. Solta ela. Solta você.”

Soltar-se virou necessidade.

Foram almoços prolongados, tardes num estúdio improvisado nos fundos de uma ONG. Um beijo. Outro. E então, o corpo — aquele corpo que ela achava defeituoso, incapaz de sentir — de repente era um campo elétrico. Marcelo não tinha pressa. E quando veio a primeira explosão, o primeiro tremor de verdade, ela chorou de novo — mas agora por descobrir que não era frígida, nem danificada, apenas mal-amada.

Com Marcelo, conheceu tudo que tinha ouvido falar pelas amigas da feira — e que, secretamente, achava invenção. Sexo oral. Muito. Demorado. E o outro, o tal anal, que ela pensava ser só coisa de filme pornô, e que acabou se tornando vício. Era o inverso da vida com João: em vez de esconder, ali ela podia ser devassa. Gostava de dizer palavrões. Gostava de pedir que ele a fodesse com força. Gostava de gozar alto. E gostava da culpa que vinha depois. Porque sim, a culpa também era um gozo. Um gozo torto, moral, católico.

O casamento, claro, afundou. João não entendeu. “Você quer ser cantora, é? Com dois meninos pequenos? Vai sair por aí mostrando o corpo, saias curtas, rebolando? Isso é coisa de puta, Rosimeire!” Ela não respondeu. Na verdade, queria mesmo era gritar: "puta não, João. Mas mulher, sim. Inteira. De carne viva. De voz solta."

Quando saiu de casa, levou os meninos. Marcelo a acolheu por uns meses, mas ele também não era feito para a vida doméstica, um casamento — queria liberdade, não filhos pequenos chorando à noite. Separaram-se com civilidade.

Hoje, Rosi canta nas noites de sexta e sábado em bares do Recife Antigo e nas festas juninas faz pequenos shows em Caruaru e cidades vizinhas. Voz rouca, presença forte. Os filhos ficam com a vizinha. Ela ainda se sente sozinha às vezes. Mas agora, ao menos, sabe que existe. Que sente. Que goza. Que ama. Que pode ser amada. E que sua voz — aquela voz que um dia ficou presa entre fraldas, pano de chão e orações — agora sai limpa. E suja, quando quer. Porque é dela. Inteiramente dela.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A MULHER DO SOLDADO: Um conto - pretensamente - machadiano

 

“A mulher do soldado”

 

 

por um discípulo de Brás Cubas

 

 


Era casada, sim. E com um cabo da Brigada Militar, o que, por si só, já conferia ao casamento uma certa rigidez que não era apenas a da farda. Chamava-se Eugênia — nome suave, quase aristocrático, que contrastava com a dureza marcial da casa onde morava.

O marido, Joaquim Alves, mais conhecido por essas bandas como Quincas Soldado, homem austero, honesto e de silêncios pesados. Se o amor existira um dia, encolhera-se nas frestas dos móveis, junto às pastas de ocorrência e aos coturnos embolorados.

Ora, quem esperaria de Eugênia alguma transgressão? Era religiosa aos domingos, costurava à tarde e tratava da sogra enferma com resignação beatífica. Mas até os sinos de igreja, quando mal afinados, ressoam desejos dissonantes. E o interior de sua cabeça era semelhante a um sino desafinado.

É preciso dizer, sem rodeios, que Eugênia possuía um amante. Sim, um. Somente um, o que — ela mesma argumentava diante do espelho — já era prova de contenção e moralidade relativa. “Se louca ou incontida fosse, seriam dez”, pensava ela. Chamava-se Marcos, era despachante de seguros e tinha a língua mais hábil que sua caneta.

Encontravam-se às quintas-feiras, entre as duas e as quatro da tarde, horário em que o marido estava em curso de tiro ou rondando os becos suburbanos. O apartamento? De um conhecido de Marcos, que o alugava para encontros fugazes — e discretos, naturalmente.

Mas, veja bem, leitor severo, não se tratava de adultério completo, ao menos nos termos do Código Penal das consciências católicas. Eugênia havia imposto um limite: não haveria penetração.

— Se Deus quiser, tudo pelos lábios. Só pelos lábios — dissera ela, num dos primeiros encontros, puxando o vestido para cima com mais zelo do que volúpia.

O argumento era engenhoso, ainda que triste: temia que o marido, homem atento e possessivo, descobrisse algo. Um cheiro, um traço de sêmen, um deslocamento sutil que o instinto militar decifraria como crime.

E assim, entre beijos, dedos e o que se pode chamar de ofício bucal de duplo sentido, consumava-se a paixão em silêncio — não menos intensa por ser contida. Ao contrário, tornava-se ainda mais densa, como vinho guardado demais.

Houve quem dissesse que o verdadeiro pecado do adultério está na intenção, e não na mecânica. Eugênia, porém, preferia uma teologia mais tolerante: enquanto o corpo se mantivesse tecnicamente inviolado, a alma poderia gozar em paz.

Mas eis que, como tudo o que é demasiado perfeito, a rotina começou a ranger. Marcos passou a desejar mais. Queria “completude”, como dizia com certo dramatismo, como se a nudez parcial fosse uma mutilação espiritual. Já Eugênia sentia-se cada vez mais dividida, não entre dois homens, mas entre duas versões de si mesma — a que servia à ordem e a que saboreava o desvio.

Foi então que, numa tarde de chuva, depois de um gozo mútuo e demorado, ela recolheu suas roupas, virou-se para ele e disse com serenidade:

— Acabou, Marcos.

Ele pensou que fosse um capricho. Tentou rir. Mas o olhar dela era o mesmo com que servia o café ao marido: firme, resignado, irreversível.

— O quê? Por quê?

— Porque meu pecado já não se esconde nos detalhes... Ele cresceu, Marcos. Cresceu demais para caber entre os dentes.

Saiu sem mais palavras. Passou por uma senhora no corredor, sorriu discretamente e desceu as escadas como quem retorna de uma confissão.

Nunca mais se viram.

Ela voltou às suas quintas-feiras de costura. O marido, como sempre, nada soube. Ou, se soube, guardou para si, como os homens silenciosos costumam fazer com as dores — ou com os cadáveres.

Eugênia, essa, viveu o resto da vida fiel a não se sabe o que, só não era a seu desejo. Fiel como uma santa, com um segredo nos lábios e o gosto de um passado que nunca chegou a ser inteiro.

ANIVERSÁRIO 63

QUATRO MESES DEPOIS ......