quarta-feira, 8 de julho de 2015

A MALANDRAGEM NA LITERATURA DE CORDEL


A Literatura de Cordel (LC), por ser pertencente a um gênero classificado como “poesia popular” e manter um contato sólido com a literatura oral – da qual é herdeira –, sempre manteve um diálogo representativo com as questões concernentes às vicissitudes da existência, geopoliticamente marcadas em suas obras, onde não pode faltar a fala que faz eco às injunções do meio social da qual é oriunda. Seja na produção ou na recepção, a LC confirma os vínculos socioafetivos norteadores de sua arte, uma arte popular, com sua sabedoria e beleza peculiar, que expressa uma realidade, um mundo simbólico e o imaginário de um povo “nordestinado” à luta. Conforme Zenir Campos Reis (1995:9), as narrativas populares, combinam “real e possível, miséria e dignidade humana, precariedade presente e desejo utópico de um futuro mais justo”; portanto, caracteriza-se como uma prática social, artística e cultural de grupos “subalternos” da sociedade, cujo “canto” ecoa nos seus pares, também proletários, que compõem  a maioria do público consumidor.

Assim como acontece na literatura dita erudita, o tipo social definido como “malandro” também aparece com certa freqüência na literatura popular, e mais especificamente, na Literatura de Cordel. Desde as proezas do anti-herói ibérico Pedro Malazartes e seus congêneres nacionais João Grilo e Camões, a cultura popular sempre devotou certa admiração a esses personagens de comportamento ambíguo, que surgem como campeões de tiragens dos folhetos de cordel. Nesse trabalho, analisaremos o folheto de Cordel “O ladrão besta e o sabido” de autoria de Roxinô, que na realidade trata-se de uma “embolada” – desafio verbal em que dois cantadores acompanhados por pandeiros criam versos em torno de um mote previamente acertado – composta de uma quadra (o mote ou refrão) e vinte e nove sextilhas com rimas do tipo ABCBDB.

Inicialmente convém definirmos adequadamente o tema de nossa investigação. Malandro é definido pelo dicionário Aurélio como: indivíduo dado a abusar da confiança dos outros, ou que não trabalha e vive de expedientes. Encontramos ainda o termo como significando velhaco, patife, indivíduo preguiçoso, gatuno, ladrão; e, indivíduo esperto, vivo, astuto, matreiro. Tais definições podem ser aplicadas sem maiores constrangimentos às personagens da obra analisada: os dois ladrões da poesia de Cordel. O malandro encanta porque nos remete ao mundo lúdico da facilidade, da felicidade – gozo no jargão lacaniano – e da falta de compromisso. Em 1970 Antonio Candido escreveu um célebre ensaio para falar da lógica da malandragem a partir da análise do romance "Memórias de um sargento de milícias", e, dele extrai uma estrutura comum entre forma literária e processo social: a qual denominou "dialética da malandragem". Segundo o crítico, haveria uma reversibilidade entre a ordem e a desordem que estruturaria nossa sociedade: uma dinâmica que poderia ser flagrada na ação do malandro protagonista do livro de Manuel Antônio de Almeida – Leonardo Filho, fruto de “uma pisadela e um beliscão”. Para Candido (1993:26), “o malandro, assim como o pícaro, é uma espécie de gênero mais amplo de aventureiro astucioso, comum a todos os folclores”; e, sempre presente na Literatura de Cordel.

O fascínio despertado pelo malandro, que faz com que o tipo seja freqüente na comicidade popular e mesmo na dramaticidade erudita ao longo da história, parece-nos atrelar-se a proposição de uma nova ordem (ou desordem), ou como aponta CANDIDO (1993:47), para a criação de um “universo sem culpabilidade e mesmo sem repressão”. Além disso, o tipo se coloca acima da ordem social capitalista ao boicotar o “sublime ato de trabalhar”, substituindo-o pela manobra do “arranjar-se”. Para o pesquisador Michel Misse, a malandragem do período mediano do século XIX, que aparece representado nas “Memórias”, não tinha qualquer significado positivo a não ser para o seu próprio meio social; já que o termo malandro possuía – e ainda possui – um significado marcado pela duplicidade: por um lado significava vadio, vagabundo, e, por outro vigarista e larápio. Ainda de acordo com MISSE (2005:A19), tal duplicidade “construía-se por oposição à valorização do trabalho como valor central da civilização burguesa”, e acrescenta que no Brasil
“a dignidade do trabalho entrava em contradição com o escravismo, com o fato de que aqui o trabalho era coisa indigna, coisa de escravo. Como na visão aristocrática, que nunca reconheceu qualquer dignidade ao trabalho, constituía-se assim um lugar a partir do qual podia-se renegar o trabalho em nome de uma superioridade do indivíduo frente ao rebanho de escravos e trabalhadores livres ou burgueses. Foi nesse lugar que o malandro negativo se travestiu em malandro positivo. Mas o malandro pobre – que continuava sendo encarcerado pela polícia por vadiagem – jamais pode usufruir a dignidade de não-trabalhar como acontecia com o vadio rico. E assim, pelo menos nas delegacias e tribunais, o ‘barão da ralé’ jamais pode competir em direitos civis com os barões do café”.

Como afirmamos acima, o Cordel objeto de nossa análise alcançou uma grande tiragem – tanto que ainda hoje é possível encontrar novas edições nas feiras de artesanato espalhadas pelo país – e uma enorme repercussão graças a sua propagação nos meios de comunicação com as apresentações da dupla de emboladores Caju e Castanha em programas de auditório. Entretanto, esse fato tomado isoladamente não esclarece as razões do sucesso do folheto, que já vendia bem antes de sua divulgação na mídia, e, podemos supor que sua entrada na mídia televisiva deva-se ao sucesso anteriormente alcançado junto ao público leitor-ouvinte. Parece-nos, entretanto, que é o apelo cômico o grande responsável por todo sucesso dessa poesia popular narrativa. A comédia foi tida em Atenas como um gênero inferior à tragédia, no sentido de representar a vulgaridade das ações humanas e não sua elevação, consistindo, segundo Aristóteles, em um defeito que trazia ao julgamento do público o ridículo dos caracteres, isto é, aquelas dimensões ilógicas, exageradas ou "mecânicas" de ações e de idéias, tratadas de maneira mais popular, leve e risível, mas com um forte conteúdo moral.

“Se na comédia predomina a resolução pacífica, ‘justa’ ou feliz dos conflitos, após uma série de incidentes e reviravoltas de situações (peripécias), é porque seu objetivo tem sido considerado essencialmente moral. Não a moralidade ou a ética transcendente da tragédia, mas aquela imediatamente prática e educativa. Para ela, os valores e as normas sociais tendem a ser apresentada como convenções que podem ser substituídas, justamente por serem incongruentes, absurdas ou ignóbeis”. BENTLEY (1991:58)

O cordel analisado – O ladrão besta e o sabido – vincula-se às colocações de Bentlley acerca da comédia; por ser cômico, pode fazer uma crítica social em que os valores são invertidos e na qual o absurdo se torna tangível inclusive naquilo que toca às identificações do público leitor-ouvinte. Ao se estabelecer uma comparação entre dois tipos de ladrões – o besta e o sabido – presenciamos a colocação em cena da dubiedade própria de uma estrutura capitalista marcada pela divisão da sociedade em duas classes: dessa forma, temos por um lado o ladrão sabido que é rico (relógio de ouro, carro importado) e respeitado pelas autoridades constituídas (passa perto da polícia e ainda é cumprimentado), e no outro lado, o ladrão besta, pobre (vive como um bacurau) e desrespeitado em seus direitos de cidadão (se não correr morre no pau). A poesia prossegue nas comparações entre os dois tipos marcando em cada estrofe a vinculação dos tipos às classes sociais a que pertencem:
01
“O ladrão sabido
só anda bem arrumado
o seu relógio é de ouro
o seu carro é importado
passa perto da polícia
e ainda é cumprimentado
02
O ladrão besta
Vive igual um bacurau
Não pode ouvir um alarme
Pensa que é o au-au
Sai danado na carreira
Que é pra não morrer no pau
03
O ladrão sabido
come muito e não enjoa
conhece vários países
não liga pra coisa atoa
e no guarda-roupa dele
só entra seda da boa
04
O ladrão besta
só come mesmo batata
o que tem na casa dele
é percevejo e barata
muriçoca mosca e rato
e um cachorro vira lata”.

A partir do exposto nas estrofes acima – e que serão reforçadas ao longo do texto poético do cordelista – fica demarcado o território social de cada uma das personagens: o ladrão sabido-burguês (come muito, não liga para problemas menores e se veste com requinte) e o ladrão besta-proletário (só come batata, convive com animais asquerosos e possui como único bem um cachorro vira-latas). A respeito dessa característica da poesia popular nordestina em enfocar os problemas sociais, às vezes fazendo críticas mordazes ao status quo, vale à pena conferir as proposições de Thiers Martins Moreira, que em prefácio a obra de Cavalcanti Proença (1986:24), afirma:
“Ver-se-á um dia que para a história ou para a sociologia aí se encontra uma das mais ricas fontes. A linguagem, sobretudo, aparece em um dos seus mais interessantes campos de fixação do aspecto brasileiro da língua portuguesa. Esses trovadores possuem uma consciência do valor poético e social da obra que realizam. Têm a consciência de sua arte, conhecem as regras e as éticas da criação artística que impregna a atmosfera literária de seu mundo”.
E, complementando essa colocação que aponta a inter-relação entre Arte, Consciência e História, MAGALHÃES (1999:55-56) sustenta que:
“a especificidade do reflexo artístico implica consciência do ato como artístico: o objeto pode ser uma obra de arte, mas só se percebido socialmente, por exemplo, como finalidade prática de objeto de uso cotidiano”. 
E acrescenta – a partir de uma análise lukacsiana da obra de Graciliano Ramos, mas que cabe perfeitamente no exame de nossa poesia de cordel – que:
“(...) nenhuma obra de arte pode ser estudada sem o auxílio da História, pois a verdadeira arte é um fazer história, na medida em que é um refletir do ser social sobre sua própria existência”.
E essa existência é parte inseparável da construção textual dessa poesia que reflete as particularidades de um lugar, de um tempo e de um povo.

Prosseguindo em nosso exame da poesia de Roxinô chegamos ao ponto chave: a categorização da malandragem em dois tipos; são dois tipos distintos de malandros, dois mundos diferentes, duas capacidades cognitivas antagônicas, duas possibilidades de gozo, duas classes sociais e um mesmo desejo, que seria o de arranjar-se – pelo roubo – cada qual a seu modo, fugindo do trabalho. Um ladrão rouba muito dinheiro e goza do fruto de sua malandragem hospedando-se em hotel de cinco estrelas; o outro rouba o relógio de um pobre e goza um prazer fugaz no botequim embriagando-se até acordar na mesma desgraça:
05
“O ladrão sabido
só rouba muito dinheiro
rouba hoje no Brasil
amanhã no estrangeiro
se hospeda em 5 estrela
ninguém sabe o seu roteiro
06
O ladrão besta
Dorme até no meio da praça
Rouba um relógio de um pobre
Vende pra tomar cachaça
Que quando acaba o dinheiro
Volta pra mesma desgraça”.
Roxinô continua sua descrição diferenciadora denunciando a precariedade da assistência à saúde e à defesa dos direitos da classe explorada (que não tem médico nem advogado), do contraste da moradia (mansão e favela) e do acesso ao conforto tecnológico experimentado pela classe dominante (rádio-amador, telefone, tv, computador), além de reforçar o que já apontara na primeira estrofe a respeito da relação dos dois tipos de malandro com a polícia que bajula o rico (para falar com ele precisa de autorização) e maltrata o pobre (derrubando seu barraco e tratando-o “no cacete”):
11
“O ladrão sabido
tem médico e advogado
mora em uma mansão
vive muito sossegado
até pra falar com ele
tem que ser autorizado

12
O ladrão besta
Como não tem condição
Dorme no meio da praça
Em favela em barracão
Que quando a polícia chega
Derruba tudo no chão
13
“O ladrão sabido
tem até rádio amador
telefone e escritório
tv e computador
tem mais de vinte secretárias
que lhe dão muito valor
14
O ladrão besta
A vida é levar cacete
Tem uma garrucha velha
Uma faca e um porrete
Para quem vai prender ele
É mesmo que chupar sorvete”.

Na estrofe de número treze (ver acima), dois elementos – possuir escritório e ter mais de vinte secretárias – colocados de maneira sutil pelo poeta permite-nos apreciar com mais clareza o tipo de ocupação de nosso malandro rico, barão não das ralés, mas de uma elite que ao longo de toda história do Brasil vem se perpetuando no poder graças à sua “esperteza” e a velha política de favores tão cara ao modelo de capitalismo dependente existente em nosso país. A presença de vinte secretárias nos lembra a quantidade de cargos comissionados a que têm direitos nossos parlamentares, mas o fato de serem todos eles ocupados por mulheres (que lhe dão muito valor), nos remete a um outro tipo de gozo – o sexual – que trataremos mais adiante. Para reforçar nosso argumento – a pertinência do ladrão sabido à classe dos malandros engravatados que “se arranjam”, entre outras atividades, a partir de um mandato político – vale examinar comparativamente duas estrofes uma de nosso bardo nordestino:
07
“Se morre um ladrão sabido
O seu interro é filmado
Sai em jornal e revista
Passa três dias velados
E o velório se enche
De ladrão engravatado”.
E outra de Chico Buarque de Holanda:
“Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal”.
Cremos que na estrofe de número sete (acima), o poeta nomeia nosso malandro engravatado. Senão vejamos: quem quando morre tem o enterro filmado, noticiado em jornais e revistas, e, o mais importante, tem direito a três dias de velório em que o que mais chama a atenção é a grande aglomeração de ladrões engravatados? O poeta nordestino se une ao poeta carioca para denunciar essa anomalia: o malandro oficial com gravata e capital e retrato na coluna social, esteja ele vivo ou morto. Aqui temos um excelente exemplo da estreita relação da escritura com a história, e aqui em particular “a escritura é, ao mesmo tempo, uma profecia e uma interpretação do passado” (ESTEVES 1997:71).

Nas estrofes abaixo veremos a reafirmação da vinculação a classes sociais antagônicas dos dois tipos de malandro, bem como, o reforço da posição anteriormente afirmada de uma malandragem com mandato e capital:

15
“O ladrão sabido
vai buscar aonde tem
ele rouba mas não mata
e toda vez se sai bem
onde mora é cidadão
e não deve nada a ninguém
16
O ladrão besta
é um cara muito otário
rouba de noite e de dia
pra ele não tem horário
se é de roubar um ricão
vai roubar um operário”.
Nos versos acima, destacaremos primeiramente o segundo verso para ressaltar aí algo da natureza da ideologia. O “vai buscar aonde tem” que pode ser compreendido como “roubar de um lugar que tem em abundância” e que está em oposição ao último verso da estrofe dezesseis “vai roubar o operário”, funciona como cortina de fumaça para elidir o confronto aberto do antagonismo de classes, fato aliás comum na Literatura de Cordel. Nos passa a impressão de que o ladrão sabido no fundo é “gente boa”: ele não rouba o operário, é cidadão, não deve nada a ninguém e o mais importante: rouba mas não mata.

Nas onze estrofes finais observamos a progressão da dubiedade entre os tipos de malandros em sua participação numa dada classe social, além de uma acentuação da comicidade no aumento do sofrimento – risível – desse anti-herói proletário que merece sofrer justamente por ser “besta”: é frouxo, anda moribundo, vive roxo de apanhar, anda amarelo e doente, não tem dinheiro, contenta-se com pouco, da o que tem, leva uma vida arriscada e morre cedo – ver estrofes vinte, vinte e dois, vinte e quatro, vinte e seis e vinte e oito. Qualquer semelhança com o proletariado rural e urbano de nosso tempo não parece ser coincidência.

20
“O ladrão besta
só vive levando acocho
anda todo moribundo
de apanhar vive rocho
não pode ver um soldado
corre mostrando que é frouxo”.
22
“O ladrão besta
no dia que é enquadrado
leva tanta cacetada
fica todo esconchavado
não tem um tostão no bolso
que pague ao advogado”.
24
“O ladrão besta
tem uma vida ruim
rouba sapato cueca
rouba chapéu trancilim
muitos não chegam nem 20
que os homens lhe dão fim”.
26
“O ladrão besta
anda amarelo e doente
quando rouba cem cruzeiros
vai comer cachorro quente
até que a polícia chega
e lhe prende novamente”.
28
“O ladrão besta
tem uma vida arriscada
rouba qualquer mixaria
vai preso, leva porrada
pois além de roubar pouco
da tudo e fica sem nada”.
Em contrapartida, o ladrão sabido vai ficando cada vez mais próximo daquela anomalia citada anteriormente: um malandro oficial com gravata e capital, que vai ao banco, a igreja e ao clube e que possui amigos endinheirados como ele que tomam “whisky e cerveja”; possui fazenda, se alimenta bem e não tem preocupações; é caridoso, possui carro do ano,  e os filhos estudam; planeja antes de agir, é mais esperto que um cigano e rouba dólar e cruzeiro às escondidas; mora em mansão com piscina, faz sexo com mulheres grã-finas, faz tratamento de beleza, e, finalmente, não vai para a cadeia numa clara demonstração de poder – ver abaixo as estrofes dezenove, vinte e um, vinte e três, vinte e cinco, vinte e sete e vinte e nove.
19
“O ladrão sabido
vai ao banco e a igreja
vai a clube vai a praia
vai aonde ele deseja
e quem for amigo dele
tem grana wishk e cerveja”.
21
“O ladrão sabido
vive de barriga cheia
possui terra tem fazenda
e com nada se aperreia
quando vai preso se solta
não passa um dia em cadeia”.
23
“O ladrão sabido
vive bem e da esmola
só usa carro do ano
bota os filhos na escola
e quem for mexer com ele
com certeza se atola”.
25
“O ladrão sabido
primeiro faz o seu plano
não cochila é muito esperto
anda mais do que cigano
só rouba em dólar e cruzeiro
tudo por baixo do pano”.
27
“O ladrão sabido
mora em mansão com piscina
só toma wisk do bom
transa com mulher granfina
faz massagem todo dia
pra ficar com a pele fina”.
29
“O ladrão sabido
no dia que é flagrado
pede pra telefonar
para o seu advogado
no mesmo dia ta solto
quem lhe prendeu ta lascado”.
É a lógica pervertida do capital que surge às vezes de forma velada, outra em claras afirmações, mas que sob uma linguagem cômica – em que o absurdo, o inusitado e ilógico são utilizados para promover o riso – aparecem em cada verso dessa embolada em Cordel, a partir de um recurso, a polarização: besta-sabido, pobre-rico, fome-fartura, desprazer-prazer, desrespeito-respeito, cachaça-whisky, favela-mansão, desprestígio-prestígio, desnudando a contradição de classes nos versos dessa singular poesia de Cordel.

 Antonio Carlos Ferreira Lima
                

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BENTLEY, Eric. O dramaturgo como pensador: Um estudo da dramaturgia nos tempos modernos. Trad. Ana Zelma Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: “O discurso e a cidade”. São Paulo, Duas Cidades, 1993.
ESTEVES, Antônio R. Literatura e história: um diálogo produtivo. In: REIS, Lívia de Freitas (coordenadora). Fronteiras do literário. Niterói, EDUFF, 1977.
HOLANDA, Chico Buarque. Homenagem ao malandro. In: Ópera do Malandro.
MAGALHÃES, Belmira. Um diálogo entre a realidade e a arte: a estética lukacsiana e Graciliano Ramos. In: Leitura: revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística: número temático: Literatura e sociedade/Universidade Federal de Alagoas, Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística – CHLA.- n. 24(jul./dez.1999). Maceió: Imprensa Universitária, UFAL, 1997.
MISSE, Michel. Além do fato: a reinvenção do malandro. Jornal do Brasil, 30/01/2005 – 2ªed – A19.
MOREIRA, Thiers Martins. Prefácio. In: PROENÇA, Manoel Cavalcanti. Antologia: literatura popular em verso. 2ªed. Belo Horizonte. Ed. Itatiaia Ltda., 1986.
REIS, Zenir Campos. Ciência e Paciência: O Mestre Oswaldo Xidieh. In: Revista Estudos Avançados, 9(23), 1995, pp.12 -14.


ALDUISIO MOREIRA DE SOUSA - 1

        TENTAÇÃO E TENTATIVA DE DEFINIR O CONCEITO DE  
                                          INCONSCIENTE
                                                                                          Alduisio Moreira de Sousa
            O procedimento doutrinário de Lacan no que tange à cientificidade da Psicanálise deve muito a Louis Althusser e aos alunos da École Normale Supérieure da Rue D’Ulm. Foi no seu ensino ali – na École – que ele procedeu de forma francamente matemática com escrita lógica algébrica e foi radicalizando sua própria então incipiente axiomática, deixando emergir interrogações nunca antes feitas em seu ensino: epistemologia numa exigência de clareza sem igual, pois ali encontrava um público jovem e desafiador para o qual devia se dispor realmente a uma abertura não simplesmente mudança de endereço, mas criar um lugar de abertura para novos interlocutores do Seminário então aberto para não analistas e para novos horizontes teóricos: filosofia marxista (no caso, maoista), matemática, topologia e as questões postas pela comunidade de um público diante da efervescência política pré-revolucionária [ou pré 1968], que abalou os alicerces políticos da cultura e da ciência supostamente neutra em relação à política e à ideologia. O ensino então carecia de maior precisão, e se apresenta então diante da exigência de atualidade do publico novo da nova comunidade. Foi como se lhe fosse exigido contas sob a forma conceitual a qual não estava habituado. Foi ali que ele abriu espaço para os jovens normalistas e inclusive àquele que se tornou seu principal interlocutor – Jacques-Alain Miller que se tornou seu genro ao se casar com sua filha Judith Miller. Ali também que formulou o Seminários sobre os conceitos fundamentais da psicanálise interrogando-os pelo viés da ciência de onde surgiu o Seminário 11, então nomeado por Miller como “os quatro conceitos fundamentais” [o inconsciente, a pulsão a transferência e a repetição] cuja abertura tem por tema: A Excomunhão, onde Lacan manifesta sua identificação a Espinosa de 1656,  e então foi o momento que interrogou sistematicamente a cientificidade da psicanálise se interrogando no seu ensino: a psicanálise se seria uma ciência ou não? É então daí que Lacan se interroga, pontuado por Louis Althusser em sua leitura marxista de Freud e do Próprio Lacan. Temos uma refundação dos interrogantes teóricos, tendo como interlocutores Althusser e seus discípulos: Jacques-Alain Miller, Ives Duroux, Alain Grosrichard, e Pierre Souris etc. Lacan fica à vontade para falar do materialismo histórico e dialético pela releitura de Marx promovida pelo genial Louis Althusser. Tal como leio a Psicanálise, Lacan aí fala e ensina como um cientista. A lógica de seu ensino se radicaliza e ousa um procedimento até então inusitado em sua elaboração, cujo apoio em Frege se torna manifesto.  A partir de então, o procedimento eclético se torna pouco a pouco algébrico, num processo formal seguindo um algoritmo que ele já havia definido em 1957 e uma composição conceitual por proposições na lógica já então fregeana, da relação entre função e argumento.
Diz Lacan em 1957: “( .../..). vamos fiar-nos nas premissas (...) pelo fato de que a linguagem teria efetivamente conquistado, na experiência, seu status de objeto científico. (.../..). por esse fato que a linguística se apresenta numa posição piloto (.../...) para uma reclassificação das ciências (.../...) como acontece com toda ciência no sentido moderno (...) no momento constitutivo de uma algoritmo que a funda”. S/s.
            Quando estudamos Frege através do texto A SUTURA de Jacques-Alain Miller e depois indo diretamente aos textos fregeanos, deixamos escapar a oportunidade de estendermos o tratamento conceitual para fazermos uma checagem deles para nossa atividade seja de estudos ou da clínica. Não de uma aplicação, mas de exercício de dedução já que poderíamos diretamente acrescentar ao conceito de conceito, de número e de sucessor uma elaboração do próprio conceito de INCONSCIENTE que está posto nas condições de enunciação, e assim apurarmos nosso entendimento da doutrina e da prática analítica.
De entrada, na SUTURA, nas provocações de Miller, ele diz que: “O campo freudiano não é representável por uma superfície fechada”, deixando claro que a estrutura que o representa este campo é moebiana com uma invariante e os objetos topológicos subsumidos são a Cinta de Moebius, a Garrafa de Klein e o Cross-cap. O passo que faltava é mínimo para alojar o conceito de Inconsciente. É o que proponho que trabalhemos, já que, na página 12 eis o que o autor diz:
“.../... a relação que na álgebra lacaniana é dita do sujeito ao campo do Outro (como lugar da verdade) se identifica à que o zero mantém para com a identidade do único como suporte da verdade. Esta relação, enquanto matricial, não poderia ser integrada da objetividade,  –  é isto que  doutrina o doutor Lacan. O engendramento do zero, a partir dessa não-identidade-a-si sob cuja batida não cai coisa alguma do mundo, pode ilustrá-la para vocês. (.../...) O que constitui essa relação como matriz da cadeia deve ser isolado nessa implicação que faz determinante da exclusão do sujeito para fora do campo do Outro (A), sua representação sob a forma do um do único, da unidade distintiva chamada por Lacan “o unário” (l’unaire). Na sua álgebra, essa exclusão é marcada pela barra que vem afligir o S do sujeito diante do grande A (Outro), deslocamento cujo efeito é a emergência da significação significada ao sujeito. (.../...) Não entabulada pela troca da barra, essa exterioridade do sujeito ao Outro $(A) se mantém, instituindo o inconsciente”.
Ou seja, a barra que escrevia a posição do Sujeito como uma demanda indeterminada, como carência da própria cadeia como uma suposição aflige então ao sujeito, já que ele diante do Outro está em posição de carência pelo efeito de seu desejo, cuja mostração aponta para o traço-unário, como elemento que lhe é fundador enquanto sujeito: sua castração. Aqui, podemos colocar uma dupla acepção: do que limita e possibilita, de onde surgirão as formações que sob o signo da carência ou suposta suficiência ao Ideal do Eu e Eu ideal. Ou seja, da distinção aberta pelo Estádio do Espelho de 1936/1949.
Temos aí a relação S(A) significante diante do Outro, sem mais é a condição da fala e como exclusão do sujeito de seu campo, campo do Outro, lugar da verdade. O matema s(A), é proposto como significado ao sujeito. É como da reversão do inicio do grafo do desejo, e em seguida significante diante falta do Outro, aqui é onde o Outro é barrado $(Ⱥ), nos indicando que é do campo mesmo da verdade que devemos sacar o Significante e de lá, da barra que aflige o $ujeito que ele é interrogado sobre sua ex-sistência. A falta marcada sobre o Outro então é o sujeito que a toma pra si, quando fala, daí sua determinação e responsabilidade, pois sua fala se inscreve como obturação buscada dessa falta, ou seja, da carência de seu Outro. Daí, o passo necessário é a elaboração de um novo conceito de objeto, de onde resulta o Objeto a. Pensemos na subsunção e na atribuição para este paradoxal objeto?
Percebamos e façamos o registro do que o autor chama de significação para o sujeito, o que entendi como da ordem da mensagem, em seguida é que o Outro é barrado, já que é nele que temos a bateria significante, e por ele ser barrada significa que não é todo, e a barra como uma inversão da mensagem retorna ao sujeito que aí então aparece ele, o Outro, como barrado (Ⱥ), o Outro como barrado é apontado pelo traço-unário. É aí que situamos a própria emergência do Inconsciente, como ato ainda não conceptualizável enquanto tal, mas como enganche indicando a necessidade de uma elaboração.  
 Devemos situar esta superfície evocada no texto da SUTURA, que deveria conter o que é representável do campo freudiano, superfície cujo ponto comum ou invariante é a torção moebiana: temos então a moebianiedade como condição e como tal temos os objetos topológicos referidos como vemos nos objetos aqui mostrados ou descritos: a própria cinta de Moebius, a Garrafa de Klein e o Cross-cap para que pensemos a Lógica do Significante na obra de Lacan, na construção dos objetos, funções, argumentos da elaboração linguageira.   
Processo formal, e como tal por ser puramente formal, implicando todos os campos do saber, na produção do sujeito, aqui considerado como um movimento linear engendrando-se no seu próprio percurso, extrapolando sua origem linguística inclusive com a distinção dada por Frege  entre sentido e significado.  Aqui no que nos interessa é interessante pensar a cientificidade da psicanálise, tomando como exemplo, pelo conceito de CONCEITO, conceito de NÚMERO e de SUCESSOR, tal como Jacques-Alain Miller pontuou em seu texto A SUTURA. O conceito de sucessor, definido a partir do conceito duplamente contraditório nos trás o CONCEITO DE INCONSCIENTE.
O conceito de SUTURA ele explicita como “a relação do sujeito à cadeia significante de seu discurso”. Estrutura onde o enunciador se faz presente por sua ausência na locução onde ele está como lugar-tenente da marca de passagem de interior a exterior discursivo ou ainda pela diferença posta pelo enunciado e a enunciação. Frege acrescentará nessa binariedade a presença da diferença entre sentido e significado, ou sentido e significação.
Miller vai trabalhar considerando e questionando os axiomas fundadores de Peano: ZERO, NÚMERO e SUCESSOR.
Eis os axiomas de Peano:
1        Zero é um número.
2         O sucessor imediato de um número é um número. 
3        Zero não é sucessor de nenhum número.
4        Não há números que tenham o mesmo sucessor imediato.
5        Qualquer propriedade pertencente a zero e também ao sucessor imediato de cada número que tenham estas propriedades pertence a todos os números.
     Ao retomarmos a axiomática de Peano ela nos libera e convoca para a reflexão, mas exige que tenhamos como sabido que ela está na base teórica de nossas elaborações. Ela é suturante aqui para nosso exercício de pensamento, já que elabora a relação do sujeito à cadeia de seu próprio discurso. Miller se interroga e responde sua própria interrogação: “O que é que funciona na série dos números inteiros naturais, ao que é preciso relacionar sua progressão? É a função sujeito”, aqui ainda desconhecido que opera. Observemos que ele diz função sujeito e não função do sujeito, simples observação para a atenção requerida a seguir.
Frege exclui o empirismo e o psicologismo no que seria a passagem da coisa à unidade e à coleção das unidades e daí à unidade do número. Aí a função sujeito e mesmo do sujeito pensante toma emprestado a figura da abstração e da unificação. A unidade então é conferida ao indivíduo como à coleção e o que marca o número é seu nome. Trata-se aqui de uma Vorstellungen objetiva excluindo então o empirismo e seu efeito de ser uma Vorstellungen subjetiva, ou psicológica. Esta exclusão do empírico e do psicológico (subjetivo) vai dar espaço para a noção que podemos identificar à repetição. Veremos que a repetição é um avanço na direção da subjetivação como automatismo sulucionante.
             Frege trabalha de forma ternária com três conceitos: CONCEITO, OBJETO e NÚMERO e duas relações, SUBJUNÇÃO e ATRIBUIÇÃO, ou ASSINAÇÃO. De forma simplificada e rigorosamente determinada pelo uso das duas relações: SUBSUNÇÃO e ATRIBUIÇÃO, que seria mais prático chamar de NOMEAÇÃO. Ou seja, o conceito convoca um objeto que ele então SUBSUME e em seguida o NOMEIA.
A localização espaço-temporal – a seriação dos números inteiros – do objeto cria a diferença entre objeto e coisa integrada. A coisa então desaparece e ressurgindo como OBJETO, que é a coisa enquanto UNA. Fica assim claro que o conceito que opera no sistema formado a partir da SUBSUNÇÃO é um conceito reduplicado: O CONCEITO DE IDENTIDADE A UM CONCEITO. A atribuição é então a nomeação, ou melhor, um dar nome à coisa subsumida. É aí que começa a lógica, já que a indução no conceito pela identidade dá nascimento à dimensão lógica e provoca a emergência do numerável.
Vamos ao exemplo do texto A SUTURA, de Miller:
Um conceito: “o filho de Agamenon e Cassandra”, convocamos para subsumi-los Pélops e Telédamos que serão os objetos que serão atribuídos após subsumi-los e daí segue que os objetos que caem sob o conceito é “idêntico ao conceito: filho de Agamenon e de Cassandra”.
Fica evidente que o conceito que opera no sistema formado a partir da determinação da subsunção é um conceito reduplicado: o conceito de identidade a um conceito. Ou seja, um conceito dentro do Conceito para torná-lo operável. É daí que surge o numerável. A seriação dos números inteiros, com o conceito de SUCESSOR trás o paradoxo do Inconsciente através do que constitui a base do numerável,  cujo procedimento devemos reestudar.
Os filhos então são aplicados a si mesmos – condição da verdade – o que os transforma em unidade a passar ao estatuto de objeto e como tal numerável. O um da unidade singular, esse um do idêntico ao subsumido esse um é aquilo que todo número tem de comum: ser antes de tudo constituído como unidade. Daí temos que a atribuição do número tem a seguinte operação: “o número atribuído ao conceito F é a extensão do conceito “idêntico ao conceito F””. Aqui está o ponto chave segundo o raciocínio de Frege: a reduplicação do conceito. Um Conceito subsume sempre um objeto, mas partes e mesmo todo um Conceito pode ocupar o lugar de objeto de outro conceito. É um conceito auxiliar ou como Miller o nomeia, reserva. Este encaixe será determinante e presente em toda formulação de Frege, sabem bem quem procurou seguir a elaboração passo a passa dos Fundamentos da Aritmética de Gottlob Frege.
        O sistema ternário (Conceito, Objeto e Número) de Frege, tem por efeito só deixar à coisa o suporte de sua identidade a si, no que ela é então objeto do conceito operante e numerável. O conceito atribuível, assinante, com sua unidade unificante se subordina à unidade distintiva – articulável – para dar suporte à seriação que suporta o número. O fundamento da unidade distintiva situa no princípio de que é a função da identidade que confere a todas as coisas do mundo a propriedade de serem unas, completando sua transformação em objeto de conceito (lógico).  
EADEM SUNT QUORUM UNUM POTEST SUBSTITUI ALTERI
                     SALVA VERITATE. (Leibniz)
Idênticas são as coisas que podem ser substituídas uma a outra sem que a verdade se perca. Temos aqui a emergência da função da VERDADE.
Se uma coisa não puder ser substituída por si mesma o que seria da VERDADE? Absoluta é sua subversão. 
“... a verdade se reencontra no que a coisa substituída, porque idêntica a si mesma pode ser objeto de julgamento e entrar na ordem do discurso: idêntica a si mesma, no discurso ele é então articulável”.
Vemos que a identidade a si mesma é essencial para o que salva a verdade: A VERDADE É. CADA COISA É IDÊNTICA A SI MESMA.
Foi preciso nessa travessia de Frege evocar ao nível do conceito um objeto não idêntico a si mesmo, rejeitado em seguida (mas necessário à reflexão) pela discensão da verdade.
                          O NÚMERO ZERO
O ZERO, 0, do primeiro axioma de Peano é que se inscreve no lugar do número consuma a exclusão  desse objeto, nada poderia ser escrito ali e se é preciso grafar algo será um 0 apenas para figurar um branco e tornar visível a falta. Do ZERO-falta ao ZERO-número se conceptualiza o não conceptualizável. Há aqui uma alteração fundamental, pela evocação e revogação do ZERO-número. O zero entendido como número que marca um conceito que deveria subsumir um objeto na verdade subsume a falta de objeto e como tal uma coisa é a primeira coisa não real no pensamento.
Se do número Zero construímos o conceito ele subsume como seu único objeto o número Zero. O número que marca este único objeto é então o número 1.
O sistema de Frege opera a cada um dos lugares que ele fixa pela circulação de um elemento: do número Zero a seu conceito, deste conceito a seu objeto e a seu número. Circulação que produz o 1.  0 é então contado por 1 uma vez que o conceito de Zero subsume no real apenas um branco que é o suporte geral da série de números. Isto é demonstrado por Frege com a operação do sucessor que é (n+1).
Tomemos um número: 3, (três). Ele nos serve para construir o conceito de “membro da série dos números naturais terminados por 3 (três)”. O número assinado (atribuído) a este conceito é quatro, pois contamos (n+1). Atribuindo ao seu conceito reduplicado o número 3 funciona como o número que unifica a coleção reserva. No conceito de “número da série dos números naturais terminado por 3”  ele é termo (elemento e elemento final).
Na ordem do real o 3 subsume 3 objetos. Na ordem do número que é a do discurso premido pela verdade, são os números que contamos antes do três: antes dos 3 há três números ele é portanto o quarto. Na ordem dos números há também o 0 (Zero) e ele se conta como o 1 (um). O 0 (zero) que estava em reserva passa ao termo pela somação do 0 (zero). Daí é que temos o SUCESSOR. O que no real é ausência pura e simples se acha pelo fato do número (instancia da verdade) é notado e contado como 1. É por isso que dizemos: o objeto não idêntico a si, provocado – rejeitado pela verdade, instituído – anulado pelo discurso (a subsunção como tal) – em uma palavra é o SUTURADO. Aquele que estava na reserva mas não foi descartada sua existência. A emergência da falta como 0 (zero) e do 0 (zero) como 1 determina o SUCESSOR. Penso ser o processo de SUTURAÇÃO. Seja n, a falta se fixa como 0 (zero) que se fixa como 1: n+1 que se adiciona para formar o que seria o n’, que absorve o 1.
O 1 assim engendrado deve ser tomado como o símbolo originário da emergência da falta no campo da verdade e o sinal + indica o passamento, a transgressão pela qual o 0-falta vem a ser representado pelo 1 e produz por essa diferença de n a n’ o que reconhecemos como efeito de sentido, o nome de um número.
                   A DIREÇÃO VERTICAL E A HORIZONTAL
“A repetição geradora da série dos números se sustenta nisso, do que o Zero-falta passar segundo um eixo vertical de início, transpassando a barra que limita o campo da verdade para nela se representar como 1 (um), abolindo-se em seguida como sentido em cada um dos números da progressão sucessorial.
Se distinguimos o 0 (zero) como falta do objeto contraditório dos que suturam em ausência  na série dos números devemos distinguir o 1 (um), nome próprio de um número daquele que vem fixar numa marca o 0 (zero) do não idêntico a si suturado pela identidade a si, lei do discurso, o que dá as garantias no campo da verdade do dizer. O paradoxo a ser compreendido (do significante no sentido lacaniano) é o de que a marca do idêntico representa o não idêntico de onde se deduz a impossibilidade de sua reduplicação, e por isso não há metalinguagem, e daí temos a estrutura da repetição (re-petição) como processo de diferenciação do idêntico.
A série dos números é uma metonímia do 0 (zero) na série sucessorial  horizontal, mas sua efetivação como inicial é de uma substituição na verticalidade: donde substituição metafórica e contiguidade metonímica. O discurso da lógica convoca um objeto impossível como não idêntico a si mesmo, negativo puro no campo da verdade: O SUJEITO no sentido lacaniano, busca a suturação para se sustentar como e no discurso para em seguida desaparecer na sua própria efetuação, daí sua fugacidade e sua permanência paradoxal, como citado no início em Cinta de Moebius, Garrafa de Klein e Cross-cap.  Temos então uma estrutura que tento dar uma ideia da seguinte maneira:
                              SUJEITO – SUTURA – INCONSCIENTE
                                           S (Ⱥ) >>>>>>>>>> $ (A)
O objeto impossível que o discurso da lógica convoca como não idêntico a si e o rejeita como negativo puro, quando ele insiste em se fazer presente nós o chamamos de SUJEITO. Sua exclusão para que o SUJEITO se relacione efetivamente com a cadeia de seu próprio discurso foi dado o nome de SUTURA, este batimento que vai do significante ao campo Outro que é marcado como falta S(Ⱥ), o efeito disso, acolhimento ou injunção de onde o existente recolhe a barra que o funda como pura exterioridade $(A) é que o aliena nos efeitos da fala na linguagem, é onde escrevemos o conceito de INCONSCIENTE.
Temos assim uma tripartição: SIGNICADO para o Sujeito que poderia ser grafado como a escrita da mensagem no grafo da Subversão do Sujeito nos Escritos: s(A); a da cadeia significante que o sujeito sutura ou mesmo tenta burlar sendo então recortado pelos sentidos metafórico e metonímico da cadeia sendo puro efeito da falta no campo do Outro S(Ⱥ); o campo exterior onde o sujeito é rejeitado não é suporte para a dicotomia linguística do significado / significante nos seus múltiplos efeitos de significância pela repetição (tal A carta roubada), a isto, quando efetivado chamamos o INCONSCIENTE, precedido do artigo definido para configurar um conceito.

Podemos enfim no lugar do objeto-não-idêntico-a-si-mesmo, para o qual convém o termo paradoxal do nome de Objeto a, sua moebianidade e os objetos que subsume (Cinta de Moebius, Garrafa de Klein e Cross-cap) é a FUNÇÃO SUJEITO que reconhecendo, pelo uso da linguagem a sua incompletude ou sua infinitude o INCONSCIENTE como conceito seria o ATO de fazer sua causa ou razão (matemática) ao que subsumindo um objeto do zero-falta ao zero-número que enfim é falta de objeto, é nomeado sempre como um-a-mais (n+1) nessa duplicidade da presença-ausência, o nome desta operação paradoxal, convém conceptualizar de: INCONSCIENTE. A barra que aflige o Outro (Ⱥ) retorna ao sujeito que então é barrado ($). Esta barra é o efeito do ATO INCONSCIENTE.  

                                                                                     Alduisio

segunda-feira, 18 de maio de 2015

LUC FERRY: A Filosofia a serviço da vida!

Reproduzo abaixo uma entrevista concedida pelo Filósofo francês Luc Ferry à jornalista Rita Loiola da revista "Superinteressante", em julho de 2008.

"O filósofo Luc Ferry é o oposto do que geralmente se associa a um intelectual francês. Seus livros são fáceis de ler – estão sempre na lista dos 10 mais vendidos na França. Os títulos lembram a auto-ajuda (Aprender a Viver, O Que É uma Vida Bem-Sucedida ou Famílias, Amo Vocês), mas tratam apenas de questões-chave da história da filosofia. “Minha questão é saber como o ser humano pode viver melhor, e isso só a filosofia é capaz de responder”, diz. Além de escrever best sellers, Luc Ferry milita na direita francesa, ao contrário de muitos dos seus colegas intelectuais. Membro do atual governo do presidente Nicolas Sarkozy, ele era ministro da Educação em 2004, quando a França criou polêmica ao proibir que as crianças usassem símbolos religiosos na escola – lei que afetou sobretudo jovens muçulmanas que usavam véu. Ele também não é um intelectual pessimista, mas um entusiasta da maneira de viver e pensar do Ocidente. Se o Brasil e o mundo ficam escandalizados com a morte da menina Isabella ou o caso do austríaco que praticou incesto com a filha durante 28 anos, Ferry diz que nunca amamos tanto nossa família. Numa tarde quente de primavera em Paris, o filósofo explicou por que o amor à família é a novidade na história que define o mundo de hoje.
No livro Famílias, Amo Vocês, lançado este mês no Brasil, você diz que os pais nunca amaram tanto os filhos. No entanto, estamos todos chocados com o caso de uma menina que foi jogada pela janela do 6º andar. E, na Áustria, veio à tona um caso de incesto que durou 28 anos. Esses episódios não o contradizem?
Não. Já ouvi falar dezenas de vezes desse caso da garota Isabella, e estamos todos chocados, tanto quanto com o caso de incesto da Áustria. O importante é que, hoje, esses episódios deixam a maior parte da população escandalizada. Analisando historicamente, percebemos que nem sempre as pessoas ficaram chocadas com histórias como essas. Até o século 18, antes do nascimento da família moderna, cerca de 30% das crianças eram abandonadas. No norte da França, as mortes chegavam a 90% no primeiro ano de vida. Na Idade Média, a morte de uma criança era menos importante que a perda de um cavalo. Existiam diferenças em relação ao primogênito, mas, em geral, as crianças simplesmente eram abandonadas para morrer. A situação mudou completamente. E, no futuro, a família deve se tornar ainda mais importante.
Por quê?
Porque o ser humano é uma das últimas coisas sagradas hoje em dia. Na história, o sagrado (aquilo pelo qual somos capazes de arriscar nossa vida) mudou muito. Os europeus já morreram por 3 grandes motivos: Deus, a pátria e a revolução. Nos últimos séculos, houve mortes maciças em guerras de religião, nacionalistas e guerras revolucionárias. Esses motivos desapareceram. Os jovens ocidentais de hoje não são capazes de morrer nem pela pátria, nem por Deus, nem pela revolução. Acabou.
Mas ainda existe quem morreria por um ideal, como os homens-bomba ou os terroristas bascos. Não?
Existem os extremismos políticos, mas acredito que, entre os ocidentais, nem mesmo os 5% de extrema direita ou esquerda morreriam por um ideal. No entanto, os únicos seres pelos quais seríamos capazes de arriscar nossa vida são os outros seres humanos – nossos filhos, nossos amigos ou mesmo pessoas que passam por situações graves de miséria, como os famintos da África e os movimentos humanitários que tentam salvá-los. O sagrado não desapareceu, ele só mudou de lugar e se encarnou na humanidade. Passamos da transcendência vertical – Deus, pátria, as grandes utopias – para a transcendência horizontal – os homens. Na minha opinião, trata-se de uma grande mudança. É uma maravilha não morrer por motivos estúpidos, e sim para salvar outros seres humanos. Muita gente acha que o fim das utopias é uma tragédia. Para mim, é uma coisa formidável.
Como o fim dos ideais influencia a política hoje?
No Ocidente, faz com que a política, em vez de ser um fim em si mesma, seja um auxílio para a vida privada. Hoje em dia, as pessoas pedem que nós, políticos, sejamos um instrumento do desenvolvimento da família. Não trabalhamos a serviço da glória do país ou da revolução, mas a serviço dos cidadãos. É uma mudança de foco imensa. Com ela, surgem problemas novos, como a preocupação com as gerações futuras. Vem daí o interesse pela ecologia e também pela dívida pública – questões para resolvermos a longo prazo. Temos que dar conta desses problemas não para contribuir para a grandeza do país, mas porque não queremos deixar um mundo pior para nossos filhos.
Essa preocupação com a família é um dos aspectos do que você chama de “novo humanismo” do mundo moderno ou “sabedoria do amor”?
Exatamente. O mundo de hoje é marcado por relações amorosas que têm uma origem muito recente. Antes do capitalismo, as pessoas se casavam à força e nunca por amor. O casamento tinha duas funções: manter a linhagem familiar e tocar a vida rural – fazer a roça, construir cercas para os animais, preparar a comida e até fazer as próprias roupas. Com o capitalismo, surge o povo assalariado e o mercado de trabalho. As mulheres saem da roça para trabalhar nas cidades, vão ser operárias, domésticas em casas burguesas e se descobrem como indivíduos. Largam a bolha em que viviam e descobrem duas liberdades: o anonimato – ninguém mais as vigia – e o salário, um pouco de dinheiro que significa a autonomia material. Coloque-se no lugar dessa moça que escapa do olhar da família e do padre da vila: é uma liberdade formidável! Essa mulher passa a se recusar a ser casada à força. Ela vai querer “se” casar – e com alguém de quem ela goste. Surge assim o casamento por amor, e desse casamento vem o amor pelos filhos e depois a sacralização das pessoas. Foi assim que o amor familiar virou um grande traço que nos define hoje em dia.
Então é o amor que dá sentido à vida hoje?
Sim. O amor é uma das poucas coisas absolutas, indiscutíveis hoje em dia. E a única coisa capaz de dar sentido à vida é o absoluto. Antigamente, o valor absoluto era uma coisa transcendente, ou seja, superior a nós, como Deus e a eternidade. O valor absoluto caía do céu. Mas agora ele está em nós, o que eu chamo de uma “transcendência na imanência”. É mais ou menos como quando alguém se apaixona: ele descobre a transcendência do outro, mas consciente de que o sentimento foi criado dentro de si. A verdade não é mais descoberta hoje sob argumentos autoritários, superiores, mas na sua parte mais íntima – o coração.
Alguns psicólogos dizem que estamos obcecados pela felicidade e pela realização pessoal. Essa busca por felicidade do mundo moderno pode nos levar a mais decontentamento?
Bem, você gostaria de voltar aos séculos passados onde essa felicidade não existia? Se não gostaria, é preciso aceitar que a vida moderna, democrática e livre tem um custo, que é fazer e até mesmo inventar a vida sozinho, arranjar um sentido para a própria vida. Certamente não devemos pensar que a vida deve ser sempre feliz e despreocupada. Pessoas que tentam viver como se a vida pudesse ter nenhum sofrimento lembram um animal – digamos, um coelho – que vive sem imaginar que há um caçador por perto para estragar a festa. Kant, o filósofo alemão, diz que se a Providência quisesse que fôssemos felizes não teria nos dado a inteligência. Nunca conseguiremos ter uma vida totalmente despreocupada. O ser humano tem problemas, tem medos que o fazem diferente de um coelho que brinca inocentemente.
Os títulos de seus últimos livros parecem tirados de manuais de auto-ajuda, mas falam somente sobre questões filosóficas cruciais. A filosofia pode nos ajudar a viver melhor?
Sim. Quando a filosofia surgiu, na Grécia, era uma “aprendizagem sobre a vida”, e não um discurso chato, como hoje. Naquela época, as escolas de filosofia passavam como lição de casa exercícios para os alunos viverem melhor e mais livres. Por isso, um dos meus livros têm o título Aprender a Viver, que é uma frase de Sêneca, o filósofo estóico grego. Só depois da vitória do cristianismo sobre a cultura grega que a filosofia vira questão religiosa e acadêmica. Quando a religião cristã se sobrepõe à filosofia, principalmente a partir da Idade Média, e toma para si a questão da “aprendizagem da vida” ou do “saber viver”, a filosofia fica esvaziada de seu objetivo principal e se transforma em um estudo abstrato e puramente teórico. Apesar de a vida na Grécia e no século 21 serem bem diferentes, os problemas do ser humano são parecidos. Como os gregos, nós hoje achamos que uma vida mortal bem-sucedida é melhor que ter uma imortalidade fracassada, uma vida infinita e sem sentido. Buscamos uma vida boa para quem aceita lucidamente a morte sem a ajuda de uma força superior.
Mas atualmente ajudar a viver melhor não é papel da psicologia?
O projeto da filosofia e da psicologia é igual – salvar o ser humano dos seus medos. Mas os caminhos são bem diferentes. Acho que a psicologia nos diz “como” e a filosofia responde “por que”. A psicologia acalma e a filosofia mostra o sentido".