sábado, 3 de janeiro de 2009

Eclesiastes

Capítulo 1


1 Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém: 2 Vaidade de vaidades! -diz o pregador, vaidade de vaidades! É tudo vaidade. 3 Que vantagem tem o homem de todo o seu trabalho, que ele faz debaixo do sol? 4 Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. 5 E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, de onde nasceu. 6 O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento e volta fazendo os seus circuitos. 7 Todos os ribeiros vão para o mar, e, contudo, o mar não se enche; para o lugar para onde os ribeiros vão, para aí tornam eles a ir. 8 Todas essas coisas se cansam tanto, que ninguém o pode declarar; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir. 9 O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol. 10 Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós. 11 Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, nos que hão de vir depois. 12 Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém. 13 E apliquei o meu coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; essa enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nela os exercitar. 14 Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito. 15 Aquilo que é torto não se pode endireitar; aquilo que falta não pode ser calculado. 16 Falei eu com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim, em Jerusalém; na verdade, o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e a ciência. 17 E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras e vim a saber que também isso era aflição de espírito. 18 Porque, na muita sabedoria, há muito enfado; e o que aumenta em ciência aumenta em trabalho.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Jorge Luis Borges

Uma oração

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.
Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.


O poema acima foi extraído do livro "Elogio da Sombra", Editora Globo - Porto Alegre, 2001, pág. 75 (tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques; revisão da tradução: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz).

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Alfred Benjamin

"Para mim, a entrevista é um diálogo entre duas pessoas, diálogo que é sério e tem um propósito. A questão fundamental para o entrevistador deve ser sempre a seguinte: qual será o melhor modo de ajudar a pessoa?"

"Minha experiência me ensina que a maior parte dos entrevistadores principiantes considera difícil suportar o silêncio. Eles parecem julgar que, se há um silêncio, a culpa é deles, e o lapso deve ser corrigido imediatamente e a qualquer preço".
Recomendo sempre esse livro para todas as pessoas que vão trabalhar com gente. Não é um manual de receitas ou de técnicas, é antes, um relato da experiência do autor em seus contatos com pessoas que buscavam ajuda diante do sofrimento.

sábado, 15 de novembro de 2008

Fé cristã e a responsabilidade com o uso honesto dos dízimos.

Neste artigo (dividido em três partes), Antônio Fernandes Dantas expõe questões relevantes acerca da fé cristã. Encontramos uma descrição detalhada sobre os diversos grupos de igrejas cristãs (Católica Romana, Católica Ortodoxa, Protestantes Tradicionais, Protestantes Pentecostais, Neopentecostalismo etc) suas principais características e doutrinas. Na terceira parte, o autor ensina como identificar as chamadas "igrejas arrecadadoras", aquelas que visam tão somente o lucro esquecendo do principal: a pregação do Evangelho. Ele também descreve algumas práticas que podem servir de pista para a identificação de igrejas descomprometidas com a Palavra de Deus, tais como as "famosas campanhas", cujo principal objetivo é arrecadar fundos para deleite próprio, usando o dinheiro dos dízimos e ofertas para finalidades outras, que não visam a expansão do Reino de Deus. Vale à pena conferir.
Para ler o artigo clique no link abaixo e digite o título no buscador do site:
http://recantodasletras.uol.com.br/publicacoes.php

domingo, 9 de novembro de 2008

O corpo: sedução e histeria.



RESUMO

Este artigo analisa sucintamente o papel da sedução enquanto fenômeno chave na sintomatologia da histeria e suas implicações na construção e desenvolvimento do corpo, erotizado pela linguagem e lugar do desejo.

Palavras-chave: Corpo. Histeria. Sedução. Psicanálise. Transferência.

 


 

Na pré-história da psicanálise – ente 1895 e 1897 – quando Freud descobriu a etiologia sexual das neuroses e suas raízes na infância, promoveu como evento traumático uma sedução sexual sofrida pelo sujeito em tenra idade. Teoria da sedução sexual precoce, que algum tempo depois viria a ser refutada pelo próprio Freud, quando depois de alguns anos de exaustiva escuta, descobre com certa admiração, que suas histéricas mentiam, conforme escreveu a Fliess na carta de 21 de setembro de 1897. No entanto, em sua mentira elas revelavam uma verdade até então oculta; pois, em suas fantasias, a sedução viria a desempenhar um importante papel, por estar apoiada nos prazeres sentidos em seu corpo quando dos primeiros cuidados corporais.

A sedução é o primeiro acontecimento. Faz parte daquilo que é descrito pela psicanálise como “experiência de satisfação”. Experiência mítica do reencontro da unidade perdida da vida intra-uterina, marcada pela ausência de tensões corporais. Essa experiência de prazer marca de forma definitiva o sujeito, e está na base daquilo que mais tarde Lacan chamaria de “objeto a”, objeto causa do desejo no qual a criança se converteria após um corpo-a-corpo doentio com o outro sedutor.

Antes de prosseguirmos investigando os aspectos estruturais e psicopatológicos da sedução, vamos pontuar algumas questões que nos parecem relevantes: em primeiro lugar, o que levou Freud a corrigir tão incisivamente a teoria da sedução, apesar de tantas evidências (dezoito casos)? Em segundo lugar, por que três meses após a “correção” ele escreveu a Fliess sobre o aumento de sua confiança na “etiologia paterna” referindo-se à teoria da sedução? Podemos citar também a presença da sedução durante o tratamento, que fez com que  Breuer – seduzido pelos encantos juvenis de Anna O. – abandonasse o tratamento da histeria e deixasse “cair a chave” que abriria a porta do mistério do fenômeno histérico. Freud apanha a chave e a despeito dos obstáculos externos e resistências internas adentra nesse quarto escuro, lançando uma luz sem, no entanto, clarear tudo.

A morte de seu pai em 1896, entre outros fatores, fez com que ele se desfizesse da teoria da sedução, sem rejeitar sua importância na etiologia de algumas neuroses. Mas havia ainda alguma coisa, que malgrado todas as evidências – a sedução operada por babás, governantas e pelos pais – levava Freud a afirmar que cometera um grande erro, “um erro que repetidamente reconheci e desde então corrigi”, como foi ressaltado por Peter Gay (1987, p.102). Havia Monika Zajc, sua babá que o iniciou no onanismo, e, de acordo com This (1987, p.67), fê-lo retirar a sílaba “mo” de seu prenome Sigismond, “portador das letras proibidas”. Tentativa de afastar o fantasma da sedução que retornaria anos depois sob a pena de Sandor Ferenczi.

Ainda de acordo com a teorização de This, havia uma outra razão para desejar livrar-se dessa incômoda teoria: Mathilde, sua filha, com quem “tivera sonhos eróticos e uma ternura que ia além do ‘permitido’ entre um pai e uma filha”. Enfim, abandonar a teoria da sedução tinha lá suas vantagens: Monika e Mathilde recalcadas, e, seu pai “reabilitado”. Sigmund Freud poderia ter terminado sua pesquisa por aí, no entanto, a coragem do desbravador falou mais alto: a sedução poderia não ser a pedra angular da etiologia das neuroses, porém, é impensável construir uma teoria das neuroses sem levá-la em conta.

O papel desempenhado pela sedução nas manifestações clínicas e comportamentais da histeria é o objetivo de nossa investigação, bem como, o de situar o corpo como lugar privilegiado em que se desenrola a cena desiderativa: corpo seduzido-corpo sedutor. Para empreender tal tarefa, recorremos aos postulados de Freud e Lacan no que concerne ao complexo de Édipo e de castração, para situar o corpo como arma de sedução e seu percurso de seduzido a sedutor. E, será a partir da histeria que examinaremos essas questões, até porque as questões colocadas pela estrutura histérica implicam esse corpo.

De início convém relembrarmos a história dos primeiros cuidados prestados pela mãe ao bebê, cujo teor erótico é pouco lembrado, mas que exercem uma profunda e duradoura influência sobre o psiquismo, conferindo à sexualidade seu caráter essencialmente perverso, marcando o desejo e a forma de satisfazê-lo. E tudo começa com a sedução da criança pelo outro; esse outro que após um período depressivo causado entre outras coisas pela perda de completude ocasionada pelo parto e pelas fantasias associadas a ele, fica agora, como que fascinada pela sua cria, e, engaja-se a partir de então em um corpo-a-corpo que se estende por alguns anos, cujo efeito imediato é a erotização do corpo da criança. Corpo que mesmo antes da concepção já fora objeto das fantasias maternas: “espero que nasça perfeito”, “não sei como reagiria se meu filho nascesse defeituoso ou anormal”, “eu quero que ele tenha os olhos de meu pai, a boca de meu marido e o nariz de minha mãe”; e após o nascimento será marcado pelas palavras e ações da mãe através do contato corporal.

A criança surge assim, para obturar essa falta no outro: fazer de sua mãe uma mulher completa, cheia, plena, ou como destaca André (1994, p.192), “a criança ocupa primeiramente a posição daquilo que vem arrolhar a falta que causa o desejo”. A relação entre a mãe e essa criança imaginária só vem a ser perturbada quando surge a criança real, que acorda na madrugada, chora, se suja e adoece. O choque da realidade causa confusão em muitas mães, levando-as a perceber a criança como algo estranho e assustador, questionando-se se será uma boa mãe – já que a criança real não é a mesma de sua fantasia. Porém, o fascínio resiste devido às implicações narcísicas, e a criança é então promovida à categoria de objeto causa do desejo – “objeto a” na elaboração lacaniana.

Ocupando essa posição em relação à mãe, resta à criança transformar-se naquilo que ela supõe ser o objeto de desejo desta, aquilo que a faria completa, e este objeto é precisamente o falo. Isto é o primeiro tempo do complexo de Édipo em que a criança real busca fazer-se criança imaginária (falo). No segundo momento, a interdição paterna priva a criança desse outro, impedindo a satisfação dos impulsos, dessa forma, frustra-a e é promovido à categoria daquele que supostamente detém o atributo fálico. Assim, chega-se ao terceiro momento do complexo de Édipo em uma leitura lacaniana, em que a criança – menino e menina – é submetida ao jogo das identificações o que marca o fim desse complexo. O menino desiste de ser falo de sua mãe – para salvar seu pênis – e identificando-se com seu pai, engaja-se numa dialética de ter o falo. Com a menina a história toma rumos diferentes: é a partir do complexo de castração que ela é introduzida no complexo de Édipo positivo. A percepção da vagina como não-sexo, como lugar da ausência, como atestado de uma castração, leva a menina a abandonar cheia de ódio e ressentimento esse amor castrado (a mãe) e dirigir-se para o pai na esperança de receber dele o falo sob a forma de filho.

Em seu percurso para tornar-se uma mulher, a menina atravessa uma fase masculina, ou como afirmava Freud, “devemos reconhecer que a menina é um pequeno homem”; isso é uma tentativa de negar a castração e permanecer com a ilusão de possuir o falo. Essa cristalização na identificação fálica é o que confere a marca do feminino na histeria, já que a mulher está mais sujeita – pela própria anatomia – a se engajar nesse projeto. No entanto, essas identificações não suprimem as dúvidas sobre o que se é, e sua pergunta mais freqüente é: o que sou eu? E a resposta vem diretamente do corpo fazendo com que ela passe da responsabilidade de ter o falo para a de sê-lo em seu próprio corpo.

O corpo para a psicanálise é bem mais que um amontoado de órgãos trabalhando em sincronia; é um corpo erógeno, como descreve Masotta (1987, p.98), que “pode gozar ignorando que goza ou que pode conseguir o gozo como certeza, sem deixar de ignorar a gênese e a estrutura dessa certeza e desse gozo”, e acrescenta: “se o corpo erogeniza é porque extrai, em primeiro lugar, sua sexualidade de seu contato com o corpo da mãe”. Entretanto, aquilo que é aprendido com ela não pode ser utilizado senão com outra pessoa, logo, este corpo seduzido passivamente transformar-se-á em ativo, sedutor, tomando a aparência imaginária de corpo fálico, completo (ou quase) e não castrado.

Como afirmamos acima, em relação à dúvida fundamental na histeria – ser homem (atividade) ou ser mulher (passividade) – a resposta se apresenta antes que a pergunta se torne consciente, e o teatro da histeria tem início: a menina representa ser “a mulher”. De acordo com Mayer (l989, p.61) essa vivência se desenvolve

através de um vestuário calculadamente natural, de um manejo corporal administrado até o detalhe, de olhares carregados, do enigma de seu sorriso..., a histérica representa ante o homem não somente que é uma mulher excepcional, única e desejável, mas também que tem algo mais que não se vê, algo que a torna mais desejável ainda.

Uma super-fêmea, cujo corpo é o estandarte a ser apresentado no jogo da sedução, corpo que se mostra e se esconde, corpo portador desse algo mais que quase ninguém tem – o falo.

É por essa via que podemos tomar o corpo no fenômeno histérico como equivalente ao “falo imaginário”, que assim como a criança imaginária faz sua mãe gozar o mais sublime dos gozos: padecer no paraíso. Como falo, ela não se contenta em seduzir apenas o outro, mas, precisa de um público que confirme sua crença imaginária. Ser vista, ser notada, ser olhada são desejos que apelam para a pulsão escópica. A moda e a mídia conferem um padrão capaz de enlouquecer àquelas que não se adéquam as suas exigências métricas. As academias de ginástica promovem um culto às formas “trabalhadas” do corpo ideal, que, ao lado da parafernália dos cremes e cosméticos, da roupa que esconde e exibe, preparam o sujeito para o desfile de sedução de seu dia-a-dia. Como sublinhava Reich (1972, p.239), “[...] com movimentos que possuem uma qualidade saltitante, uma flexibilidade e certa dose de provocação sexual”, a histérica tenta seduzir seu público, saltando da passividade para a atividade, sem, no entanto, nada saber sobre seu desejo, que se lhe for apontado lhe aparece como surpreendente. Mayer (1989, p.59) afirma, e a experiência tem confirmado, que tanto o “discurso verbal manifesto, como o discurso plástico das imagens oníricas ou corporais {na histeria}, são metáforas eróticas que todos entendem, menos ela que se mostra surpreendida e escandalizada”.

Com o alimentado sonho da perfeição corporal via intervenções cirúrgicas, cosméticos e academias de ginástica, aliada a um jeito de ser enigmático e sedutor, ela tem a ilusão de ser tudo: a criança imaginária de sua mãe e o objeto de amor de um pai idealizado. Pois, sendo bela e perfeita será, enfim, desejada. O esmero no trajar que tenta capturar de imediato o olhar do outro, serve em primeiro lugar para ratificar sua “teoria” de ser possuidora desse “algo mais”, mas, por outro lado, faz com que ela entre em um círculo vicioso marcado pela insatisfação – já que o ato sexual é geralmente decepcionante, oportunidade ímpar para humilhar o parceiro “que não consegue fazê-la gozar”. Como defesa, o sujeito histérico refugia-se no reino do imaginário, impedindo desse modo que venham à consciência os sentimentos que abriga inconscientemente, de ser “feia, incompleta, vazia, que os homens têm mais, que para eles tudo é mais fácil etc”. Mayer (1987, p.59).

Como se não bastasse tanta dificuldade, a realidade, sob a forma da passagem dos anos vem marcar esse corpo com a tinta do envelhecimento, pondo em xeque sua imagem idealizada, retirando a máscara de sua identidade mítica, abalando sua auto-estima e levando-a finalmente à depressão ou a paranóia, ou seja, àquele lugar em que a histeria resvala na psicose.

Durante o tratamento analítico a sedução se manifesta de múltiplas formas: no vestuário, no falar, no silenciar, nos olhares, no aperto de mãos na despedida etc. O corpo que está deitado no divã está constantemente inundado por sentimentos de medo e vergonha de num pequeno deslize mostrar-se como é – faltoso. As fantasias inundam a mente: “Imaginei que você vinha até aqui, deitava comigo e me fazia um monte de carinhos”, ou “Eu esperava que você me agarrasse, me beijasse... então eu diria: hoje não doutor, é que eu não fiz depilação”.  A transferência ganha um colorido erótico, e transforma-se na maior resistência ao trabalho analítico: “Será que você me acha atraente?”, “Transei com meu parceiro pensando em você”. Como responder a tais demandas que nos colocam no lugar de objeto causa de desejo? Não há como responder sem que se revele sua própria sexualidade “furada”; pois o saber sobre o sexo e o amor, deixamos aos perversos e suas ilusões (certezas), importa, a nós analistas, ficarmos em nosso lugar de semblante – seduzido e sedutor – porém, apoiados numa ética que nos leva a esperar que lá onde “isso” era, advenha o “eu”. E durante o longo percurso de nosso trabalho, ela segue seu caminho, como Gradiva – em busca do amor – brilhando enquanto caminha.

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

 

FREUD, Sigmund.  Feminilidade. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1970.

 

MASOTTA, Oscar. O comprovante da falta: lições de introdução à psicanálise. Campinas: Papirus, 1987.

 

MAYER, Hugo. Histeria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

 

REICH, Wilhelm. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1972.

 

THIS, Bernard. Introdução à obra de Ferenczi. In: NASIO, Juan-David (org.). Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.

 



domingo, 28 de setembro de 2008

William Shakespeare


SONETO LXXXVIII


Quando me tratas mau e, desprezado,

Sinto que o meu valor vês com desdém,

Lutando contra mim, fico a teu lado

E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,

A te apoiar te ponho a par da história

De ocultas faltas, onde estou enfermo;

Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:

Curvando sobre ti amor tamanho,

Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.

Assim é o meu amor e a ti o reporto:

Por ti todas as culpas eu suporto.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Facundo Cabral - 2


NO ESTÁS DEPRIMIDO


No estás deprimido, estás distraído, distraído de la vida que puebla. Distraído de la vida que te rodea: delfines, bosques, mares, montañas, ríos. No caigas en lo que cayó tu hermano, que sufre por un ser humano cuando en el mundo hay 5,600 millones. Además no es tan malo vivir solo. Yo la paso bien, decidiendo a cada instante lo que quiero hacer, y gracias a la soledad me conozco, algo fundamental para vivir. No caigas en lo que cayó tu padre, que se siente viejo porque tiene 70 años, olvidando que Moisés dirigía el éxodo a los 80 y Rubinstein interpretaba como nadie Chopin a los 90. Solo por citar dos casos conocidos.
No estás deprimido, estás distraído, por eso crees que perdiste algo, lo que es imposible, porque todo te fue dado. No hiciste ni un solo pelo de tu cabeza por lo tanto no puedes ser dueño de nada. Además, la vida no te quita cosas, te libera de cosas. Te aliviana para que vueles mas alto, para que alcances la plenitud. De la cuna a la tumba es una escuela, por eso lo que llamas problemas son lecciones. No perdiste a nadie, el que murió simplemente, se nos adelantó, porque para allá vamos todos. Además lo mejor de él, el amor, sigue en tu corazón. ¿Quién podría decir que Jesús está muerto? No hay muerte: hay mudanza. Y del otro lado te espera gente maravillosa: Gandhi, Michelangelo, Whitman, San Agustín, la Madre Teresa, tu abuela y mi madre, que creía que la pobreza está más cerca del amor, porque el dinero nos distrae con demasiadas cosas, y nos aleja por que nos hace desconfiados.
Haz sólo lo que amas y serás feliz, y el que hace lo que ama, está benditamente condenado al éxito, que llegará cuando deba llegar, porque lo que debe ser será, y llegará naturalmente. No hagas nada por obligación ni por compromiso, sino por amor. Entonces habrá plenitud, y en esa plenitud todo es posible. Y sin esfuerzo porque te mueve la fuerza natural de la vida, la que me levantó cuando se cayó el avión con mi mujer y mi hija; la que me mantuvo vivo cuando los médicos me diagnosticaban 3 ó 4 meses de vida.
Dios te puso un ser humano a cargo, y eres tú mismo. A ti debes hacerte libre y feliz, después podrás compartir la vida verdadera con los demás. Recuerda a Jesús: “Amarás al prójimo como a ti mismo”. Reconcíliate contigo, ponte frente al espejo y piensa que esa criatura que estás viendo es obra de Dios; y decide ahora mismo ser feliz porque la felicidad es una adquisición.
Además, la felicidad no es un derecho sino un deber, porque si no eres feliz, estás amargando a todos los que te aman. Un solo hombre que no tuvo ni talento ni valor para vivir, mandó a matar seis millones de hermanos judíos. Hay tantas cosas para gozar y nuestro paso por la tierra es tan corto, que sufrir es una pérdida de tiempo. Tenemos para gozar la nieve del invierno y las flores de la primavera, el chocolate de la Perugia, la baguette francesa, los tacos mexicanos, el vino chileno, los mares y los ríos, el fútbol de los brasileiros, Las Mil y Una Noches, la Divina Comedia, el Quijote, el Pedro Páramo, los boleros de Manzanero y las poesías de Whitman, Mahler, Mozart, Chopin, Bethoven, Caravaggio, Rembrant, Velásquez, Picasso y Tamayo entre tantas maravillas.
Y si tienes cáncer o sida, pueden pasar dos cosas y las dos son buenas; si te gana, te libera del cuerpo que es tan molesto: tengo hambre, tengo frío, tengo sueño, tengo ganas, tengo razón, tengo dudas….y si le ganas, serás humilde, más agradecido, por lo tanto fácilmente feliz. Libre del tremendo peso de la culpa, la responsabilidad, y la vanidad, dispuesto a vivir cada instante profundamente como debe ser.
No estás deprimido, estás desocupado. Ayuda al niño que te necesita, ese niño será socio de tu hijo. Ayuda a los viejos, y los jóvenes te ayudarán cuando lo seas. Además, el servicio es una felicidad segura, como gozar a la naturaleza y cuidarla para el que vendrá. Da sin medida y te darán sin medidas. Ama hasta convertirte en lo amado, más aún hasta convertirte en el mismísimo amor. Y que no te confundan unos pocos homicidas y suicidas, el bien es mayoría pero no se nota porque es silencioso, una bomba hace más ruido que una caricia, pero por cada bomba que le destruya hay millones de caricias que alimenta a la vida.


Breve biografía
Facundo Cabral nasceu em 22 de maio de 1937 em La Plata, província de Buenos Aires, Argentina. Filho de Sara e de Rodolfo, que abandonou a esposa e os três filhos, que emigraram para a Terra do Fogo, sul da Argentina. Teve uma infância difícil ao ponto de cair na delinquência e ser preso em um reformatório. Tempos depois teve um encontro com Deus ouvindo as palavras de Simeón, um velho vagabundo. Foi morar em Tandil, onde realizou todo tipo de tarefas, de gari a peão de colheitas. Em 1959 já tocava guitarra e cantava, tendo como ídolo, Atahualpa Yupanqui. Mudou-se para Mar del Plata, cidade balneária da Argentina e solicitou trabalho em um hotel. O dono, ao vê-lo com a guitarra lhe deu a oportunidade de cantar. Assim começou sua carreira dedicada a música, sendo seu primeiro nome artístico, “El Indio Gasparino”. O sucesso chega com a canção “No soy de aquí, no soy de allá”, em 1970. Suas canções de protesto em busca do amor incondicional e universal, o levam a peregrinar por 165 países. Em reconhecimento a sua constante jornada pela paz e pelo amor, a UNESCO, lhe concedeu o título de Mensageiro Mundial da Paz.