segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Psicopatologia Psicanalítica

 

O ponto de partida: o Nome-do-Pai

Na teoria de Jacques Lacan, o Nome-do-Pai não se refere ao pai biológico, mas a uma função simbólica que introduz a Lei, a proibição do incesto e o limite ao desejo da mãe.
É a entrada do sujeito na ordem simbólica (a linguagem, as regras, o mundo social).

Em termos simples:

  • A mãe representa o campo do desejo, do gozo e da fusão inicial.
  • O pai simbólico (Nome-do-Pai) vem “cortar” essa fusão e inscrever o sujeito na lei da linguagem, possibilitando a constituição do desejo próprio.

Quando essa função é bem instaurada, o sujeito torna-se neurótico (ou seja, estruturado).
Quando ela é fragilmente instaurada ou forcluída (expulsa do simbólico), surgem as outras estruturas: perversão e psicose.

 

A metáfora do barqueiro

Imagine o aparelho psíquico como um barco navegando sobre um rio.

  • O barqueiro representa o Nome-do-Pai, a instância que orienta e dá direção.
  • O rio é o desejo da mãe (fluxo intenso e potencialmente desorganizador).
  • O barco é o sujeito, tentando se manter em equilíbrio nesse fluxo.

A metáfora ilustra o modo como cada estrutura lida com a presença (ou ausência) do barqueiro.

 

Na neurose: o barqueiro está presente

Na neurose, o barqueiro (Nome-do-Pai) está no comando do barco.
Ele dá direção, impõe limites, evita que o barco se perca no fluxo do rio.

O sujeito neurótico tem a Lei internalizada:
há culpa, conflito, repressão, desejo mediado pela proibição.

Exemplo simbólico:
O neurótico deseja, mas sente culpa; quer transgredir, mas teme o castigo.
O barqueiro o mantém no curso certo, mas às vezes com sofrimento — o preço da civilização.

 

Na psicose: o barqueiro foi expulso do barco

Na psicose, o Nome-do-Pai foi forcluído — isto é, jamais entrou no simbólico.
O barqueiro não está presente; o barco segue à deriva.

Sem o barqueiro, o sujeito não tem a Lei simbólica que organiza o desejo.
O rio (desejo materno) invade o barco — o sujeito é tomado pelo gozo, pelas vozes, pelas invasões do Real.

 Em termos clínicos:
é o desencadeamento psicótico, com alucinações, delírios e ruptura da realidade.
O Nome-do-Pai retorna no Real (por exemplo, na forma de vozes imperativas).

 

Na perversão: o barqueiro é “amarrado ao mastro”

Na perversão, o barqueiro existe, mas o sujeito não o reconhece como autoridade.
Ele está ali, mas o sujeito o desafia, tenta substituí-lo ou brinca com sua presença.

O perverso não nega a lei, mas a suspende para gozar dela.
Ele sabe que há um barqueiro, mas o amarra ao mastro para poder conduzir o barco como quiser — com a sensação de controlar o limite.

Exemplo simbólico:
o sujeito que precisa da regra para transgredi-la;
que encontra prazer justamente na cena em que a Lei é desafiada (por exemplo, o fetichista, o voyeur, o sádico).

 

Resumo comparativo

Estrutura

Situação do barqueiro (Nome-do-Pai)

Consequência psíquica

Exemplo simbólico

Neurose

Barqueiro presente e atuante

Lei internalizada; conflito e culpa

O sujeito obedece, mas sofre

Psicose

Barqueiro ausente (forcluído)

Invasão do gozo; perda da realidade

O barco à deriva no rio

Perversão

Barqueiro amarrado, Lei sabida, mas desafiada

Gozo na transgressão da Lei

O sujeito pilota o barco por conta própria

 

A metáfora do barqueiro traduz de forma poética a teoria estrutural lacaniana:
a presença, ausência ou desafio à função paterna define como o sujeito lida com o desejo, a lei e o gozo.

Assim:

  • A neurose organiza o desejo pela interdição;
  • A psicose sofre pela ausência da interdição;
  • A perversão joga com a interdição.
* IMAGEM GRATUITA, POR fszalai.

OUTUBRO VERMELHO, VERDE E AMARELO!

 

A última semana de outubro já entrou para a história do Brasil e do mundo. A grande mobilização nas ruas e nas redes sociais da internet reverteu a pequena vantagem que o candidato do crime organizado (ver milícias cariocas)  conseguira colocar no primeiro turno. Estudantes, trabalhadores, aposentados; homens e mulheres; jovens e velhos; pretos, pardos e brancos; católicos, espíritas, ateus e evangélicos (das igrejas históricas) juntos derrotamos o fascismo e varremos a extrema direita para o lixo da história, e fomos inspiração para o mundo democrático.

As ruas foram tomadas por uma multidão que alertava a população do perigo de se colocar de novo a família miliciana no poder, na internet o "Exército do Lula" do deputado Janones, ensinava como fazer campanha nas redes. A resposta foi dada nas urnas: mais de 4 milhões de votos de diferença, deixando perplexos o "gado bolsonazi", que mesmo contando com o apoio das "BigTecs" e de centenas de pastores bandidos coagindo suas ovelhas a votar no mais anticristão dos candidatos que já disputaram a presidência até hoje. 

E o que já era esperado aconteceu; o senador miliciano com medo de ser preso, pois vai perder sua imunidade parlamentar e já pode ir pra cadeia devido aos diversos crimes cometidos, fugiu... Fez igual ao irmão, também foragido da justiça, e pediu asilo nos EUA sendo apoiado pelos fascistas de lá. Mas o mais importante é que salvamos a democracia e mostramos ao mundo que é possível.

Fazer o L se espalhou por todos os continentes como símbolo da Luta Antifascista, em todo o mundo houve manifestação de apoio, políticos, artistas e ativistas fazendo o L, de Luta, de Liberdade, de Lula.



quarta-feira, 28 de outubro de 2026

O EFEITO PLACEBO E NOCEBO

 

O texto abaixo é um resumo esquemático do livro: Placebo: mente sobre corpo na saúde e na doença (2011) de Fabrizio Benedetti, médico italiano pioneiro na pesquisa do efeito placebo e sua aplicabilidade na clínica médica.

 

1. O efeito placebo é real e neurobiológico

·        Benedetti demonstra que o efeito placebo não é “fictício”, mas tem bases neurobiológicas concretas — ativação cerebral e liberação de substâncias como endorfinas e dopamina.

·        No Parkinson, por exemplo, pacientes que esperavam melhora motoras liberaram dopamina no “striatum dorsal”, comprovado por estudos de neuroimagem.

 

2. Contexto psicossocial como motor do placebo

·        O que dispara o efeito placebo não é o medicamento em si, mas o contexto clínico — palavras do médico, aparência do medicamento, ambiente, ritual da consulta.

·        A expectativa e crença do paciente frente ao tratamento é o que “liga” esse mecanismo neurobiológico.

 

3. Vários tipos de efeito placebo

·        Benedetti argumenta que existe mais de um efeito placebo, e eles operam por vias distintas:

·        Expectativa consciente: o alívio ocorre pela crença de que algo vai funcionar.

·        Condicionamento clássico: o corpo reage da mesma forma que reagia a uma substância ativa, mesmo recebendo um placebo.

·        Ritual terapêutico: o simples ato de receber tratamento, mesmo sem agente ativo, induz resposta terapêutica emocional ou fisiológica.

 

4. Estudos e aplicações práticas

·        Em Parkinson, pacientes receberam placebo após treinamento com estimulantes: o cérebro passou a liberar dopamina como se ainda recebessem o fármaco real.

·        Em outros estudos, Benedetti observou que placebos podem induzir até os efeitos colaterais típicos de medicamentos, como sedação — sinal claro de resposta condicionada.

·        Ele também demonstrou que diferentes doenças e sistemas respondem de maneira diferente aos tipos de placebo.

 

5. Importância do paradigma aberto-oculto

·        Coloca-se que esconder o ato de administrar um tratamento (oculto) pode eliminar o efeito placebo, demonstrando o peso da expectativa no resultado clínico.

·        Isso evidencia que parte da resposta sistêmica atribuído ao tratamento ativo em estudos duplo-cegos pode ser, na verdade, efeito placebo.

 

 6.     Resumo

Tópico

Destaques

Natureza real do placebo

Base corporal comprovada — neurotransmissores liberados em resposta à expectativa.

Contexto decisivo

O ambiente e o cuidado clínico ativam mecanismos neurobiológicos poderosos.

Tipos diversos de placebo

Expectativa, condicionamento e ritual têm vias distintas, mas reais.

Estudos de impacto

Parkinson (liberação de dopamina), efeitos colaterais simulados, resposta condicionada.

Paradigma aberto-oculto

Confirma que a consciência sobre o tratamento é parte do efeito ético e clínico.


Exemplos clínicos


1. Parkinson e liberação de dopamina

  • Contexto: Pacientes com Parkinson receberam placebo após terem tomado previamente medicamentos dopaminérgicos.
  • Observação: Quando esperavam receber o medicamento ativo, o cérebro liberava dopamina no estriado dorsal, como se fosse o fármaco real.
  • Conclusão: A expectativa sozinha pode ativar vias neuroquímicas específicas, melhorando movimentos sem substância ativa.


2. Alívio da dor via placebo

  • Estudo: Pacientes com dor aguda receberam uma injeção de placebo, enquanto eram informados de que seria analgésico.
  • Resultado: Muitos relataram redução significativa da dor.
  • Mecanismo: Liberação de endorfina endógena, demonstrando que o corpo pode gerar seu próprio analgésico em resposta à crença.

 

3. Efeito colateral simulado (nocebo)

  • Exemplo: Pacientes receberam pílulas inertes, mas informados que poderiam causar sonolência.
  • Resultado: Muitos relataram sentir sonolência, náusea ou outros efeitos esperados do medicamento.
  • Lição: O efeito nocebo — reação adversa induzida por expectativa negativa — é real e mensurável.

 

4. Placebo em cirurgias

  • Exemplo: Pacientes com dor articular receberam cirurgia simulada ou real.
  • Resultado: Alguns do grupo simulado tiveram melhora comparável aos pacientes operados.
  • Conclusão: Ritual e contexto terapêutico podem gerar melhora funcional e percepção de alívio da dor mesmo sem intervenção física.


5. Condicionamento clássico

  • Exemplo: Pacientes tomavam analgésicos reais por dias, depois recebiam placebo sem saber.
  • Resultado: O corpo continuava a responder com alívio da dor.
  • Explicação: O organismo aprende a responder ao tratamento por associação, independentemente da substância ativa.

 

6. Placebo em depressão

  • Estudo clínico: Pacientes tratados com antidepressivos ou placebo demonstraram melhora significativa em ambos os grupos.
  • Insight: Expectativa e ambiente terapêutico contribuem substancialmente para a eficácia do tratamento, mostrando que atenção, crença e ritual são essenciais.

*FOTOGRAFIA DE CONSUELO BORRONI  DE ACESSO LIVRE  NO SITE PEXELS.

sábado, 24 de outubro de 2026

A ANALISTA LACANIANA

 

A analista lacaniana

 

“O objetivo de uma análise não é tornar o romance neurótico mais consistente, ou substituí-lo por um outro melhor, e sim dispensar o sujeito desta necessidade constante de explicar-se, que sustenta sua fantasia”.

Jacques Lacan

 

Ela era formada em Letras, mas nunca se contentou apenas com livros. A leitura lhe abriu a porta para a linguagem, e a linguagem, para a psicanálise. Entrou no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, fez análise e formação. Gostava de dizer, entre baforadas de cigarro, que “a psicanálise não foi feita para os bons modos”.

Fumava muito. Acendia um cigarro após o outro, como se cada tragada fosse necessário para sustentar a escuta. O consultório sempre tinha um cheiro forte, misturado ao couro gasto da poltrona e do divã e ao silêncio pesado dos pacientes. Suas interpretações, quando vinham, quase sempre eram palavrões.

Lembrava-se de uma sessão em que o paciente, homem na casa dos trinta e poucos, chegara choroso, reclamando da família, dos colegas de trabalho, de como todos o exploravam. Passivo, resignado, dizia que “não tinha forças para enfrentar nada”. Ela o escutou, soprando a fumaça para o teto. Quando ele se calou, ela disse, seca, sem qualquer gesto de ternura: — Quem se abaixa mostra o cu. Seu tempo acabou.

O homem ficou vermelho, gaguejou. Nunca mais reclamou do mesmo jeito.

Outro caso

Havia também a moça que sempre falava de homens violentos, relações abusivas. Dizia que “não conseguia evitar”. Eu acho que tenho o dedo podre, dizia ela para tentar explicar por que sempre escolhia péssimos parceiros. Ela ouviu em silêncio por meses, até que um dia, quando a paciente descreveu mais uma vez as agressões, disse:
— Você gosta de apanhar. Tem tesão nisso. Agora precisa descobrir o que vai fazer com essa verdade.

A paciente a odiou, faltou três sessões seguidas, mas voltou. Não porque concordava, mas porque aquela frase não saía de sua cabeça. O que fazer com a verdade?

 

Um terceiro fragmento

Um jovem analista em formação veio fazer supervisão. Ele apresentou um caso de histeria, cheio de termos técnicos, preocupado com “o manejo da transferência”. Ela o interrompeu:
— Você tá mais preocupado em parecer analista do que em escutar o que a menina fala. Vai estudar menos Lacan e ouvir mais os berros dela.

O rapaz enrubesceu, mas anotou.

Epílogo

Era assim. Direta, cortante, muitas vezes brutal. Mas havia, por trás do palavrão, uma aposta radical na verdade que emergia do inconsciente. Não fazia concessões, nem ao paciente, nem a si mesma.

Naquela noite em que encerrou seu último caso, fechou o consultório, acendeu mais um cigarro e murmurou para si:
— A análise é para quem aguenta ouvir a verdade que estava oculta, inconsciente. O resto é literatura barata.

E riu sozinha, como quem sabe que entre o livro, o divã e a vida, não há fronteira nítida — apenas a coragem de não se abaixar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O MISTÉRIO DOS RELÓGIOS: Um conto quase inglês.

 O Mistério dos Relógios

 

 

O Convite

A noite estava úmida em Londres, e a névoa subia do Tâmisa quando Agatha Christie recebeu o estranho telegrama.

"Convite irrecusável. Mansão Pembroke, Belgrave Square. Hoje à noite, 21h. Mistério garantido."

O mesmo telegrama chegou às mãos de Arthur Conan Doyle, que, curioso e intrigado, decidiu comparecer. Ambos, sem saber, caminhavam para um encontro improvável com suas próprias criações.

 

Os Personagens Ganhando Vida

Ao adentrar a mansão, Christie sentiu um arrepio. Na sala principal, ao lado da lareira, estava Hercule Poirot, de bigodes impecáveis, terno alinhado, uma figura saída diretamente de suas páginas.

E, para surpresa de Doyle, apoiado em sua bengala, estava Sherlock Holmes, fumando calmamente o cachimbo.

— Mon dieu! — exclamou Poirot. — Senhora Christie... parece que fomos arrancados de nossas próprias histórias.

Holmes lançou um olhar desconfiado:
— Elementarmente impossível. E, no entanto, aqui estamos.

 

O Crime

O anfitrião, lorde James William Pembroke, colecionador e bibliófilo excêntrico, surgiu para recepcioná-los. Ele temia ser assassinado, seus familiares achavam que ele estava ficando paranoico, ou com demência senil. Mas não chegou a anunciar o propósito daquela reunião. Pediu que o mordomo acomodasse os convidados no salão contiguo a biblioteca e se retirou com a promessa de que voltaria em trinta minutos. Antes das 21h30, um grito ecoou. A governanta, pálida, entrou correndo:

— Milorde está morto!

Todos correram para a sala da lareira. O corpo de Pembroke jazia estirado, os olhos fixos no vazio. Nenhum ferimento aparente. Ao redor, todos os relógios da mansão — de parede, de bolso, de mesa — marcavam a mesma hora: 21h17.

 

As Primeiras Pistas

Poirot se aproximou do cadáver.
— Nenhum sinal de luta. Um bilhete no bolso: “O tempo não pode ser controlado.”

Holmes examinava o carpete com sua lupa.
— Cinzas de tabaco turco. Não é inglês. E há pegadas de lama junto à janela. Botas largas, de sola gasta.

Christie, pensativa, comentou:
— Parece mais uma encenação do que um crime.

Doyle, fascinado, murmurava para si mesmo:
— É como se minhas palavras tivessem tomado carne...

 

O Duelo de Mentes

Holmes e Poirot não tardaram a divergir:

— O assassino é externo — decretou Holmes. — Um intruso entrou pela janela, deixou pegadas, matou e fugiu.

— Non, non, mon cher — rebateu Poirot. — O detalhe está no relógio de bolso do lorde. Ele não parou. Continua marcando 21h37. Portanto, a morte foi posterior à encenação. O culpado está entre nós.

Holmes estreitou os olhos:
— O senhor confia demais em pequenos caprichos.

— E o senhor, mon ami, não confia o suficiente no poder das pequenas coisas — replicou Poirot, ajeitando os bigodes.

 

O Motivo

Na biblioteca, encontraram um cofre. Dentro, papéis revelavam que Pembroke possuía manuscritos inéditos de Christie e Doyle, roubados há anos. Planejava leiloá-los secretamente.

— O escândalo seria enorme — murmurou Doyle.
— Motivo mais que suficiente para um crime — disse Agatha.

A Verdade

Holmes chamou todos à sala.
— Senhora Whitmore, sua calma a traiu. A lama em seus sapatos coincide com as pegadas que vi da janela.

A governanta empalideceu.
Poirot completou:
— Foi a senhora quem parou os relógios, quem encenou a cena filosófica do tempo. Mas esqueceu-se do mais importante: o relógio de bolso do próprio lorde, que não se deixaria manipular.

Whitmore chorou e confessou. Servira Pembroke por décadas. Ao descobrir os leilões, não suportou a traição e, num surto de revolta, envenenou o vinho dele. Os relógios foram sua maneira de criar um enigma insolúvel.

 Epílogo

Holmes acendeu outro cachimbo, satisfeito. Poirot ajeitou o terno com vaidade. Christie e Doyle se entreolharam, espantados: haviam visto seus personagens resolverem um crime juntos, como se a ficção tivesse ultrapassado o real.

Agatha, por fim, comentou:
— Talvez, Doyle, o verdadeiro mistério não seja o crime... mas quem realmente escreve a história: nós ou eles?

E a chuva continuava a cair sobre Londres, nessa estranha noite em Belgrave Square.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O PESO DOS DIAS

 

O Peso dos Dias

 

Que quantidade de bom gênio e humor é necessária para suportar esta horrível história de envelhecer”.

Sigmund Freud

 

Acordo sempre antes do sol. Já não preciso de despertador: é o corpo que me chama, com suas dores persistentes e seu cansaço intratável. O sono me abandona como uma mulher que já não encontra interesse. Levanto-me devagar, escutando o concerto de estalos vindos das articulações — parece que dentro de mim vive uma casa antiga, rangendo a cada movimento. É curioso: quando jovem, nunca pensei nos ossos. Eram invisíveis, discretos, sustentando-me sem que eu notasse. Agora, eles se impõem, lembrando-me a cada passo que o tempo não é uma abstração, mas um peso.

Tenho artrose nos joelhos, o quadril enrijecido, a lombar como um ferro enferrujado e duas hérnias de disco a pressionar o nervo ciático. O médico fala de colágeno, de cartilagem gasta, de paciência. Paciência... palavra bonita, mas que, aplicada ao corpo, significa apenas resignar-se a ser prisioneiro do próprio esqueleto.

Na juventude, meu corpo era um cúmplice, pronto para o trabalho, para as mulheres, para as noites sem fim. Hoje, é um inimigo lento, resistente, que me arrasta para um território desconhecido: o território da velhice. Outro dia assisti na tv a uma prova de natação e me lembrei de como gostava de piscinas, de mergulhar, de trampolim, até arriscava uns malfeitos “saltos-mortais”, se tentasse hoje meu salto certamente faria jus ao nome, um salto mortal, fatal mesmo.

A aposentadoria chegou como um presente envenenado. A promessa era de liberdade: tempo para ler os livros que nunca li, para caminhar sem pressa, para observar a vida. Mas descobri que o excesso de tempo é um espelho. E o que vejo refletido não é apenas um homem solitário, mas um homem que já não encontra lugar no mundo. O relógio corre, mas não me chama para nada. Sou uma peça fora da engrenagem.

No silêncio das manhãs, observo as pessoas na rua. Os jovens passam com seus passos firmes, como se o futuro fosse infinito. Não sabem ainda que o corpo é um contrato de prazo curto. Eu os vejo e sinto um desejo estranho — desejo de voltar a ter aquela pele tensa, aqueles músculos obedientes. Mas o desejo também se estende às mulheres que passam, tão novas, tão alheias a mim. Não é só desejo carnal, é também nostalgia: nelas vejo a juventude que já não me pertence. E, ao mesmo tempo, me sinto ridículo. Um velho desejando jovens. O corpo não acompanha, mas a mente insiste em sonhar. É cruel ainda querer, quando já não se pode. É a própria lógica do desejo, que só existe na falta.

Às vezes me pergunto: qual é a função do desejo na velhice? Talvez seja apenas uma confirmação de que estou vivo. Porque o dia em que eu não desejar mais — nem uma bela mulher, nem um gesto de carinho, nem sequer um olhar — será o dia em que já estarei morto, ainda que respirando.

A solidão, essa sim, é uma presença constante, mas não me aborrece. Aposentei-me do trabalho, mas também, de certo modo, da vida social. Amigos se foram, outros perderam o viço, alguns simplesmente se apagaram da memória. Fico na varanda, assistindo ao movimento da cidade. É como se eu estivesse numa plateia invisível, enquanto a peça continua sem mim.

Não me revolto. A revolta exige energia, e a energia, essa sim, é artigo escasso. O que resta é uma espécie de aceitação melancólica. Aprendi que envelhecer é carregar pedras nos bolsos: a cada ano mais pesadas, mas também familiares (lembrei de Virginia Woolf carregando pedras nos bolsos a caminho da morte). Passamos a andar mais devagar, mas também aprendemos a observar melhor a paisagem.

O corpo me limita, é verdade. Mas a mente... a mente ainda se expande. Penso na morte todos os dias, mas sem medo. É mais como se fosse uma visita que um dia chegará — não sei quando, mas sei que virá. O pensamento da morte me traz paradoxalmente um certo consolo. Porque se viver é esse esforço diário contra a decadência, morrer talvez seja apenas descansar.

Enquanto isso, vou encontrando beleza nos detalhes: o sol da tarde se pondo atrás dos prédios e iluminando as rugas da minha mão; o cheiro de café fresco, lembrando manhãs antigas; o riso distante de uma criança, lembrando que o mundo continua.

No fim, penso que envelhecer não é perder — é mudar de lugar. Quando jovem, eu era protagonista da história, na maioria das vezes. Agora, sou testemunha. Assisto, contemplo, reflito. Não é um papel menor. Talvez seja até mais profundo. E quando, à noite, deito o corpo cansado na cama, penso que cada dor é também uma lembrança: uma cicatriz do tempo, um capítulo vivido. O corpo falha, mas as memórias permanecem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

PÁTRIA AMADA?

 

Pátria Amada?

 

“A cadela do fascismo está sempre no cio”

 Bertoldt Brecht.

 

A sala onde se encontravam era apertada, mal iluminada, com cortinas grossas fechadas para que nenhum vizinho curioso espiando pudesse suspeitar. Um ventilador barulhento tentava empurrar o calor da noite, mas só espalhava o cheiro de mofo e café velho. A Bíblia aberta sobre a mesa parecia um estandarte sagrado que legitimava qualquer palavra que saía da boca dos quatro. As quatro bestas do Apocalipse brasileiro.

Adalberto, o mais exaltado, repetia como um mantra:
— O Brasil foi roubado. O povo de Deus não aceita ser governado por um ladrão.

Silvana, mulher de meia-idade, dona de um salão de beleza em declínio, abanava-se com a própria mão. Seu rosto vermelho pelo calor e pela raiva refletia a febre de sua crença.
— Os pastores já disseram: a vitória foi do inimigo. Mas o Senhor nos dá armas espirituais e também carnais, se for preciso.

Rogério, ex-policial militar, expulso da corporação por “excesso de violência” — como se fosse possível um excesso nesse ofício, pensava ele — mascava chiclete com a boca aberta.
— Democracia é invenção de comunista. Isso aqui precisa é de ordem. É só o povo tomar a frente que os generais entram. Eu conheço uns ainda fiéis. Estão esperando só um sinal.

Denise, a mais nova do grupo, trabalhava como auxiliar administrativa numa empresa de transportes. Carregava sempre o crucifixo de metal no pescoço, como se fosse prova de sua pureza. Falava pouco, mas quando falava deixava escapar o veneno:
— Esses gays, essas feministas, esses pretos folgados… O país virou bagunça. Se a gente não se levantar, eles tomam conta de tudo. A pátria não é deles.

O silêncio posterior à frase era carregado. A Bíblia, sobre a mesa, parecia respirar junto com eles. Adalberto foi o primeiro a quebrá-lo, batendo na madeira com o punho fechado.
— Vamos a Brasília. O Congresso é a casa do povo, não desses vagabundos. A gente entra, mostra força. E quando a confusão estourar, o Exército não vai ter escolha. Vão ter que assumir.

Rogério sorriu com um brilho fanático nos olhos.
— Já falei com uns caras. Gente de confiança. Vão levar bandeira, vão levar corda, vão levar o que precisar. Se tiver que quebrar vidro, a gente quebra.

— E a imprensa? — perguntou Silvana, inquieta. — Eles vão dizer que somos terroristas.

Denise riu de leve, quase infantil.
— A imprensa mente. Mas Deus vê a verdade. E a história vai contar do nosso lado.

Dois dias depois, embarcaram em uma van alugada. Levavam mochilas cheias de bandeiras verde-amarelas, garrafas de água, facas de cozinha, lanternas, alguns rojões e uma fé inabalável. Enquanto a estrada corria, Silvana puxava cânticos evangélicos, transformando o veículo em um culto itinerante. Os motoristas dos postos de gasolina onde pararam olhavam com estranheza aquele grupo que falava em “missão divina” e “purificação da pátria”.

Quando avistaram, ao longe, as cúpulas do Congresso Nacional brilhando sob o sol de domingo, sentiram uma espécie de êxtase. Era como chegar a Jerusalém. O ar parecia vibrar de antecipação.

— Hoje é o dia da libertação — murmurou Adalberto, quase em transe.

Milhares já estavam reunidos na Esplanada, vestidos com camisetas da seleção, carregando cartazes e cruzes improvisadas. O verde e amarelo se misturava ao cheiro de suor, milho cozido e gasolina. Alguns falavam em golpe, outros em oração. As vozes formavam uma massa dissonante de desespero e esperança.

Rogério, em meio à multidão, sentia-se de volta ao batalhão.
— É agora ou nunca! — gritou.

A barreira de policiais era frágil diante da fúria coletiva. Gritos de “Fora comunistas!” e “Intervenção já!” ecoavam como trovões. O grupo se lançou à frente, empurrando, quebrando, escalando as rampas do Congresso. Vidros se estilhaçavam, portas arrebentavam. Bandeiras eram fincadas sobre móveis destruídos como se fossem troféus.

Dentro, os quatro se separaram. Silvana ajoelhou-se no chão do plenário vazio, erguendo os braços para o teto e clamando em línguas estranhas. Denise rasgava papéis sobre uma mesa, como se eliminasse símbolos impuros. Adalberto berrava com voz rouca que “a pátria era de Deus e não dos ímpios”. Rogério, mais prático, chutava cadeiras e arrancava fios da parede, como se destruindo aquilo pudesse apagar a democracia.

Mas a euforia tinha gosto de fumaça. Logo bombas de gás lacrimogêneo começaram a explodir. O cheiro ardia nos olhos e queimava a garganta. O barulho de helicópteros zunia no céu. A polícia avançava com escudos e cassetetes.

O que era êxtase transformou-se em pânico. Correria, quedas, gritos. Silvana foi arrastada por soldados enquanto clamava “Glória a Deus!”. Rogério tentou resistir, mas levou uma coronhada que o fez cuspir sangue. Denise, em choque, repetia sem parar que “Deus estava no controle”. Adalberto, algemado, ainda bradava que “os generais viriam”, embora soubesse, no fundo, que não viriam.

Dias depois, nas celas superlotadas, os quatro se reencontraram brevemente. O fervor ainda existia, mas agora manchado pelo medo.

— Eles vão ver… — dizia Adalberto, a voz cansada. — Isso aqui não acaba assim.

Silvana chorava baixinho, pedindo perdão a Deus sem saber se por covardia ou por orgulho. Rogério mascava o ar, como se ainda tivesse o chiclete entre os dentes, olhando fixo para o nada. Denise apertava seu crucifixo até a mão sangrar.

Lá fora, a vida seguia. A democracia, ferida, tentava se recompor. A pátria, amada e odiada, sobrevivia apesar de seus filhos.

No fundo, sabiam: não seriam lembrados como heróis. Apenas como um espetáculo grotesco, uma cicatriz no rosto do país.