terça-feira, 8 de março de 2011

Síndrome da Morte Súbita em bebês

Ontem, 7 de Março, segunda-feira de carnaval, fui acordado com a triste notícia de que o bebê de 3 meses, filha de um casal conhecido havia morrido.
A pequena Lívia que passara o domingo no play-ground do condomínio ao lado da mãe de seus dois irmãos pequenos, depois de ser colocada em seu berço não mais acordou.
O desespero da mãe ao ver que a filha não se movia comoveu a todos que presenciaram o triste acontecimento. O pai, inconformado, os avós, tios e amigos a se perguntar: porquê?
Os pais não devem sepultar seus filhos. A morte de crianças vem contrariar com um peso incomensurável essa assertiva que deveria ser verdadeira.
Infelizmente não é.
E a pergunta que todos nos fazemos - porquê - vai continuar sem resposta.
Com relação à SMS em lactentes ainda não se sabe as causas. Conhece-se as estatísticas (1 em 1000), sabe-se que o fenômeno é crescente no mundo todo, mas, não mais que isso.
Resta-nos pedir a Deus que fortaleça essa família, dando-lhes a força necessária para continuar sobrevivendo apesar da tragédia.
Para maiores esclarecimentos sobre a SMSL recomendamos o link abaixo:

http://br.guiainfantil.com/saude/204-morte-subita/386-morte-subita-dos-bebes.html

domingo, 27 de fevereiro de 2011

FELICIDADE

Certa vez Freud escreveu que aqueles que mais se aproximaram ao âmago das questões suscitadas pela alma humana, foram os Poetas... Que segundo o poeta Manoel de Barros "arejam as palavras" como as minhocas fazem com a terra. Nada mais verdadeiro, como se vê nessa bela "definição" de felicidade, nesse soneto do poeta Vicente de Carvalho:

FELICIDADE

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O SIGNIFICANTE - Roland Chemama

Significante, s. m. (alem.: Signifikant, fr.: significant; in. signifier). Elemento do discurso, referível tanto ao nível consciente como inconsciente, que representa e determina o sujeito.
Tornou-se evidente, a partir de S. Freud, que a psicanálise é uma experiência da palavra, o que exige um reexame do campo da linguagem e de seus elementos constitutivos, os significantes.

O tratamento das primeiras histéricas, conduzido por J. Breuer ou S. Freud, já destacava esse traço, a verbalização, sem dúvida, mais importante do que até mesmo a “tomada de consciência”. É por ter podido dizer aquilo que jamais havia conseguido enunciar que a histérica se cura. Foi uma delas, Anna O, quem chamou o tratamento de “Talking Cure”, ou seja, tratamento pela palavra. Isso é, aliás, esclarecedor para a própria etiologia da neurose: na histeria, o que é patogênico não é o trauma (por exemplo, ter visto um cão beber água em um copo, o que teria suscitado um intenso desagrado), é não ter conseguido verbalizar esse desagrado. No lugar da verbalização surgiu o sintoma, que irá desaparecer quando o sujeito conseguir dizer o que o estava afetando.

A evolução ulterior da psicanálise acentua ainda mais o papel da palavra e exige uma atenção mais precisa à linguagem.

Como o método psicanalítico leva em conta, de fato, mais a atualização dos conflitos latentes do que a rememoração direta de lembranças patogênicas, ele passa a se interessar, em particular pelas formações do inconsciente, nas quais esses conflitos são representados. Ora, estes são regulados por seqüências rigorosas de linguagem. Este é o caso do lapso, do esquecimento e, em geral, do ato falho, que consegue expressar um desejo, de forma alusiva, metafórica ou metonímica. É o caso também do chiste, que consegue dar a entender aquilo que é proibido, enganando, desse modo a censura. Finalmente, este também é o caso do sonho, cuja a narrativa se lê como um texto complexo, que exige uma atenção bastante precisa dos próprios termos que o compõem.

Coube a Lacan sistematizar toda essa problemática, recentrando-a sobre o conceito de significante.

O termo significante foi tirado da lingüística. Em Saussure, o signo lingüístico é uma entidade psíquica de duas faces: por exemplo, o significado ou conceito da palavra árvore é a idéia de árvore e não o referencial, a árvore real, e o significante, igualmente realidade psíquica, pois se trata não do som material que se produz quando se pronuncia a palavra árvore, mas da imagem acústica desse som, que se pode ter na cabeça quando, por exemplo, declama-se uma poesia sem pronunciá-la em voz alta.

A AUTONOMIA DO SIGNIFICANTE

Lacan retoma, transformando-o, o conceito saussureano do significante.

Em primeiro lugar, o que a psicanálise enfatiza é a autonomia do significante. Como na lingüística, no sentido analítico o significante é separado do referencial, mas é igualmente definível além de qualquer relação com o significado, pelo menos em um primeiro momento. O jogo sobre os fonemas, cujo valor é totalmente essencial nas crianças, demonstra a importância que a linguagem possui para o ser humano, antes de qualquer intenção de significar. Por outro lado, a psicose é uma outra ocasião para se apreender, de uma forma direta, o que seria um significante sem significação, um significante assemântico. A frase que o psicótico escuta, em sua alucinação, visa a ele, refere-se a ele, impõe-se a ele. Mas, por não poder ser relacionada com uma outra, de fato, não possui uma verdadeira significação.

Entretanto, além dessas referências particulares à infância ou à psicose, é para todo sujeito que se deve acentuar a distinção entre significante e significado.

O que o algoritmo lacaniano

S ( Significante)

s significado

permite escrever, é a existência de uma barra que afeta o sujeito humano, em virtude da existência da linguagem, e que faz com que, falando, ele não saiba o que está dizendo.

Assim, em Freud, o Homem dos ratos foi subitamente tomado pelo impulso de emagrecer. Porém, esse impulso continua incompreensível, enquanto não for revelado que a palavra “gordo”, na língua que estava então falando, o alemão, diz-se “dick”, sendo também Dick o nome de um rival, de quem gostaria de se desfazer. Emagrecer seria matar o rival, Dick. Pode-se ver o alcance desse tipo de observação. No limite, a própria possibilidade do inconsciente é condicionada pelo fato de que um significante pode insistir no discurso de um sujeito, sem por isso está associado à significação que poderia importar, para ele. “A linguagem é a condição do inconsciente.”

Da mesma forma, o sintoma, que diz alguma coisa de maneira indireta, inaudível, pode ser considerado como o significante de um significado inacessível para o sujeito.

A CADEIA SIGNIFICANTE

Se o significante for concebido como autônomo em relação à significação, ele irá, portanto, assumir uma função completamente diferente da de significar: a de representar o sujeito e também a de determiná-lo.

Tomemos um exemplo simples. Um homossexual confessa espontaneamente sua preferência por jovens de um certo estilo, de uma certa idade, que, para ele, seriam mais bem descritos pela expressão “les p’tits soldats” (os pequenos soldados). Ora, a imagem levaria à lembrança de uma grande harmonia com sua mãe, lembrança essa cristalizada em torno da recordação das tardes de verão, nas quais, após longos passeios, ela o levava ao café e pedia> “ah, poru lui, um p’tit soda” (ah, para ele uma soda pequena). Evidentemente, esse tipo de lembrança não implica que, de acordo com a psicanálise, tudo na vida seja esclarecido pela recordação de algumas palavras escutadas na infância. Porém, isso ajuda a caracterizar, no sujeito humano, a função do significante. A forma como esse homem nomeia o objeto do seu desejo, e, portanto, determina seus traços, nada mais faz do que remetê-lo a um significante ouvido na infância, que tanto mais irá insistir quanto menos for reconhecido como tal. Segundo a fórmula de Lacan, “um significante é aquilo que representa o sujeito para um outro significante”. No caso, também se deve observar que o que conta, no “soldado”, não é sua significação, em relação, por exemplo, à vida militar, mas sua significância, isto é, aquilo que é produzido diretamente pela própria imagem acústica da palavra.

Por outro lado, já se havia constatado, pelo exemplo relacionado com Dick, o lugar do jogo de palavras na função do significante. Esse lugar é dado pelo fato de que aquilo que representa, não é a palavra, mas precisamente o significante, isto é, uma seqüência acústica que pode assumir diferentes sentidos. A obra de Freud fornece em profusão os mais diversos exemplos. Como o caso da histérica, tratada nos primeiros tempos da psicanálise, que sofria de uma dor em verruma na fronte, dor que desapareceu no dia em que ela conseguiu lembrar-se de sua avó, muito desconfiada, que a olhava com um olhar “penetrante”. Neste caso as coisas continuariam sendo incompreensíveis, se não tivesse havido a referência ao duplo sentido da palavra “penetrante”, o sentido “literal” e o sentido do “figurado”.

Além disso, é fácil conceber que tais significantes, que se associam e se repetem sem qualquer controle do eu, que se ordenam em cadeias determinadas com rigor, da mesma forma como a gramática determina a ordem da frase, revelam-se, ao mesmo tempo, totalmente constrangedores para o sujeito humano. No caso, a questão do significante remete à da repetição: retorno regular de expressões, de seqüências fonéticas, de simples letras que escondem a vida do sujeito, prontas a mudar de sentido a cada vez que ocorrem, que insistem sem qualquer significação definida.

Um dos exemplos mais conhecidos a esse respeito, continua sendo o Homem dos lobos. Freud, e, mais tarde, vários analistas, que retomara a narrativa de seu tratamento, destacaram a insistência de um mesmo símbolo, representado pela letra (V maiúsculo) ou um algarismo (cinco romano). Sob esta última forma, ele remete às crises depressivas ou febris que tivera em sua infância, na quinta hora da tarde, hora também de uma cena primitiva (teria visto seus pais fazerem amor no momento em que os ponteiros do relógio estariam apontando para o V). Sob forma de letra (V ou W), retorna regularmente, nas inicial de nomes próprios de diversos personagens com os quais estivera freqüentemente em conflito; ou então simboliza a castração, em um sonho no qual são arrancadas as assas de uma vespa (Wespe, mas ele diz “espe”, o ainda S. P., suas iniciais). Finalmente, em sua forma gráfica, o V invertido representa as orelhas erguidas dos lobos, que passaram a designar para a posteridade esse célebre paciente de Freud.

ALCANCES E LIMITES DAS REFERÊNCIAS À LINGÜÍSTICA

O termo significante é considerado essencial para a elaboração psicanalítica. Portanto, pode-se indagar que traços conserva com sua origem lingüística.

As referências, explícitas ou implícitas, continuam sendo numerosas em Lacan. Elas se referem principalmente à dimensão estrutural de linguagem, introduzida por Saussure; mas sem dúvida vão muito além. Seria conveniente observar que, em especial na época em que a lingüística pragmática passou a ocupar um lugar não negligenciável entre as ciências humanas, a concepção lacaniana do significante considera, desde o início, a dimensão de ato existente na linguagem. O significante não é apenas um efeito de sentido. Ele comanda ou pacifica, adormece ou desperta.

Talvez fosse ainda mais importante do que a referência à lingüística, a referência que podemos fazer à poética. Como o poeta, o analista está atento às diversas conotações do significante, que ampliam as possibilidade da interpretação.

Afinal de contas, seria ainda o significante assimilável à imagem acústica? Em todo caso, para Lacan, não é esta sua definição. Evidentemente, enquanto oposto à significação, o significante é identificado, na maioria das vezes, como uma seqüência fonemática. Porém, também pode ser às vezes, completamente diferente. Assim, Lacan o faz surgir como significante, na primeira censa de Athalie, “o temor a Deus”. Essa expressão não deve ser tomada no nível da significação, ao menos aparente, pois “aquilo que se chama temor a Deus [...] é o contrário de um temor”. Porém, se ela for designada como significante, o é antes de mais nada porque, mais do que os outros termos, possui um efeito sobre a significação e sobre um dos personagens da peça, Abner, que ela comanda e traz consigo. Esse último exemplo marca muito bem como é que, a partir de seu efeito de sentido, e sobretudo do papel que eles representam em uma economia subjetiva, os elementos dos discurso podem assumir o valor de significantes.

CHEMAMA, Roland. Dicionário de psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1995. p. 197-9.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Profetas contemporâneos: desafios para a missão de um pastor.

Waldir Martins

A tarefa de ser pastor nunca foi fácil de ser desenvolvida, inclusive se considerarmos a percepção negativa que muitos têm a nosso respeito. Particularmente, vivo às “turras” com a missão que recebi. Desenvolvo-a de forma visceral há mais de 15 anos, mas não há um dia que em que eu não tenha sérios questionamentos quanto a essa missão.

O ministério pastoral é e deve ser compreendido como um chamado divino. Talvez por essa razão, suas funções, a despeito de bem humanas, têm alcance inimaginável. Nós não temos a noção exata do impacto das nossas palavras na vida das pessoas que nos ouvem com as mais diversas expectativas e necessidades. Por mais que queiramos dessacralizar a nossa atuação, e o nosso discurso, para muitos, ouvir um pastor, um padre ou outra liderança religiosa é muito diferente de ouvir um professor, um sociólogo ou um filósofo, por exemplo.

Ainda assim, convivemos com um imaginário multifacetado sobre a figura do pastor. Provavelmente, se perguntarmos para diferentes pessoas ou grupos, cada um deles deverá manifestar uma visão diversa sobre o papel de um pastor. Mas, a despeito desse olhar geral da sociedade, penso que cada pastor deve ter a sua própria percepção da missão que recebeu do Senhor, para não capitular diante de tantos olhares divergentes sobre a sua própria figura. E aqui vão alguns deles: um mercenário, que vive para explorar o dinheiro e a boa fé das pessoas. Ou um vendedor de ilusões, um charlatão que faz pouco caso da fé das pessoas. Ou, ainda, alguém que vive regaladamente, um aproveitador da miséria dos outros, vivendo um padrão de vida sempre superior ao dos seus fiéis.

Aqui pagamos o preço da generalização do tipo de “evangélico” que predomina no Brasil, o que contribui para a consolidação daqueles estereótipos de um pastor. Isso porque, lamentavelmente, muitas igrejas existem e têm como estratégia de crescimento a dilapidação do patrimônio das pessoas – para muitos, “o dinheiro da igreja vai mesmo para o bolso do pastor”.

Além dessas percepções, acrescento o olhar da própria igreja, nem sempre muito generoso. O pastor pode ser o “Anjo da igreja”, sempre amoroso, paciente, comedido nas suas palavras. Pode ainda ser o pregador, administrador, visitador, enfim, alguém com aptidão para qualquer demanda que seja. Ele pode ser até um “Super – homem” que nunca fica triste, está sempre pronto para o que der e vier, com um sorriso nos lábios, de preferência.

Sem querer generalizar, a igreja tende a olhar o seu pastor para além da sua humanidade. Às vezes, esquece-se que ali, por trás daquele sujeito aparentemente imbatível, há alguém que precisa de solidariedade, de compreensão. Alguém tão “gente” quanto qualquer outra pessoa. Às vezes até um “meninão” em alguns aspectos da vida. Mas o grande problema não é a igreja olhá-lo dessa forma, mas ele aceitar ser o “anjo” da igreja, ser o “super-homem” e subir nesse pedestal...

O olhar do pastor sobre si mesmo também precisa ser aqui considerado: pode torná-lo intolerante, muito exigente consigo e com os seus familiares, com extrema dificuldade de dizer não e de assumir seus limites e seus pecados. E é uma grande tarefa nos livrarmos desses olhares denunciantes de nós para nós mesmos, sem querer responder de uma forma ou de outra, o que dificulta percebermos em que realmente consiste a missão do pastor nos dias de hoje.

Quando lembro da imagem do Senhor Jesus conversando com Pedro, questionando-lhe sobre o seu amor e mandando-o pastorear a suas ovelhas, ( João 21:17ss), me vem à mente a imagem do pastor como aquele que cuida do seu rebanho, entendendo aqui o cuidado como a imersão na alma da sua comunidade. Gosto de lembrar o Rubem Alves dizendo que não precisamos convencer as pessoas com as nossas verdades, mas seduzí-las. Ele dizia: primeiro ganhe o coração das pessoas depois a razão aparece... As pessoas vão gostar de você antes de concordar com as suas idéias. Ninguém resiste, num momento de dor, à simbólica presença do pastor num hospital ou numa visita domiciliar. A sensação é a de que todas as divergências vão por água abaixo quando o pastor é pastor para alguém que precisa de um pastor. Embora seja certo que, às vezes, a burocracia de uma igreja rouba do pastor a oportunidade de exercer a essência da sua missão, que é o cuidado com as pessoas.

Além disso, o pastor deve ser alguém devidamente sintonizado com o seu tempo, deve praticar a leitura da realidade que o cerca. Não acho que ele deva dominar todas as novas tecnologias, mas ter a capacidade de entender os valores que dominam os seus dias; deve saber da importância da política, e da importância política do seu papel; deve entender como as forças do capital dominam e escravizam milhares e milhares de vidas que não têm voz e nem quem fale por elas; deve assumir que o poder político em mãos inescrupulosas precisa ser denunciado, mas não deve jamais permitir que seu ministério seja utilizado nem pela direita nem pela esquerda sob quaisquer pretextos. O pastor deve entender-se como o homem ou a mulher de Deus vivendo hoje com a responsabilidade de pastorear um rebanho e, dentro das suas limitações, ajudar a livrá-los dos lobos ferozes que se apresentam em peles de cordeiro.

Entendo também que o pastor deve prosseguir na busca pela identificação com as pessoas, e não ser apenas um intelectual, alguém que fala bonito sobre os pobres ou sobre a pobreza, mas que tenha identidade com eles. E se você conhece pastores que lucram para se manterem em silêncio diante de injustiças, saiba que temos exemplos daqueles com coragem profética, que não mediram esforços para serem fiéis testemunhas, mártires em nome do evangelho da justiça.

Trago à memória dois pastores, em particular: o luterano Dietrich Bonhoeffer, que em nome do seu compromisso radical com o Senhor Jesus e o amor ao seu povo, enfrenta o regime de Hitler, é preso e enforcado pouco tempo antes da vitória dos aliados. Outro exemplo é o do bispo Oscar Romero, de El Salvador, assassinado como represália à sua atuação profética em favor do povo salvadorenho.

Mas aproveito a ocasião para trazer algumas palavras daquele que ficou conhecido como o “profeta do Araguaia” e também primoroso poeta, D. Pedro Casaldáliga. Bispo em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, por 35 anos, ali desenvolveu seu ministério, profundamente comprometido com a causa dos pobres, dos indígenas, dos posseiros, dos peões, mantendo sua igreja humilde, simples, aberta e acolhedora.

Ao realizar uma palestra na Universidade Católica de Goiânia, falando sobre o profetismo na igreja, ele afirmou que: “profeta é aquele que tem a acuidade necessária para ver e para ouvir a Deus; para ver e ouvir os homens. Para interpretá-los: os homens e a Deus. O profeta é um inconformado com a situação de pecado e de injustiça que aí está. É um inseguro e sente medo, porque sabe o quanto arrisca. É um radical, porque vê o “novo” de Deus e conclama à novidade de Deus. Sua palavra – como o dabar bíblico – não é somente palavra dita; é atitude, gesto, prática. Palavra que não se cumpre não é palavra de Deus.”

Em outra ocasião, numa entrevista quando da sua renúncia ao bispado por completar 75 anos, o repórter lhe pergunta: “Depois de 35 anos na região, o senhor é feliz?”. D. Pedro responde: “Eu tenho paz. Aquela paz do Evangelho. Uma paz diferente. Agora eu vivo com amargura da impotência frente a esse mundo injusto, frente à prepotência dos grandes, seja dos impérios, seja das oligarquias. Essa situação de fome, de violência e guerra preventiva que acabam de inventar. Estava lendo agora uma mensagem de um companheiro, que é diretor de Justiça e Paz da nossa congregação. E ele se pergunta se pode celebrar o Natal. É evidente que sim, mas celebrar com uma espécie de revolta evangélica, frente a tanta iniquidade. Agora, estou feliz porque tenho esperança. Perguntou-me uma revista: "Você é alegre?". Respondi, recordando um verso de Cecília Meireles: "Não sou alegre nem sou triste: sou poeta!". Mas, eu concluí dizendo que a minha alegria se chama esperança. Às vezes, como dizia São Paulo, uma esperança contra toda a esperança, mas se é esperança, não falha”.

Enfim, por mais humana que seja a nossa tarefa, há um quê de divino naquilo que fazemos. No exercício do ministério pastoral passamos a ter algumas permissões para entrar em domínios na vida das pessoas, que não são permitidos a outros profissionais. Passamos a ter acesso a informações ou confissões que nem mesmo o psicólogo ou o psiquiatra da pessoa terão.. Daí a responsabilidade que paira sobre nós, reles mortais com a missão de pastorear.

Se posso recomendar algo a um colega pastor, eu diria que desenvolva a sensibilidade no trato com as pessoas; estabeleça o diálogo com a comunidade e tenha como propósitos da vida servir a Deus servindo as pessoas, e servir as pessoas servindo a Deus.

Talvez, no final das contas, o que todos nós precisamos é ouvir do Senhor as palavras que Jesus ouviu quando do seu batismo e início do ministério: “Este é o meu filho amado, em que me comprazo” (Mateus 3:17). Penso que, com isso, todos os demais olhares da sociedade, da igreja, além do seu próprio olhar serão relativizados pelo simples olhar do Senhor que diz: “Tu és o meu filho amado”.

Notas:

[1] Esta Reflexão foi apresentada no culto de posse do Pr. Moisés Alves, na Igreja Batista Nazareth, em 26/12/10.
[2] A entrevista concedida por D. Pedro Casaldáliga está disponível em: http://www.pime.org.br/mundoemissao/testemunhosbispo.htm.

Referências:

Aguirre. Pe. Luis Pérez. Homilia no segundo aniversário do martírio de D. Oscar Romero. In: Sinais de vida e fidelidade. Testemunhos da Igreja na américa Latina (1978 - 1982). São Paulo: Edições Paulinas: 1986.
Bonhoeffer, Dietrich. Tentação. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1983.
Casaldáliga, Pedro. Na procura do Reino: antologia de textos, 1968-1988. São Paulo: Editora FTD, 1988.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

CHARLES BUKOWSKY

A Love Poem


todas as mulheres

todos os beijos as

diferentes formas que amam e

falam e carecem.

suas orelhas todas elas têm

orelhas e

gargantas e vestidos

e sapatos e

automóveis e ex-

maridos.

na maioria das vezes

as mulheres são muito

quentes elas me lembram

torrada com a manteiga

derretida

nela.

está estampado no

olhar: elas foram

tomadas elas foram

enganadas. eu nunca sei o que

fazer por

elas.

sou

um bom cozinheiro um bom

ouvinte

mas nunca aprendi a

dançar — eu estava ocupado

com coisas maiores.

mas eu apreciei suas variadas

camas

fumando cigarros

olhando para o

teto. não fui nocivo nem

desleal. apenas

um aprendiz.

eu sei que todas têm

pés e descalças elas andam pelo piso enquanto

eu olho suas modestas bundas no

escuro. sei que gostam de mim, algumas até

me amam

mas eu amo muito

poucas.

algumas me dão laranjas e vitaminas;

outras falam mansamente da

infância e pais e

paisagens; algumas são quase

loucas mas nenhuma delas deixa de fazer

sentido; algumas amam

bem, outras nem

tanto; as melhores no sexo nem sempre são as

melhores em outras

coisas; cada uma tem seus limites como eu tenho

limites e nós aprendemos

cada qual

rapidamente.

todas as mulheres todas as

mulheres todos os

quartos

os tapetes as

fotos as

cortinas, é

algo como uma igreja

raramente se ouve

uma risada.

essas orelhas esses

braços esses

cotovelos esses olhos

olhando, o afeto

e a carência eu tenho

agüentado eu tenho

agüentado.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MARCOS DE FARIAS COSTA

Nasceu em Maceió, é poeta, compositor e psicólogo (apesar de nunca ter exercido a carreira, preferindo optar pela poesia). Fez cursos de tradução e língua alemã. Obra poética: O amador de sonhos (1982), Ócios do ofício (1984), A quadratura do círculo (1991), A comédia de Eros (1997).

A COMÉDIA DE EROS
(poemas galantes)
(Maceió: Edição do Autor, 1997)


JARAGUÁ

Ouvia Jurame,
a caminho da zona;
punham pedra-ume
pra vedar a cona.

Juventude perdida
toda sem firmeza,
por delicadeza
eu perdi a vida.

Em Jaraguá,
bairro das perdidas
fiz amor no mar
por trezentas vidas.

Nos puteiros
e prostíbulos
torrei dinheiro
e testículos.

Pobre juventude
toda arrependida:
gorda cornitude
magra Margarida.


PSIU! ELA ESTÁ GOZANDO

Seu corpo se crispa
seus olhos se nublam
perde o comando:
ela está gozando.

Seus pés se retorcem
seu ventre impa
tem o roso pando:
ela está gozando.

Sua carne arde
sua boca queima
sua voz sem mando:
ela está gozando.

Seus seios suam
suas mãos explodem
o ser em desmando:
ela está gozando.

Súbito, a paz
ilumina o mundo:
ela se refaz
                                                do gozo profundo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Complexo do Alemão!

Depois de tantas reportagens sobre a ação da polícia no conglomerado de favelas cariocas conhecido como "Complexo do Alemão", lembrei-me do velho Analista de Bagé, criação imortal de Veríssimo, que tinha um jeito peculiar - mais grosso que parede de igreja católica - de atender seus pacientes e discorrer sobre a psicanálise. Esse renomado psicanalista gaúcho talvez se referisse assim à essas reportagens: " Bah guri! Para mim, complexo do alemão é aquela sacanagem de filho querer comer a mãe... Barbaridade, tchê! Como esse pessoal da imprensa modifica as coisas tchê!
Mas, complexos à parte, é impressionante constatar o impacto que tais reportagens tiveram sobre a vida das crianças dos outros estados brasileiros. A típica brincadeira de polícia-e-ladrão ganhou entre nossas crianças um cenário mais amplo: meu filho de 7 anos contou-me que durante a brincadeira, o objetivo dos "policiais mirins" era justamente invadir o morro do alemão (salão de festas do condomínio) onde os "bandidos mirins" estavam escondidos com armas poderosíssimas, inclusive armas para derrubar os helicópteros e tanques utilizados na busca. (!)
Crianças de Maceió reinventando a história dos morros cariocas, e que, sem saber, apontam realmente para o Complexo do Alemão - o do Rio de Janeiro e o descrito pelo quase-alemão (a Áustria fazia parte do grande Império Alemão) Sigmund Freud: derrotar o Pai e viver sem limites e sem Lei.