A analista lacaniana
“O
objetivo de uma análise não é tornar o romance neurótico mais consistente, ou
substituí-lo por um outro melhor, e sim dispensar o sujeito desta necessidade
constante de explicar-se, que sustenta sua fantasia”.
Jacques
Lacan
Ela era formada
em Letras, mas nunca se contentou apenas com livros. A leitura lhe abriu a
porta para a linguagem, e a linguagem, para a psicanálise. Entrou no Colégio
Freudiano do Rio de Janeiro, fez análise e formação. Gostava de dizer, entre
baforadas de cigarro, que “a psicanálise não foi feita para os bons modos”.
Fumava muito.
Acendia um cigarro após o outro, como se cada tragada fosse necessário para
sustentar a escuta. O consultório sempre tinha um cheiro forte, misturado ao
couro gasto da poltrona e do divã e ao silêncio pesado dos pacientes. Suas
interpretações, quando vinham, quase sempre eram palavrões.
Lembrava-se de
uma sessão em que o paciente, homem na casa dos trinta e poucos, chegara
choroso, reclamando da família, dos colegas de trabalho, de como todos o
exploravam. Passivo, resignado, dizia que “não tinha forças para enfrentar
nada”. Ela o escutou, soprando a fumaça para o teto. Quando ele se calou, ela
disse, seca, sem qualquer gesto de ternura: — Quem se abaixa mostra o cu. Seu
tempo acabou.
O homem ficou vermelho, gaguejou.
Nunca mais reclamou do mesmo jeito.
Outro caso
Havia também a
moça que sempre falava de homens violentos, relações abusivas. Dizia que “não
conseguia evitar”. Eu acho que tenho o dedo podre, dizia ela para tentar
explicar por que sempre escolhia péssimos parceiros. Ela ouviu em silêncio por
meses, até que um dia, quando a paciente descreveu mais uma vez as agressões,
disse:
— Você gosta de apanhar. Tem tesão nisso. Agora precisa descobrir o que vai
fazer com essa verdade.
A paciente a
odiou, faltou três sessões seguidas, mas voltou. Não porque concordava, mas
porque aquela frase não saía de sua cabeça. O que fazer com a verdade?
Um terceiro
fragmento
Um jovem
analista em formação veio fazer supervisão. Ele apresentou um caso de histeria,
cheio de termos técnicos, preocupado com “o manejo da transferência”. Ela o
interrompeu:
— Você tá mais preocupado em parecer analista do que em escutar o que a menina
fala. Vai estudar menos Lacan e ouvir mais os berros dela.
O rapaz
enrubesceu, mas anotou.
Epílogo
Era assim.
Direta, cortante, muitas vezes brutal. Mas havia, por trás do palavrão, uma
aposta radical na verdade que emergia do inconsciente. Não fazia concessões,
nem ao paciente, nem a si mesma.
Naquela noite em que encerrou seu
último caso, fechou o consultório, acendeu mais um cigarro e murmurou para si:
— A análise é para quem aguenta ouvir a verdade que estava oculta,
inconsciente. O resto é literatura barata.
E riu sozinha, como quem sabe que
entre o livro, o divã e a vida, não há fronteira nítida — apenas a coragem de
não se abaixar.
