O Mistério dos Relógios
O Convite
A noite estava
úmida em Londres, e a névoa subia do Tâmisa quando Agatha Christie
recebeu o estranho telegrama.
"Convite
irrecusável. Mansão Pembroke, Belgrave Square. Hoje à noite, 21h. Mistério
garantido."
O mesmo
telegrama chegou às mãos de Arthur Conan Doyle, que, curioso e
intrigado, decidiu comparecer. Ambos, sem saber, caminhavam para um encontro
improvável com suas próprias criações.
Os
Personagens Ganhando Vida
Ao adentrar a
mansão, Christie sentiu um arrepio. Na sala principal, ao lado da lareira,
estava Hercule Poirot, de bigodes impecáveis, terno alinhado, uma figura
saída diretamente de suas páginas.
E, para surpresa
de Doyle, apoiado em sua bengala, estava Sherlock Holmes, fumando
calmamente o cachimbo.
— Mon dieu! — exclamou
Poirot. — Senhora Christie... parece que fomos arrancados de nossas próprias
histórias.
Holmes lançou um olhar desconfiado:
— Elementarmente impossível. E, no entanto, aqui estamos.
O Crime
O anfitrião, lorde
James William Pembroke, colecionador e bibliófilo excêntrico, surgiu para
recepcioná-los. Ele temia ser assassinado, seus familiares achavam que ele
estava ficando paranoico, ou com demência senil. Mas não chegou a anunciar o
propósito daquela reunião. Pediu que o mordomo acomodasse os convidados no
salão contiguo a biblioteca e se retirou com a promessa de que voltaria em
trinta minutos. Antes das 21h30, um grito ecoou. A governanta, pálida, entrou
correndo:
— Milorde
está morto!
Todos correram
para a sala da lareira. O corpo de Pembroke jazia estirado, os olhos fixos no
vazio. Nenhum ferimento aparente. Ao redor, todos os relógios da mansão — de
parede, de bolso, de mesa — marcavam a mesma hora: 21h17.
As Primeiras Pistas
Poirot se aproximou do cadáver.
— Nenhum sinal de luta. Um bilhete no bolso: “O tempo não pode ser
controlado.”
Holmes examinava o carpete com sua
lupa.
— Cinzas de tabaco turco. Não é inglês. E há pegadas de lama junto à janela.
Botas largas, de sola gasta.
Christie, pensativa, comentou:
— Parece mais uma encenação do que um crime.
Doyle, fascinado, murmurava para si
mesmo:
— É como se minhas palavras tivessem tomado carne...
O Duelo de
Mentes
Holmes e Poirot
não tardaram a divergir:
— O assassino é
externo — decretou Holmes. — Um intruso entrou pela janela, deixou pegadas,
matou e fugiu.
— Non, non, mon cher —
rebateu Poirot. — O detalhe está no relógio de bolso do lorde. Ele não parou.
Continua marcando 21h37. Portanto, a morte foi posterior à encenação. O
culpado está entre nós.
Holmes estreitou os olhos:
— O senhor confia demais em pequenos caprichos.
— E o senhor,
mon ami, não confia o suficiente no poder das pequenas coisas — replicou
Poirot, ajeitando os bigodes.
O Motivo
Na biblioteca,
encontraram um cofre. Dentro, papéis revelavam que Pembroke possuía manuscritos
inéditos de Christie e Doyle, roubados há anos. Planejava leiloá-los
secretamente.
— O escândalo seria enorme —
murmurou Doyle.
— Motivo mais que suficiente para um crime — disse Agatha.
A Verdade
Holmes chamou todos à sala.
— Senhora Whitmore, sua calma a traiu. A lama em seus sapatos coincide com as
pegadas que vi da janela.
A governanta empalideceu.
Poirot completou:
— Foi a senhora quem parou os relógios, quem encenou a cena filosófica do
tempo. Mas esqueceu-se do mais importante: o relógio de bolso do próprio lorde,
que não se deixaria manipular.
Whitmore chorou
e confessou. Servira Pembroke por décadas. Ao descobrir os leilões, não
suportou a traição e, num surto de revolta, envenenou o vinho dele. Os relógios
foram sua maneira de criar um enigma insolúvel.
Epílogo
Holmes acendeu outro cachimbo,
satisfeito. Poirot ajeitou o terno com vaidade. Christie e Doyle se
entreolharam, espantados: haviam visto seus personagens resolverem um crime
juntos, como se a ficção tivesse ultrapassado o real.
Agatha, por fim, comentou:
— Talvez, Doyle, o verdadeiro mistério não seja o crime... mas quem realmente
escreve a história: nós ou eles?



