HIPÓCRATES (460-370 a.e.c.): Na medicina hipocrática (Grécia Antiga, cerca de século V a.e.c), a histeria estava diretamente ligada à ideia de um distúrbio do útero — tanto que o próprio termo “histeria” vem do grego hystéra (ὑστέρα), que significa útero.
O útero era visto como um órgão móvel dentro do corpo da mulher.
·
Acreditava-se
que, se a mulher permanecesse muito tempo sem relações sexuais ou sem
engravidar, o útero poderia “subir” ou “migrar” pelo corpo em busca de
umidade, comprimindo outros órgãos.
·
Essa “migração”
causaria sintomas como desmaios, falta de ar, ansiedade, palpitações,
convulsões, e até alterações de comportamento — o que hoje chamaríamos de
sintomas somáticos e psíquicos.
Teoria
do “útero errante” (uterus migrans):
·
Se o útero
subisse em direção ao diafragma, causaria sufocação e sensação de aperto no
peito.
·
Se descesse,
poderia provocar dores abdominais e fraqueza.
Tratamentos propostos:
·
Aromas agradáveis
perto da vagina (para “atrair” o útero de volta).
·
Pedra d’Espanha:
um peso para evitar o deslocamento da matriz.
·
Odores fortes e
desagradáveis no nariz (para “expulsar” o útero de regiões superiores).
·
Incentivar
casamento e relações sexuais, pois a gravidez era vista como “cura”.
IBN
SINA (980–1037 e.c.): médico e
filósofo persa, tratou da histeria dentro de seu Cânone da Medicina (Al-Qanun
fi al-Tibb), a grande enciclopédia médica que sistematizou o saber
greco-islâmico.
· Ele herdou a
noção hipocrática e galênica de que a histeria estava ligada ao útero e a
distúrbios reprodutivos.
·
Descreveu
sintomas como sufocação, convulsões, sensação de bola subindo pela garganta,
mudanças de humor e estados de transe.
· Considerava que a
histeria poderia resultar de retenção de humores ou de ausência de
relações sexuais e menstruação irregular.
·
No Cânone,
usa termos como “sufocação uterina” (ikhtenaq al-rahim), equivalente à hysterike
pnix dos gregos.
Diferença em relação aos gregos:
·
Avicena
incorporou também aspectos psicológicos, reconhecendo que fatores
emocionais e mentais podiam agravar o quadro.
·
Recomendava não
só intervenções físicas (aromas, banhos, massagens), mas também cuidados com o estado
mental da paciente.
Importância
histórica:
· A abordagem de Avicena manteve viva a teoria do “útero errante”, mas também abriu espaço para compreender a histeria como um fenômeno corpo–mente. Seu texto foi referência na medicina europeia até o século XVII.
Essas concepções persistiram por séculos, influenciando até a medicina medieval
e renascentista. Só no final do século XIX, com os estudos de neurologia (como
os de Charcot e Freud), a histeria começou a ser reinterpretada como uma
condição ligada ao sistema nervoso e à psique, e não ao útero.
Podemos afirmar que a psicanálise
surgiu a partir do interesse de Freud pela histeria, ainda quando estudante e
pesquisador em neurologia. Foram as pesquisas feitas, inicialmente ao lado de
Charcot, Bernheim e J. Breuer, e posteriormente sozinho, com a clínica da
histeria que o levaram a formular e desenvolver o conceito de inconsciente como
sistema dinâmico. Até a sistematização desse conceito, o caminho percorrido por
Freud foi longo e tortuoso. Sob a influência na tradição médica austríaca,
representada por Brucke, Meynert e outros, Freud concentra-se na pesquisa
neurofisiológica até meados de 1885, quando embarca para Paris e matricula-se
no curso do eminente médico Jean-Martin Charcot.
Durante as primeiras semanas em Paris,
Freud trabalhou no estudo microscópico de cérebros infantis no laboratório que Charcot
mantinha na Salpêtrière. O resultado disso foram dois trabalhos: um sobre
afasia e outro sobre paralisia cerebral infantil. No entanto, “a presença
poderosa de Charcot afastou-o do microscópio e impeliu-o a uma direção para a
qual, conforme alguns sinais visíveis, já vinha se encaminhando: a psicologia”.
JEAN-MARTIN CHARCOT (1825-1893): O maior mérito de Charcot, foi
conseguir desmistificar e oferecer explicações coerentes sobre o grande mal que
desde a antiguidade resistia ao saber médico. Diferentemente da tradição médica
vienense – de orientação anatômico-patológica - ele postulava a existência de lesões
dinâmicas ou funcionais na histeria, e falava em traumas decorrentes e um
intenso choque emocional, que seria responsável pela formação de ideias patogênicas
expressas sob a forma de sintomas. Além disso, Charcot eliminava sintomas
histéricos através da sugestão hipnótica, em suas aulas espetaculares diante de
uma plateia de ilustres alunos.
- Base
neurológica e hereditária
- Charcot
não via a histeria apenas como algo "imaginário" ou moral (como
muitos médicos de sua época).
- Defendia
que a histeria tinha uma base orgânica no sistema nervoso, ligada à degenerescência
hereditária.
- Via
a histeria como uma neurose, não como uma simulação. Essa foi uma
ruptura importante: ele legitimou o sofrimento histérico.
- Trauma
físico ou psíquico como desencadeador
- Um
acidente físico, uma queda, uma violência ou um choque emocional poderiam
funcionar como "gatilho".
- Esse
trauma se fixava no sistema nervoso e, por sugestibilidade, podia se
repetir em crises.
- Teoria
das lesões dinâmicas
- Charcot
acreditava em "lesões funcionais" do sistema nervoso,
invisíveis ao exame anatômico (ao contrário das lesões fixas da esclerose
múltipla, por exemplo).
- Assim, a histeria seria uma alteração real do funcionamento nervoso, mas sem lesão detectável.
Tratamento:
- Hipnose
- Charcot
usava a hipnose como principal método terapêutico e como forma de experimentação clínica.
- Ele
acreditava que a hipnose podia reproduzir e modificar sintomas
histéricos, servindo tanto para estudar a doença quanto para tratar.
- Demonstrava
isso publicamente nas famosas “aulas de terça-feira” na Salpêtrière,
onde colocava pacientes histéricas em transe diante de plateias de
médicos e intelectuais.
- Hospitalização
e disciplina médica
- Muitas
pacientes eram mulheres pobres internadas na Salpêtrière, um
hospital-asilo em Paris.
- O
ambiente controlado, com rotinas médicas e observação contínua, era parte
do tratamento.
- Sugestão
e terapias de choque
- A
ideia era “reprogramar” o sistema nervoso pela sugestão durante a
hipnose.
- Em alguns casos, utilizava compressas frias, massagens ou estímulos elétricos localizados para provocar ou interromper crises.
As 4 fases da crise histérica:
- Período
epileptóide
- Semelhante
a uma crise epiléptica.
- Ocorrem
movimentos convulsivos, quedas, perda aparente da consciência, rigidez
muscular.
- A
diferença é que, na histeria, esses sintomas tinham um caráter mais
“teatral” e menos estereotipado do que na epilepsia verdadeira.
- Período
dos “grandes movimentos” (ou contorções e clownismo)
- A
paciente realizava gestos espetaculares, contorções corporais,
arqueamento do corpo (“arc de cercle”).
- Charcot
chamava de “clownismo” porque lembrava acrobacias circenses.
- Movimentos
dramáticos e exagerados, que chamavam a atenção.
- Período
das atitudes passionais
- A
paciente assumia posturas e expressões faciais de caráter teatral e
emocional.
- Podiam
aparecer gestos que expressavam medo, êxtase, raiva, desespero ou
erotização.
4. Período de delírio:
o
durante
o qual a paciente parece confusa ou em estado de fuga e passa a falar de forma
incompreensível, irracional, dizer obscenidades ou, ainda, a revelar segredos e
pensamentos íntimos.
Quadro comparativo das concepções
sobre a Histeria
|
Aspecto |
Charcot (séc. XIX) |
Freud (fim séc. XIX – início XX) |
Psiquiatria Atual (DSM-5 / CID-11) |
|
Origem da histeria |
Distúrbio neurológico funcional,
ligado à degenerescência hereditária. Trauma físico ou psíquico podia
desencadear. |
Conflito psíquico inconsciente,
especialmente ligado à sexualidade reprimida. Sintomas eram expressões
simbólicas desse conflito. |
Não existe mais como diagnóstico
único. Sintomas atribuídos a transtornos dissociativos e somatoformes. Origem
multifatorial: psicológica, social e neurobiológica. |
|
Natureza dos sintomas |
Convulsões, paralisias, cegueiras e
anestesias sem causa orgânica. |
Idênticos aos descritos por
Charcot, mas interpretados como conversão do conflito psíquico em sintomas
corporais. |
Sintomas corporais ou psíquicos
inexplicáveis organicamente. Classificados como: Transtorno de Conversão,
Transtorno Somático, Transtornos Dissociativos. |
|
Explicação central |
Lesões “dinâmicas” do sistema
nervoso, funcionais, mas invisíveis à anatomia. |
Mecanismos de defesa inconscientes
(recalque, conversão). Trauma psíquico reprimido encontra via no corpo. |
Desregulação psicofisiológica.
Fatores psicológicos, sociais e neuroquímicos atuam em conjunto. |
|
Tratamento |
Hipnose, sugestão, hospitalização,
estimulação física (compressas, eletricidade). |
Psicanálise: associação livre,
interpretação dos sonhos, análise da transferência. |
Psicoterapia
(cognitivo-comportamental, psicodinâmica), tratamento medicamentoso em alguns
casos, técnicas de regulação emocional. |
|
Visão social |
Legitima a histeria como doença
real (não fingimento). Pacientes em sua maioria eram mulheres pobres
internadas na Salpêtrière. |
Demonstra que homens também podem
ser histéricos. Liga a histeria à vida psíquica universal. |
Abandono do termo “histeria” (por
ser estigmatizante e impreciso). Termos técnicos substituem o conceito. |
JOSEF BREUER (1842-1925): Sob a influência de Charcot, e
posteriormente de Bernheim, Freud se lança de corpo e alma ao estudo da
histeria. No entanto, foi a figura carismática de Josef Breuer que o
afastou de vez da neurofisiologia e o levou a descoberta da psicanálise. O
famoso caso de histeria em uma jovem de 19 anos, tratado por Breuer em dezembro
de 1880 – Anna O. – abriu as portas para que Freud estruturasse um
método de tratamento. “Originalmente sob a influência de Breuer, ele havia
passado (...) da hipnose para o tratamento catártico através da fala, e
prosseguiu adaptando gradativamente os métodos de Breuer, até que, em meados
dos anos 1890, lançou-se à psicanálise”.
Breuer adota Freud como discípulo,
manda-lhe pacientes e paga-lhe honorários; era seu “pai espiritual”. O fruto
dessa convivência surgiu em 1895 sob a forma de um livro: “Estudos sobre a Histeria”,
e com ele, inaugurava se as bases da teoria psicanalítica. Neste livro, além
das considerações teóricas de ambos sobre o mecanismo da histeria, incluía
também o aspecto técnico do método catártico, além é claro, de inúmeros casos
clínicos. Nesse período Freud postula que a etiologia da histeria é de natureza
sexual e formula a “teoria da sedução sexual precoce”, que lhe causou
alguns problemas, um deles foi a perda da amizade de Breuer. Algum tempo depois
Freud descobre que sua teoria da sedução não era verdadeira, “minhas
histéricas mentem” disse ele, mas, a etiologia sexual da histeria era
incontestável, restava-lhe prová-la sozinho, sem seu pai espiritual. Trinta
anos depois, numa carta a Stephan Zweig, Freud escreve: “Breuer teve nas mãos a
chave que nos abriria a porta das mães, mas ele a deixou cair”.
*ILUSTRAÇÃO: PIXABAY




